aborígenes

Saboreando o sol e o mar, Mawunmula Garawirrtja, uma rapariga aborígene yolngu, bóia numa piscina de maré perto da comunidade de Bawaka, na costa da Terra de Arnhem, no Norte da Austrália.

Os aborígenes tiveram o continente só para si durante 50 mil anos. Actualmente, representam menos de 3% da população e o seu estilo de vida tradicional está a desaparecer. Em alguns territórios, porém, os modos de vida antigos ainda perduram. 

Texto: Michael Finkel

Fotografias: Amy Toensing

Os dois homens empunham as lanças, entalhadas à mão em madeira de eucalipto, e caminham descalços sobre a terra vermelha até chegarem à beira de água. 

Sobem a bordo de uma embarcação de alumínio, com o motor já ligado, e cruzam uma baía quente de águas baixas no mar de Arafura, na fronteira bravia do Território do Norte, na Austrália.

Terrence Gaypalwani permanece em pé à proa, fitando a água e indicando com a ponta da lança o rumo a seguir. Tem 29 anos. Está a meio da sua carreira como caçador. Com mais de 40, Peter Yiliyarr, já ancião, comanda o motor. A orla costeira é um entrelaçado de raízes de mangue, o sol torna-se um candeeiro brilhante de calor. Trinta minutos. Os homens não falaram um com o outro, embora por vezes os yolngu comuniquem entre si por meio de linguagem gestual. 

Por fim, Terrence ergue a lança, recua o ombro para projectá-la, e eu, olhando para o lado junto à embarcação, vejo uma sombra na água. A zagaia é erguida e lançada com força.
A sombra sobe, a lança desce e as duas intersectam-se na superfície da água. 

A tartaruga-verde atingida mergulha. O corpo tem a largura de uma mesa de jogo e provavelmente será mais velha do que os dois homens.
A ponta metálica da zagaia, enterrada na carapaça, separa-se do cabo, em conformidade com o fim para que foi concebida. O cabo afasta-se, flutuando (será recuperado mais tarde), mas uma corda ficou atada à base entalhada da ponta da lança e a linha vai-se largando, a partir de um rolo que Peter segura. Os dois homens apresentam cicatrizes finas e longas sobre a palma das mãos e no peito. A linha solta-se, embora agarrada à outra extremidade se encontre uma bóia branca. Esta salta do barco e desaparece sob as águas.

A bola pula fora de água e o barco vai direito a ela. Desta feita, é Peter quem empunha a lança e, quando a tartaruga aparece, ele atira-a. Uma vez mais, a zagaia crava-se no alvo. A ponta separa-se do cabo e uma segunda corda começa a desenrolar-se. Terrence agarra a primeira corda e os dois homens puxam-na, com as veias dos braços inchadas, içando as cordas. Em breve, a tartaruga é encostada ao casco do barco. 

Os homens debruçam-se e cada um segura uma barbatana, que ainda bate, fincam os pés contra a borda do barco e inclinam-se para trás. A tartaruga é erguida da água e os homens caem para trás quando o animal entra, deslizando, na minúscula embarcação, que balança de um lado para o outro com o peso da criatura. 

 Antes de conseguir visitar Matamata, uma aldeia perdida no mato com cerca de 25 habitantes, tive de pedir licença à mãe de Terrence. Phyllis Batumbil é a matriarca, uma mulher que expressa opiniões sem restrição, cuja gargalhada nos pode fazer saltar o chapéu e cujas descomposturas são capazes de pôr um cão a ganir. Existem dois telefones em Matamata. Phyllis é dona de um deles. O resto da aldeia partilha o outro. 

Telefonei e ela atendeu o telefone. Apesar de dominar vários dialectos do yolngu matha, o idioma dos yolngu, Phyllis exprime-se igualmente em inglês. À semelhança de muitos yolngu, utiliza um primeiro nome inglês e um segundo nome aborígene, preferindo que a tratem pelo nome aborígene. Considera-se artista. Cria desenhos simbólicos de raias, lagartos e outros totens sagrados, sobre tiras de casca de árvore e troncos ocos, servindo-se de um pincel feito a partir do seu próprio cabelo. 

 

A floresta satisfaz as necessidades de Bronwyn Munyarryun, que arrancará a bainha macia da melaleuca para modelar uma cama a usar num ritual de cura. Ela vive na zona da Terra de Arnhem varrida pela monção.

Perguntei-lhe se poderia permanecer em Matamata durante duas semanas e disse-lhe que pagaria alojamento e refeições. Autorização concedida. Poderia levar algo comigo, perguntei? 

“Jantar para 25 pessoas”, retorquiu. 

Aluguei um Cessna numa das cidades mais próximas e o piloto levou-me, voando baixo sobre o mato. Do ar, avistavam-se árvores magras, direitas e muito espaçadas entre si, parecidas com um mau transplante de cabelo. Chegámos por fim a uma grande clareira rectangular com um punhado de casas com o formato de vagões ferroviários de um dos lados. O piloto fez pousar o avião. Phyllis estava sentada à sombra de uma velha mangueira, tricotando uma mala de mão a partir de fibras naturais, rodeada pelos seus cinco cães. Vestia uma camisa preta sem mangas, um sarong púrpura alegre, óculos de leitura com armação de plástico e unhas pintadas de verniz encarnado. Numa balbúrdia de caracóis negros, o cabelo estava apanhado no alto da cabeça com uma fita amarela.  

Descarreguei dois sacos de viagem e uma dúzia de sacos de supermercado com produtos alimentares. Jantar para 25 pessoas não é carga pequena, observei. Olhe bem para aquela comida toda, disse Phyllis. Imagine se tivesse de recolher aquilo tudo num só dia, servindo-se apenas de uma lança? E depois o mesmo no dia seguinte e no outro a seguir também? Respondi-lhe que seria impossível. O povo aborígene faz isso todos os dias há pelo menos 50 mil anos, retorquiu.

Durante 49.800 desses 50 mil anos, eles tiveram o continente por sua conta exclusiva. Antigamente, havia cerca de 250 idiomas aborígenes distintos. Existe uma profunda sobreposição espiritual e cultural entre todos. Durante milhares de gerações, viveram em pequenos grupos nómadas, como convém a caçadores-recolectores, deslocando-se pelas vastas extensões da Austrália. Foi então que, no dia 28 de Abril de 1770, o explorador britânico James Cook fundeou o seu Endeavour junto à orla costeira do Sudeste australiano. Os dois séculos seguintes foram uma câmara de horrores de obliteração cultural: massacres, doença, alcoolismo, integração forçada, rendição. 

Actualmente, vivem na Austrália mais de meio milhão de aborígenes, representando menos de 3% da população. Poucos aprenderam a interpretar uma dança aborígene ou a caçar com lança. Muitos antropólogos consideram que os aborígenes possuem a mais duradoura religião do planeta, bem como as mais antigas formas de arte praticadas em continuidade – os estilos de pintura com padrões formados por linhas intersectadas e pontos outrora executados em cavernas e abrigos. Eles são uma das sociedades mais sustentáveis que alguma vez habitou a Terra. Mas o modo de vida aborígene tradicional está actualmente quase extinto, seja qual for o critério de avaliação. 

Quase. Ainda subsiste num punhado de lugares. O mais importante é a Terra de Arnhem, onde Matamata se localiza, juntamente com mais duas dezenas de outras comunidades, todas ligadas entre si por estradas rudimentares, pelas quais só é possível transitar com tempo seco. 

A Terra de Arnhem não está totalmente isolada do mundo contemporâneo. Possui electricidade solar, telefones por satélite, barcos de alumínio e televisores de ecrã plano. Mas é suficientemente impenetrável, nela abundando espinheiros, serpentes, insectos e crocodilos. Se a nova geração trocar a lança pelo supermercado, então o fim terá efectivamente chegado. Interroguei-me sobre quais seriam as suas probabilidades de sobrevivência. Por isso, telefonei a Phyllis.

Inspeccionou os meus sacos com alimentos de supermercado e perguntou-me se eram mesmo para partilhar. Garanti-lhe que sim. Pouco depois, a comunidade reuniu-se em torno dos géneros alimentares. Tinha comprado bifes, legumes, latas de ravioli e pacotes de sumo de fruta. Matamata é, no essencial, uma única família alargada, lar dos filhos, netos, sobrinhas e irmãos de Phyllis Batumbil. Num ápice, tudo desapareceu, até os lanchinhos que eu trouxera para mim.

A expressão na minha cara deve ter-me denunciado: Phyllis perguntou-me se eu tinha fome. Reconheci que sim. “Vá com os rapazes e cacem uma tartaruga”, foram as suas instruções. 

Esta é a maneira de comer uma tartaruga marinha. Primeiro, escava-se um buraco muito grande para fazer a fogueira. Apanha-se lenha. Acende-se o fogo. Coloca-se um punhado de pedras do tamanho de punhos no meio do fogo, arrasta-se a tartaruga para cima delas, tapam-se as fendas abertas na carapaça pelas lanças com pedacinhos de madeira (o que impede o sangue de sair enquanto vai cozinhando) e decapita-se o animal com um machado. Reserva-se a cabeça: as bochechas de tartaruga são deliciosas. Extrai-se a longa mangueira branca formada pelos intestinos. Estes serão lavados, cozidos e também comidos. 

Retiram-se as pedras aquecidas pelo fogo e despejam-se dentro do buraco do pescoço da tartaruga – o que ajuda a cozinhar a carne de dentro para fora. De seguida, recheia-se o buraco com folhas cortadas de fresco. Com a ajuda de outra pessoa, ergue-se a tartaruga e coloca-se sobre o fogo, de barriga para o ar, cobrindo-a com carvão. Dá-se calor durante dez minutos e depois retira-se do fogo. Cortam-se grandes rojões de carne cor de marfim e tiras de gordura verde berrante. Recolhe-se o sangue num recipiente. Distribui-se por toda a gente da aldeia: os cães ficam com as barbatanas. Faz-se o banquete.  

Marvin retira um gordo verme branco com cerca de 30 centímetros. “Come-o”, diz. Assim faço. Nada mau: sabe a calamares salgados. 

Em Matamata, o pôr do Sol é a hora dos mosquitos. Em quase todos os alpendres das casas, soam palmadas. Há cinco casas em Matamata, todas dispostas ao longo de uma linha irregular perpendicular à praia, viradas para a pista de aterragem de terra batida. Estas casas compostas por módulos, fornecidas pelo Estado, possuem exteriores de chapa de aço ondulada para dissuadir as térmitas e dividem-se em três salas simples. 

A cozinha faz-se ao ar livre, numa fogueira aberta, embora cada casa disponha de um lavatório com água corrente e de um frigorífico. 

Para os yolngu, tudo o que existe é uma tela, incluindo pedregulhos, árvores, paredes dos quartos de dormir ou exteriores das habitações. Tudo está normalmente adornado com linhas intersectadas ou com figuras humanas e animais ao estilo de petróglifos.

Entre as casas, avistam-se pequenos bosques de mangueiras, bananeiras e cajueiros. Para se petiscar qualquer coisa, pouco mais é preciso do que erguer o braço e apanhar fruta nos ramos. Mesmo numa aldeia tão pequena, que se percorre descontraidamente a pé durante três minutos, existem diversos bairros: duas ou três casas de solteiros, um par de famílias com filhos e, na extremidade mais distante do mar, o complexo residencial de Phyllis. 

Ela partilha um quarto com a irmã nonagenária da mãe, enquanto os restantes quartos se encontram ocupados por um dos filhos e por um dos netos, o qual, por sua vez, também tem um filho jovem – cinco gerações, por vezes, numa única casa. Em Matamata, toda a gente se dá bem, mas existem querelas como em todas as famílias. Cada vez que Phyllis se referia a alguém da aldeia, anexava-lhe automaticamente ao nome a palavra “preguiçoso”. Dois dos seus netos tiveram uma discussão tão violenta um com o outro que acabaram a lutar com navalhas, ferindo-se. 

O calor das horas diurnas é vencido languidamente, em tarefas domésticas, como entalhar madeira para lanças e lavar roupa, ou, quando a maré está de feição, na pesca com lanças. As tartarugas são alimento disponível todo o ano, mas os homens também capturam raias, cavalas e um mamífero marinho do tamanho de uma morsa chamado dugongo. Só quando chega a hora da mosquitada é que a criatividade de Phyllis começa a despertar: é frequente pintar ou tricotar pela noite fora e costuma dormir até tarde.
“A minha cabeça não funciona bem de manhã”, explica. Phyllis nasceu em 1956 numa comunidade dirigida por missionários metodistas. O pai teve oito mulheres. Pouco depois de nascer, ficou prometida a um homem, à maneira tradicional dos yolngu e casou-se aos 15 anos. O marido tinha mais vinte anos do que ela e morreu em 2000. 

 

Os anangu chamam a este monólito de arenito Uluru e creêem que foi criado pelos seres ancestrais. Os europeus rebaptizaram-no como Ayers Rock em 1873, mas o nome foi de novo mudado para Uluru em 1985.

Em 1976, ao abrigo da Lei dos Direitos dos Aborígenes à Terra aplicável ao Território do Norte, a Terra de Arnhem, com mais de noventa mil quilómetros quadrados, foi devolvida aos seus donos tradicionais. Por essa altura, já algumas comunidades aborígenes tinham sido devastadas pelo alcoolismo e por outros males. E ainda o são. Uma característica definidora do estilo de vida dos caçadores-recolectores é o consumo instantâneo: assim que se obtém alimento, o mesmo é partilhado e devorado de imediato.

Em quase todo o mundo, os seres humanos dispuseram de dez mil anos para se adaptarem gradualmente ao ritmo de uma sociedade agrícola sedentária, onde a paciência, o planeamento e a conservação são factores decisivos para a sobrevivência. Aos aborígenes impôs-se a expectativa da conversão a um novo modo de vida praticamente de um dia para o outro. Consumo desenfreado combinado com disponibilidade ilimitada de bebidas alcoólicas é igual a catástrofe. O mesmo é válido para os açúcares processados: existe uma elevada prevalência de obesidade e de diabetes entre os aborígenes. De tabagismo também.

Na cidade onde Phyllis e o marido (ele trabalhando como pintor, ela como costureira), tornava-se difícil escapar ao chamariz do alcoolismo e da violência que sempre o acompanha. Não era sítio para criar uma família. Phyllis e o marido acabaram por convencer-se de que a única vida feliz era a vivida em isolamento sossegado, dependendo das dádivas da terra. Por isso mudaram-se para o mato. “Decidimos regressar a casa”, diz.

Os crocodilos de água salgada podem ter mais de seis metros. Nas duas semanas em que andei no mato, comeram duas crianças. 

A sua decisão, segundo os profissionais de saúde locais com quem falei, foi sensata. Possivelmente salvou-lhe a vida. Comparados com os aborígenes que residem em cidades e vilas, os moradores nos territórios ancestrais ingerem alimentos mais saudáveis, vivem mais tempo e são expostos a níveis menores de violência.
A maior cidade do Território do Norte é Darwin. Em Janeiro de 2012, em Darwin, um dos irmãos de Phyllis foi assassinado durante uma luta com facas. Entregaram o seu cadáver em Matamata.

Depois de se mudar para o mato com o marido, Phyllis teve três filhos, dois rapazes e uma menina. Terrence é o mais velho. A filha gerou três filhos e depois morreu de doença cardíaca. Os três rapazes, com pouco mais de 20 anos, vivem em Matamata. O sistema educativo formal da aldeia funciona intermitentemente. Phyllis é a professora. Durante a minha permanência, contudo, não houve aulas e eu nunca vi um livro. 

No entanto, a escola do mato é impecável.
Terrence e a sua mulher têm dois gémeos de 9 anos. Correm por todo o lado empunhando zagaias de tamanho próprio para crianças e, por vezes, acompanham o pai nas expedições de barco, observando-o a caçar. Praticam todos os dias os complexos passos de dança yolngu, acompanhados ao ritmo das palmas dos seus progenitores. Os casamentos combinados na infância já são raros. A busca de um companheiro é agora mais moderna, explica ela. “Corre-se por toda a parte como uma formiga castanha até se ficar satisfeito. Então, constrói-se um monte grande.” 

Nenhuma bebida alcoólica é permitida em Matamata. Esta é, acima de tudo, uma regra de Phyllis. E é a lei. As medidas de emergência de 2007 para o Território do Norte foram tomadas principalmente como forma de reagir ao alegado número de casos de maus tratos infantis em comunidades aborígenes. Esta iniciativa, polémica e com carga racial, fez aumentar o número de agentes de polícia nas zonas aborígenes e impôs restrições severas ao consumo de álcool, entre outras medidas. Alguns aborígenes com quem falei reconheceram com relutância que estas medidas atenuaram alguns aspectos da crise, embora muitos australianos se oponham veementemente a elas, afirmando que os novos regulamentos representam uma infracção demasiado grave das liberdades individuais. 

Numa zona maioritariamente desprovida de policiamento como é Matamata, seria fácil desrespeitar a lei, mas Phyllis tem tolerância zero ao álcool e eu nunca pus os olhos sequer numa gota. Phyllis, contudo, à semelhança de muitos adultos, fuma como uma chaminé. Na verdade, dois artigos provenientes do exterior condicionam a qualidade de vida: o tabaco e a gasolina. Quando não há combustível, os motores dos barcos não funcionam, não se pode apanhar tartarugas e todos ficam com fome. Quando não há tabaco, ainda é pior. Presenciei uma situação de escassez intensa, durante a qual Phyllis espatifou o seu cachimbo favorito, raspou a resina solidificada no seu interior e fumou-a num cachimbo novo.

O dinheiro necessário para adquirir bens essenciais provém de diversas origens. Os yolngu são esporadicamente contratados para fazerem trabalhos manuais: durante a minha visita, um grupo de homens ajudou a içar um depósito de água, instalando-o no alto de uma torre. Por este serviço, recebem do Estado uma remuneração que pode ser superior a duzentos euros por semana. Muitas pessoas que não trabalham também recebem dinheiro, pagamentos do Estado a que os australianos de baixo rendimento têm direito, sejam eles aborígenes ou não. Outras comunidades aborígenes recebem chorudos pagamentos de direitos das empresas mineiras. A bauxite, minério que é a principal fonte do alumínio, existe em abundância na Terra de Arnhem. Phyllis recusou terminantemente que qualquer minúsculo pedaço da sua terra fosse tocado por uma empresa mineira, apesar das generosas ofertas recebidas. “Será preciso darem-me um tiro e passarem por cima do meu cadáver antes que qualquer actividade mineira aqui seja desenvolvida”, diz. 

As pinturas sobre casca de árvore feitas por Phyllis, com linhas laboriosamente intersectadas, em pigmentos de fabrico caseiro a partir de argila branca, vendem-se por 1.140 euros. Os seus sacos de corda, ornamentados com penas de aves, custam 380 euros. Ela sonha adquirir Internet por satélite e criar um sítio na Internet para vender os seus trabalhos directamente, evitando assim pagar comissões às galerias de arte.

Como uma criatura de muitas pernas, os dançarinos parecem mudar de forma, contorcendo-se e alongando-se em sincronia. 

Em Matamata, há um único carro, um Land Cruiser branco ferrujento no qual toda a gente ambiciona dar uma volta, possivelmente porque contém o único aparelho de ar condicionado da aldeia. A temperatura pode chegar perto de 38°C quase todos os meses do ano. Várias vezes por dia, um grupo de pessoas percorre de carro o décimo de quilómetro que separa a aldeia da praia a fim de verificar se a maré está boa para caçar tartarugas. A loja decentemente abastecida mais próxima, localizada na cidade mineira de Nhulunbuy, fica a quatro horas de carro, a alta velocidade pelas estradas estreitas e cheias de areia. 

 

Os yolngu consomem todas as partes da tartaruga-verde, dos órgãos ao tecido conjuntivo amarelo. 

Matamata costuma ter duas estações genéricas: a estação húmida, que dura normalmente de Dezembro a Março, e a estação seca, durante o resto do ano. As estradas transformam-se em sopa durante a época das chuvas, mas é sempre possível viajar de barco junto à orla costeira, demorando meio dia a chegar à cidade. Um avião costuma também fazer escala pelo menos uma vez por semana, trazendo um profissional de saúde e, quando volta a descolar rumo a outras comunidades aborígenes, duas ou três pessoas aproveitam frequentemente os lugares vazios, por uma tarifa baixa, e vão visitar amigos e parentes. Os yolngu gostam de se mover: a população de Matamata nunca é a mesma de um dia para o outro. Quando um dos netos de Phyllis saltou para dentro do avião, levou consigo o cachorro e o televisor, mas nem sequer pensou em levar consigo um par de sapatos. 

Phyllis não gosta de mosquitos e não tem quaisquer pruridos em matá-los. Mas acredita que tem uma relação com eles. Chama-lhes as suas avozinhas. “Tentei dormir uma sesta, mas as minhas avozinhas estavam lá todas”, disse-me uma vez. Estava a gracejar, embora a intenção fosse séria. Os mosquitos fazem parte da sua terra e estão imbuídos de um espírito e de um propósito essencial. Nesse dia, o propósito era, assim sugeriu, evitarem que ela dormisse a sesta, para ajudá-la a entender que a vida não é fácil. 

Segundo a lenda aborígene, toda a superfície da Terra foi outrora uma extensão de lama ou argila, desprovida de características. Foi então que os seres ancestrais emergiram, assumiram a forma de um animal, de uma planta ou de um ser humano, e empreenderam a sua jornada através da terra, moldando a lama em rios, colinas, ilhas e cavernas. Isto aconteceu numa época denominada Tempo do Sonho. E o caminho percorrido por cada um desses seres, o campo que moldaram antes de se enfiarem de novo debaixo do solo, chama-se Melodia. 

Dos seres ancestrais nasceram igualmente todas as criaturas vivas. Deram-lhes a linguagem, o conhecimento, o ritual e a fé. Cada aborígene tem um Sonhador, o antepassado que lhe deu origem, fosse ele uma serpente, uma tartaruga ou um inhame. Um dos Sonhadores da família de Phyllis é o dingo, o cão selvagem da Austrália, razão pela qual ela gosta tanto de viver rodeada de cães. É fundamental conhecer a Melodia do seu Sonhador para ser capaz de seguir o caminho do seu particular ser ancestral, falar a sua língua e aprender a sua música, explicou ela.

Esta espiritualidade que tudo abrange não é expressa abertamente. A verdade é que na vida quotidiana não parece existir qualquer ritual evidente, embora as pessoas sejam supersticiosas. Andar a pé sozinho, crê-se, torna uma pessoa vulnerável à feitiçaria. Mesmo quando alguém em Matamata vai à casa de banho, é costume levar outra pessoa consigo. No cemitério de Matamata, o único símbolo religioso é uma cruz cristã, testemunho evocativo dos missionários metodistas que chegaram à Terra de Arnhem pouco depois de 1900. As crenças dos aborígenes manifestam-se com toda a força em duas ocasiões principais: na cerimónia de iniciação de um rapaz, realizada por volta dos 10 anos de idade, e num funeral. 

Convidam-me para assistir ao funeral de um respeitado ancião yolngu, realizado num troço de areal da praia perto da cidade de Yirrkala. Os homens pintam os rostos e corpos com argila branca e transportam lanças cerimoniais. Detêm-se diante de uma tenda, especialmente construída para a ocasião, dentro da qual jaz o corpo. Os homens mais velhos fornecem a música, produzindo o som ritmado de baquetas, percutidas umas contra as outras, um cântico trilado, o zumbido vibrante do didgeridoo. Então, os dançarinos, como seres ancestrais do Tempo do Sonho, parecem mudar de forma diante dos meus olhos, contorcendo os corpos, alongando os pescoços, batendo os pés no chão e levantando lanças, movimentando-se todos ao mesmo tempo, como uma criatura de mil pernas, fazendo esvoaçar a areia e escorrendo suor.

Imitando um animal ou um acontecimento natural, cada dança é curta e intensa. Há a dança da gaivota branca, a dança do polvo, a dança do vento norte, a dança da catatua. Algumas são executadas apenas por mulheres. 

O funeral prolonga-se por dez dias. Vão chegando representantes de comunidades localizadas em muitos lugares do mato para preparar a alma para a sua jornada com a mais grandiosa das despedidas possíveis. Peço a duas ou três pessoas que me descrevam a vida no Além. “Não sabemos o que acontece quando se morre”, respondem.

Os yolngu são gente do fogo, afirma Phyllis. Enquanto deambulam a pé pelo seu território, é frequente provocarem fogos florestais. As crianças, mesmo pequenas, quando ainda mal caminham, podem atear fogos. Esta prática mantém a terra livre de árvores abatidas e de capim alto, dando-lhes maior facilidade de movimentos através do mato e renovando a vida das plantas. 

Porém, nos olhos de cada pessoa face a um incêndio activo, lê-se algo mais profundo do que boas práticas de manutenção florestal. Encoste uma chama à ponta de uma folha de palmeira durante a estação seca. A folha arde explosivamente. Num instante, toda a árvore se incendeia num caldeirão de fogo, as chamas saltam para a árvore ao lado e caem no chão. A atmosfera torna-se cor de laranja, sente-se o calor como um abraço de urso e o fogo irrompe por onde quer que o vento o sopre, com o mato a crepitar e a fumegar. Agora, não há como pará-lo: o fogo fará aquilo que entender. Regresse-se a Matamata e, na manhã seguinte, inspeccione-se o horizonte. Um fumo castanho paira baixo no céu enquanto o fogo ainda arde. 

Um yolngu demora 30 a 40 anos a absorver o conhecimento aborígene em toda a sua dimensão. Demora 30 a 40 anos para tornar-se, segundo a descrição de Phyllis, uma “enciclopédia”. Phyllis teme que, em breve, possam deixar de existir enciclopédias yolngu: por toda a Austrália, muitos grupos de aborígenes já enterraram a última que tinham. “Preocupa-me a geração seguinte”, diz.

Um jovem chamado Marvin Ganyin convence-me de que a sua preocupação é desnecessária. Marvin tem 23 anos: ele e a mulher vivem no quarto adjacente ao de Phyllis. A sua mãe era a filha de Phyllis que morreu. O seu pai também morreu. Tem um filho de 2 anos. 

Por um momento, fico cheio de dúvidas acerca de Marvin. As suas duas paixões são combater e jogar futebol australiano, diz. Mostra-me as cicatrizes nos nós dos dedos de todos os seus combates. Diz-me não entender para que servem os livros. “Ler? E o que podemos fazer quando temos fome: comer o livro?”

Um dia, porém, ele bate-me no ombro, entrega-me uma lança e diz-me para o seguir. Caminhamos na direcção do mato. Ele pára debaixo de uma árvore, abana-a e cai dela uma chuva de maçãs silvestres, de casca vermelha, encarquilhada como a dos pimentões. “Se comeres, serás capaz de caminhar longas distâncias”, explica.

Todas as criaturas do mato australiano querem aparentemente envenenar-nos. Há serpentes, sapos-boi, aranhas… Nem o mar é seguro, pois a medusa do género Cubozoa, a raia venenosa, o polvo de anéis azuis e dezenas de espécies de tubarão são mortíferos. Depois, vêm os crocodilos de água salgada, conhecidos como salties, que podem alcançar seis metros de comprimento. Durante as duas semanas em que andei no mato, duas pessoas foram devoradas por estes crocodilos, uma miúda de 7 anos e um rapaz de 9. Dou a Phyllis os pêsames por estas mortes, mas ela mantém-se imperturbável. São coisas que acontecem. 

Eu e Marvin chegamos a uma colina. Ele diz tratar-se de uma colina sagrada. É ali que crescem as árvores das quais se extrai a madeira utilizada para fazer os didgeridoos. Bate no tronco de um eucalipto. Oco. Marvin é um executante exímio, o melhor de Matamata. 

Saindo do mato, emergimos junto a uma praia prístina. Nem uma só pegada. Prosseguimos até alcançarmos um quebra-mar natural de rochas negras, sarapintadas de ostras. Marvin bate nalgumas, abrindo-as, e sorvemo-las directamente da concha. Depois, ele arremessa a lança que se crava num enorme caranguejo. Deslocamo-nos rapidamente pela floresta de mangue, onde Marvin parte uma raiz e mergulha o dedo no interior da madeira macia vermelho-acastanhada. Retira do interior um gordo verme branco com cerca de trinta centímetros de comprimento. Ergue-o e espreme-o, fazendo expelir uma pasta castanha lamacenta da região inferior. Passa-me o verme. “Come-o”, diz, de olhos a brilhar. E como mesmo. Nada mau, sabe a calamares salgados. 

“Vamos embora antes que os dingos nos farejem”, sugere. Voltamos para trás. De caminho, mostra-me uma planta cujo florescimento indica o começo da época de caça à raia. Os seus heróis, refere, são Bruce Lee e Muhammad Ali. Insiste que nunca seria capaz de viver na cidade.
“É demasiado aborrecido. A comida é má.”
Diz não haver nada melhor do que caçar as nossas refeições. “Mesmo quando ficar com o cabelo branco, continuarei a ser caçador”,  diz. Marvin insiste que aprenderá todas as tradições dos yolngu e que tornar-se-á uma “enciclopédia”. As pessoas hão-de dançar dez dias por ele no seu funeral. 

Chegamos a Matamata, grelhamos o caranguejo sobre uma fogueira e preparamos chá.
O pôr do Sol torna o céu rosado. Damos palmadas para enxotar a mosquitada. Marvin retira farpas e pedacinhos de conchas da planta dos pés com a ponta de uma tesoura. Marvin traz cá para fora o seu didgeridoo, decorado apenas com algumas tiras de fita-cola garrida.

Pega numa cadeira de plástico, vira-a de lado e senta-se de pernas cruzadas em frente dela. Coloca a extremidade do didgeridoo sobre o assento da cadeira, fecha os olhos e enche as bochechas. A música salta do instrumento e a cadeira de plástico cria uma reverberação semelhante a um trilo, de timbre ora agudo ora grave. Atravesso Matamata a pé, as estrelas cintilam e o som da música de Marvin inunda a noite.  

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