É o segredo mais bem guardado do Sul de Itália. Banhada pelos mares Adriático e Jónico, as suas praias e a sua arquitectura original são um fantástico invólucro para uma cultura repleta de aliciantes.

Texto: Juana Salabert

Localizada no “tacão” da bota italiana, entre os mares Adriático e Jónico, Apúlia é uma das regiões mais fascinantes do Mezzogiorno, a zona meridional de Itália. Para além de um extenso litoral e de paisagens de olivais, campos de trigo e vinhas, a região possui um património artístico e arquitectónico extraordinário. Castelos e fortalezas, catedrais românicas de influência bizantina, palácios e igrejas de um barroco único e peculiares residências rurais dão conta da passagem constante de culturas e civilizações.

Iniciamos o percurso em Bari, um invejado enclave desde a Grécia Antiga, libertado do assédio sarraceno em 1002 pela frota veneziana e porto para as cruzadas nos séculos seguintes. Barivecchia, a cidade velha, é um núcleo heterogéneo que contrasta com as avenidas do Quartiere Murattiano, construído na época napoleónica. As ruas agrupam-se em volta de dois templos: a basílica românica de São Nicolau, santo ao qual há 927 anos se dedica uma procissão marítima, e a Catedral de São Sabino, também românica e detentora de pergaminhos bizantinos. O porto é dominado pelo castelo, mandado erguer em 1233 por Frederico II da Suábia, sobre as ruínas de uma fortaleza normanda antiga. 

A escassos quinze minutos a pé, as praias de Torre Queta e de Pane e Pomodoro convidam ao primeiro banho nas águas do Adriático e a saborear depois o gratin de Bari, um prato composto por arroz, batatas e mexilhões. À tarde, o povoado vizinho de Polignano a Mare encanta o viajante com os seus vestígios romanos e as suas grutas marítimas.

A medieval Trani é outro dos pontos históricos da costa. A atenção  é dirigida primeiro para a sua catedral românica branca, concluída em 1143 e cujas portas de bronze são obra de Barisano di Trani, artífice igualmente da siciliana Monreale. Nas proximidades, ergue-se o Castelo de Frederico II, que funcionou como prisão entre 1800 e 1974 e que é agora um anfiteatro. Quem decidir perder-se pelas suas ruas descobrirá a sinagoga de Scuolanova, uma das quatro que existia no bairro judaico de Trani, transformada numa igreja no século XIV e devolvida ao seu culto original em 2006. 

Legado Romano e Medieval

Na costa, fica igualmente Barletta, onde se concentra um volume abundante de palácios barrocos e igrejas românicas como a do Santo Sepulcro; perto desta, ergue-se a estátua romana do Colosso, com quase cinco metros de altura e traços hercúleos. Barletta possui um dos duzentos castelos mandados construir por Frederico II, após o seu regresso da Terra Santa .

O colosso é Castel del Monte. Esta obra-prima octogonal implantada numa colina foi classificada como Património Mundial. Consagra o número que simboliza o infinito: oito são as suas torres e as salas de cada um dos pisos.

Entramos depois no vale de Itria, polvilhado de aldeias, vilas e cidades de incontável beleza. A sua capital, Alberobello, é famosa pelos singulares edifícios de tecto cónico (trulli), ao passo que Locorotondo ostenta uma malha de casario branco, estreito e muito rectangular (cumerse). Martina Franca, por seu lado, brilha com o seu Palácio Ducal, uma basílica barroca e uma excelente produção vinícola, de azeite, de queijo e de pão.

Continuando a rota até ao fim, surge-nos Taranto meia hora depois.
É ela que dá o nome ao golfo rodeado de povoações marítimas. Segundo a lenda, Taranto foi fundada em 705 a.C. por Taras, um herói salvo de um naufrágio por um golfinho. Conserva duas colunas dóricas de oito metros do templo de Posídon, um dos mais antigos da Magna Grécia. Os cinéfilos têm por perto o povoado de Castellaneta, berço de Rodolfo Valentino (1895-1926) e hoje sede de um museu em sua memória.

A intacta Galatina, em pleno “tacão” da bota italiana, reclama uma longa paragem que permita contemplar o Castelo Ducal e inúmeros palácios barrocos entre os quais se destacam o Scrimeri e o Concerto. 

O País da Tarantella

Galatina é o berço da dança medieval tarantella, que se dança a 29 de Junho perante as imagens de São Pedro e de São Paulo, e que seduziu grandes compositores clássicos dos últimos séculos. Segundo crenças antigas, todas as vítimas mordidas por tarântulas eliminaram o seu veneno movendo-se espasmodicamente ao som desta música. Pelo sim, pelo não, mais vale cumprir o ritual!

Lecce, no centro da península salentina e apelidada de “Florença do Sul”, encanta mais do que qualquer outra città pugliese graças ao seu singular barroco, esculpido sobre o maleável calcário.
O expoente máximo é a Basílica de Santa Cruz, cujos anjos, rosáceas e cariátides compõem uma ilusão óptica de uma textura rendilhada. O centro histórico, ao qual se acede por enormes portas, é guardado pelo que resta das muralhas.

Em qualquer esplanada de Lecce, é possível saborear as pequenas orechiette (massas que formam pequenas orelhas) ou as originais cicere e tria (tiras com grão-de-bico) – a apoteose sensorial de uma viagem inesquecível. Se ainda tiver vontade de ver o mar, pode dirigir-se mais para sul e relaxar na praia de Santa Maria al Bagno, onde na época romana funcionou um célebre porto e um centro balnear, ou a vizinha Santa Maria di Leuca, onde se estende um dos areais mais belos da região.

 

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar