Um mosaico de velhas mansões e ciprestes cobre esta belíssima região. A rota entre Siena e Pisa atravessa vales com aroma a vinho e cidades medievais onde nasceram os grandes artistas do Renascimento.

Texto: Francesco Tarquini

Siena é uma das jóias artísticas de Itália. Ancorada nas suas tradições e na sua histórica rivalidade com Florença, tem o seu coração na Piazza do Campo, obra-prima do urbanismo medieval. É uma concha arquitectónica que, em duas ocasiões durante o Verão, torna-se cenário do Pálio, a corrida de cavalos que junta em disputa os 17 bairros da cidade. Ao fundo da praça, surge a fachada gótica do Palácio Público, sede do Museu Cívico. A seu lado, erguem-se os 87 metros da Torre de Mangia, o campanário. Estes monumentos são a linha de partida para um passeio por ruas empedradas que culmina num dos templos mais belos da Idade Média: o Duomo dell’Assunta, de estilo românico-gótico, onde trabalharam artistas como Giovanni e Nicola Pisano, Donatello, Pinturicchio e Arnolfo de Cambio.

Siena, no entanto, está muito longe de ser uma cidade-museu. Possui um espírito activo e bon vivant, palpável à mesa de qualquer restaurante, em frente de um prato de crostini de fígado, pappardelle com lepre (massa com molho de lebre), pici (uma espécie de pasta) com trufas negras ou um delicioso bife de chianina, a vitela branca da Toscana. Tudo acompanhado, claro, por vinho Chianti ou brunello de Montalcino.

O vinho é, precisamente, o protagonista da rota que sai de Siena rumo a norte até às colinas da comarca de Chianti, no coração da Toscana. A aldeia de Gaiole é um dos principais núcleos de produção da denominação de origem Chianti Clássico e o ponto de partida para visitar locais encantadores como a Pieve di Spaltenna, que remonta ao século XII, ou o Castelo de Brolio, de origem medieval e aspecto neogótico, a partir do qual a silhueta de Siena ganha outra configuração.

Retomamos a nossa viagem até Pisa através de Chianti, deixando para trás aldeias e vilas de tradição vinícola como Catellina in Chianti. Em menos de uma hora aparece Monteriggione, uma aldeia amuralhada com 14 torres fortificadas que evocam o seu passado como fronteira setentrional de Siena. 

A estrada de Colle di Val d’Elsa oferece uma bonita perspectiva do conjunto enquanto nos dirigimos para outra cidade imprescindível: Volterra. 

Memória Etrusca

Cidade de vento e pedra erguida sobre uma colina, Volterra dá as boas-vindas à província de Pisa. Da maioria das suas muralhas, portas, palácios e ruas, solta-se a memória da Velhatri etrusca, a última cidade a cair sob domínio da poderosa Roma. 

Talvez seja a recordação dessa queda que provoca uma certa sensação de melancolia, simbolizada na escultura “Ombra della Sera”, a figura adelgaçada de bronze que está exposta no Museu Etrusco Guarnacci, cuja visita pode ser complementada com o passeio pela zona arqueológica. Depois de conhecer o passado etrusco, chega a hora de contemplar o Palazzo dei Priori (1208), a Fortezza renascentista, a Pinacoteca, o Duomo e o Ecomuseu dell’ Alabastro, onde os mestres escultores de Volterra exibem as suas melhores criações talhadas em pedra branca.

San Gimignano

Ainda estamos longe, mas já se avistam as torres que deram a San Gimignano a fantasiosa alcunha da “Nova Iorque da Idade Média”. Fechada entre muralhas e atravessada por duas ruas principais que formam uma cruz, o seu núcleo é a praça da Cisterna e a praça adjacente do Duomo. Aqui encontram-se os palácios del Popolo, del Podestà e a Collegiata, onde se destacam os frescos de Domenico Ghirlandaio, pintor florentino do século XV.

As torres, com mais de cinquenta metros de altura, foram erguidas pela aristocracia mercantil do século XII. As refregas eram comuns e muitos conflitos foram tão turbulentos que implicaram por vezes que uma família prevalecente sobre outra fosse ao ponto de destruir as torres dos adversários: isto explica que restem apenas 13 das 72 que chegaram a existir. O pôr do Sol é o momento ideal para subir à Torre Grossa do Palazzo del Popolo e admirar uma panorâmica dos Alpes Apuanos até à cordilheira de Pratomagno. Depois, o jantar pode incluir um tagliatelle al ragu bianco di cinghiale (um molho de javali) e vernaccia de San Gimignano, um vinho branco e seco.

Os 46 quilómetros que separam San Gimignano de Vinci cruzam o vale d’Elsa e as suas colinas arborizadas e vinhedos. É o momento de alimentar a alma com a visita ao museu dedicado ao pintor, inventor, arquitecto e cientista que nasceu numa casa de campo a três quilómetros de Vinci e que foi fiel servo de papas, duques e reis de Itália e de França. 

Pausa Artística Em Lucca

A arte guia os nossos passos a caminho de Lucca. A “cidade das cem igrejas” conserva intacta a sua antiga estrutura urbana, como se comprova na praça elíptica onde se encontra o anfiteatro romano, no fórum perto da Igreja de São Miguel e até no esquema ortogonal das ruas do centro. É imprescindível entrar no Duomo para admirar o túmulo esculpido em 1406 por Jacopo della Quercia e passear pela Via Fillungo, onde se misturam edifícios medievais, lojas de moda e de ourivesaria, terminando no Museu do Fumetto, a banda desenhada em italiano.

Pisa, a 30 quilómetros, exibe outro dos conjuntos artísticos mais assombrosos da Toscana: a Praça dos Milagres, cuja harmonia de mármores brancos e cor triunfa na Torre.
A estrutura começou a inclinar-se em 1274, ano em que foi acrescentado o terceiro piso. A praça inclui os maravilhosos Duomo, o Baptistério e o Camposanto. Este conjunto recorda eloquentemente o poder que a cidade exercia entre os séculos XI e XIII e confirma o seu lugar como uma das cidades mais singulares do mundo.

 

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