escrita

Há mais de 2.500 anos, um estranha forma de escrita era utilizada no Sudoeste da Península Ibérica, longe das cidades litorais mais influenciadas pelas culturas estrangeiras. Quem seriam estes escribas?

Texto: Gonçalo Pereira Rosa
Fotografias: António Cunha

Todos os anos, a freguesia de Salir, em Loulé, comemora a Festa da Espiga.

Entre as actividades tradicionais evocadas no programa, está a arte das lavadeiras – figurantes encenam o trabalho destas mulheres que, usando a água dos rios e uma placa de xisto, repetem o trabalho da barrela. A placa é sempre a mesma – uma peça de xisto recuperada por Jorge Narciso há muito da estrutura de um poço perto do sítio da Cortelha. 

Este ano, ao ver a peça, o fotógrafo Jorge Graça detectou signos numa das faces. O Museu Municipal de Loulé (MML) detém estelas com escrita do Sudoeste na sua colecção e o Projecto Estela, dos arqueólogos Pedro Barros e Samuel Melro, tem divulgado amplamente este tipo de registos na região.
A similitude parecia evidente. “Foi um acaso, como sucede quase sempre com as descobertas destas inscrições”, diz Ana Rosa Sousa, directora técnica do MML. “Mas pesou certamente o conhecimento de estelas semelhantes expostas em Loulé.”

No final do século XVIII, Frei Manuel do Cenáculo registou a ocorrência de várias destas inscrições no Alentejo. Chamou-lhes premonitoriamente “pedras Phenicias”, reconhecendo nos signos um carácter pré-romano. Nos séculos seguintes, à medida que se processavam mais descobertas, este sistema de escrita foi ganhando outros nomes. Estácio da Veiga designou-a como “escrita do Algarve”, reflectindo a importância regional das ocorrências. Outros autores trataram-na como “escrita ibérica” ou “sud-lusitana”. Uma forte tradição associou esta escrita ao universo tartéssico apesar de mais de 90% das descobertas se registarem fora do limite geográfico desta cultura. Nas últimas duas décadas, vingou por fim a designação “escrita do Sudoeste”.

“Raramente se processaram descobertas in situ, o que dificulta a interpretação”, comenta o epigrafista Amílcar Guerra. “Nos raros casos em que tal sucedeu, foi em contexto de reutilização no período romano, que nada esclarece sobre a função original.”

No início da década de 1990, os arqueólogos Manuel e Maria Maia fizeram uma descoberta espantosa: numa placa de xisto, um mestre e um aprendiz reproduziram 27 signos desta escrita – o primeiro com objectividade, o segundo procurando reproduzir os signos do mestre. “Não foi a pedra de Roseta desta escrita porque não nos aproximou da compreensão, nem a comparou com uma escrita conhecida, mas deu-nos uma ideia do universo de signos disponíveis”, diz Guerra. “Entretanto, noutras estelas, apareceram alguns signos inexistentes no signário de Espanca”, acrescenta Pedro Barros. “É compreensível: sem um sistema de uniformização, a escrita do Sudoeste foi usada com liberdades regionais por cada escriba.”

“O universo cronológico das estelas encontradas até agora situa-se na I Idade do Ferro, entre os séculos VI e V a.C.”, diz Guerra. Ao contrário do que acontece com os vestígios materiais, a língua e a escrita fenícias estão escassamente representadas nas áreas onde a influência dessa cultura é mais substancial. Na região onde a escrita do Sudoeste mais se manifesta, a cultura material sugere geralmente menor influência exógena. 

A descoberta da estela da Cortelha junta-se a um universo de mais de uma centena de inscrições já conhecidas. É mais uma peça de um puzzle antigo, que requer paciência e desafia a imaginação. Quem seriam os escribas do Sudoeste peninsular?  

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