Em 48 horas, o viajante descobre que esta cidade é muito mais do que a capital da moda e do design. Um passeio pelos seus bairros revela a surpreendente riqueza artística e arquitectónica da cidade.

Texto: Víctor Andresco

Talvez seja na Primavera que existe uma razão maior para que os milaneses definam a sua cidade como o centro do universo. Durante esta estação, tudo parece orquestrado para que um fim-de-semana na capital da moda, do livro, do design e de tantas outras coisas seja uma experiência surpreendente. Essa Milão que identificamos com o Duomo e o mítico teatro Scala é igualmente a cidade universal onde se inventaram as mudanças éticas e estéticas da Itália moderna e que hoje ainda seduz o forasteiro.

Nada como começar a jornada com um café no interior do Palácio Real. Sede do governo milanês desde a Idade Média, foi transformado num sumptuoso palácio durante o século XVIII e hoje acolhe as melhores exposições da cidade. Os amantes de história e de arte terão muitos motivos para passar horas no museu.

Olhando para a elegante Galeria Vittorio Emanuele II e sob a dourada silhueta da Madonnina que coroa a Catedral, a Via Torino abre-se à esquerda para descobrirmos, para além de milhares de lojas de roupas e calçado, lojas de artesanato e de design alternativo. Aqui encontramos um dos melhores “segredos” da cidade: a ilusão óptica de Santa Maria presso San Satiro, na Via Speronari. Trata-se de uma minúscula igreja cuja abside é, na realidade, uma simulação pintada sobre estuque. Esta solução para a falta de espaço foi idealizada por Donato Bramante, arquitecto e pintor a quem devemos o templo e o Convento de Santa Maria delle Grazie, onde Leonardo da Vinci pintou o mural da “Última Ceia” em 1496.

Os Antigos Canais

As colunas romanas de São Lourenço, em frente da basílica homónima, são sinónimo de um ambiente juvenil e do avanço natural dos Navigli. Estes canais artificiais foram construídos no século XII com a intenção de proporcionar à cidade uma saída para o mar, mas o projecto nunca chegou a ser concluído. De todas as formas, os canais acabaram por ser uma via muito útil para transportar os mármores destinados às paredes do Duomo e actualmente conferem uma bonita aparência à zona. Este é o quarteirão por excelência da comida e da bebida, da arte e da festa. Aqui o único problema é decidir, entre tanta variedade, onde comer. Os restaurantes de cozinha tradicional são uma aposta segura, tal como o estabelecimento perto do cais da Porta Ticinese, onde se serve peixe frito de qualidade. Ao longo dos canais, nos quais treinam equipas internacionais de remo, pode visitar-se o estúdio do venerável artista Gigi Pedroli, comprar livros antigos ou encontrar roupa diferente.

O metropolitano e os eléctricos conduzem em minutos à zona de Brera, onde a obrigatória Pinoteca exibe a “Lamentação sobre o Cristo Morto”, de Mantegna, e as naturezas-mortas de Morandi, que justificam, por si, a viagem. Os milaneses apreciam muito estes espaços de exposição. Este quarteirão também é conhecido como a “boémia de luxo”, repleto de cafés ao ar livre que anunciam um ritmo de vida diferente da restante cidade. Até ao início do século XX, muitas ruas deste antigo bairro foram canais navegáveis; agora, os seus pavimentos estão decorados com flores e árvores de fruto, um convite a um passeio sem pressas e ao lazer no Parque Sempione. Enquadrado pelo Arco da Paz (século XIX) num dos extremos e pelo Castelo Sforzesco (século XIV) no outro, o pulmão verde de Milão está sulcado por trilhos ajardinados com fontes ornamentais. O Parque Sempione espalha-se por 47 hectares e é o local predilecto dos milaneses para mitigar o calor de Verão ou aproveitar a languidez dos dias de Inverno.

Entre as estações de Gioia e Garibaldi, a fabulosa modernidade arquitectónica envolve as velhas galerias de arte, as lojas de moda exclusivas do Corso Como e as lojas mais artesanais de mobiliário. Perto do aço e vidro de arranha-céus como o de César Pelli, repousa a memória ilustrada de Itália.
O Cemitério Monumental, considerado um museu a céu aberto, contém algumas das esculturas funerárias mais belas da Europa, realizadas a partir do século XIX, onde repousam Karl Thomas Mozart (filho do compositor), o escritor Alessandro Manzoni ou o Nobel siciliano Salvatore Quasimodo.

À Noite Em Milão

O bairro de Isola é outra surpresa pela sua oferta de música do mundo – imprescindível o clube de jazz Blue Note –, pela sua gastronomia protagonizada pelos pizzoccheri (massa de trigo proveniente da região alpina de La Valtelina) e pelo ambiente boémio que as suas ruas respiram. Teatros como o Verdi ou o Buratto e bares como o Frida transformaram--se em locais de culto.

O segundo dia em Milão pode ser reservado para descobrir recantos clássicos que foram recuperados, como o fantástico cais da Estação Central. O velho terminal ferroviário é um grande pólo de comunicações, com ligações de comboio, metro e autocarro para os três aeroportos da cidade. Alberga igualmente um centro comercial que possui a maior livraria de Itália: a Feltrinelli Express, com 3.000m2 distribuídos por quatro pisos. Transforma-se num verdadeiro prazer sentarmo-nos a ler entre as suas estantes, colocadas directamente sobre mármores e esculturas da década de 1930.

O aperitivo italiano, uma invenção milanesa que fomenta a vida social e evita as grandes refeições, é um ritual essencial da cidade. Se tiver de eleger um que combine qualidade, variedade e ambiente, convém passear pelos arredores da praça do Scala e assim, de passagem, visitar o palácio que acolhe um dos museus das Gallerie d’Italia, um mostruário de arte italiana dos séculos XIX e XX.

Só um gelado pode culminar estas intensas e inesquecíveis caminhadas por Milão. Vale a pena deixar-se levar pelas combinações de sabores com especiarias e frutos secos que oferecem as geladarias da cidade. As suas cremosas e deliciosas criações parecem reclamar para Milão o título de capital dos gelados, para além da moda e do design.

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