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Há 66 milhões de anos, um asteróide atingiu a Terra e aniquilou os dinossauros, mas as aves modernas são a prova de que houve alguns sobreviventes.

Texto:  Victoria Jaggard

Fotografias: Robert Clark

Dividindo a linha de costa com praias de areia branca e hotéis coloridos, os mangues ao longo da costa mexicana do Iucatão são um paraíso para as aves e para os observadores de aves. Os pântanos densamente florestados, situados ao longo de uma grande rota de migração de aves, são um porto seguro para milhões de aves que, todos os anos, realizam perigosas viagens épicas entre as Américas.

Luis Salinas-Peba, meu guia nesta região, é cientista da Universidade Autónoma Nacional do México e especialista em identificação de aves. Sabe como se chamam quase todas as espécies que vemos e ouvimos. A combinação de migrantes de longa distância e espécies locais é estonteante: patos-d’asa-azul vindos do Canadá cruzam o caminho da carriça do Iucatão. Os flamingos convivem com colibris do tamanho de uma chávena.

O ar pulsa com as vocalizações dos corvos-marinhos à medida que a nossa pequena embarcação se aproxima dos seus ninhos. Várias das aves negras elevam-se de súbito, atraindo o meu olhar para cima e os meus pensamentos para o passado, quando um visitante espacial transformou um paraíso primevo num apocalipse incandescente há 66 milhões de anos.

A cerca de cinquenta quilómetros para leste do mangue localiza-se Chicxulub Puerto, uma tranquila aldeia aconchegada no meio de uma gigantesca cratera de impacte que se prolonga pelo golfo do México. Num terrível dia no final do Cretácico, um asteróide do tamanho de uma montanha embateu contra aquilo que é actualmente a costa do Iucatão, cravando-se na terra e desencadeando uma série de acontecimentos catastróficos. Rocha vaporizada e gases nocivos espalharam-se pela atmosfera.
Florestas foram obliteradas por todo o mundo. As temperaturas oscilaram de forma dramática. O impacte e as suas consequências puseram fim ao reino dos dinossauros, eliminando um grupo de criaturas que dominara o planeta durante 135 milhões de anos.

Na verdade, essa erradicação não foi completa.

Se fizermos perguntas a qualquer paleontólogo, ele responder-nos-á que a vida encontrou uma maneira de subsistir e que alguns dinossauros sobreviveram à extinção. As aves modernas são o último ramo remanescente da árvore genealógica destruída dos dinossauros.

“Não resta qualquer dúvida de que as aves são dinossauros”, afirma Luis Chiappe, director do Instituto dos Dinossauros do Museu de História Natural de Los Angeles. “As provas são tão evidentes que duvidar disso é o mesmo que duvidar do facto de os seres humanos serem primatas.” Na paisagem infernal deixada pelo asteróide, o que terá dado vantagem aos antepassados das aves contemporâneas sobre os seus primos do Cretácico? É um mistério difícil de resolver, tendo em conta a raridade de aves no registo fóssil. No entanto, alguns achados excepcionais, associados aos avanços na análise genética, começam a revelar como o impacte de Chicxulub moldou a história da origem das aves contemporâneas. Por sua vez, isso forneceu as primeiras pistas plausíveis de como as aves sobreviveram ao cataclismo e se multiplicaram até às mais de dez mil espécies existentes na actualidade.

A mais antiga raiz conhecida da árvore genealógica das aves é o Archaeopteryx, uma ave do tamanho de um corvo com 150 milhões de anos com uma combinação bastante reveladora de características. Embora actualmente nenhuma ave tenha dentes, o Archaeopteryx possuía mandíbulas crivadas de dentes afiados. Tinha os membros anteriores equipados com garras e uma cauda longa e ossuda. Estas características que se foram perdendo nas aves, revelam laços próximos com os seus primos reptilianos. No entanto, no Archaeopteryx, encontram-se igualmente características de aves contemporâneas. Os seus fósseis mostram asas proeminentes cobertas por penas aerodinâmicas e uma fúrcula semelhante à de qualquer galinha.

Após a sua descoberta, na década de 1860, a espécie foi aclamada como uma etapa de transição entre os dinossauros e as aves, mas poucos fósseis surgiram para preencher as lacunas da evolução e os pormenores sobre os seus antepassados e descendentes permaneceram na obscuridade.

Isso mudou finalmente em 1996, quando foi revelado o primeiro fóssil conhecido de um dinossauro com penas, sem qualquer parentesco com as aves. Datando de há quase 130 milhões de anos, o Sinosauropteryx prima foi uma descoberta especial, que mudou tudo entre as dezenas de espécies espectaculares extraídas das formações rochosas chinesas do Cretácico, sobretudo na província de Liaoning. Depois, emergiu um conjunto de dinossauros não-avícolas e de  aves primitivas suas contemporâneas, frequentemente acompanhados por penas, escamas e pele, por vezes tão pormenorizadas que até conservam vestígios de pigmento. À semelhança do Archaeopteryx, muitos destes animais são combinações surreais entre a noção dominante de uma ave contemporânea e as imagens tradicionais que temos de um dinossauro predador.

Com penas escuras, o dinossauro não-avícola Microraptor gui provavelmente pairava entre os ramos das árvores utilizando as penas rígidas que possuía nos seus quatro membros. Ali perto, a ave primitiva Longipteryx chaoyangensis rodopiava junto dos cursos de água, capturando peixes com mandíbulas reptilianas repletas de dentes. E o Anchiornis huxleyi, um dinossauro cor de carvão com uma coroa de penugem castanho-avermelhada, andava pela floresta, incapaz de voar verdadeiramente devido às suas asas curtas com três garras. “Quem não vir os fósseis com os próprios olhos, nunca acreditará que eles existiram”, diz Shannon Hackett, curadora de aves no Museu Field de Chicago.

Registo da catástrofe Um corte de uma sequência rochosa obtido no Canadá, representando um intervalo entre 500 mil a 750 mil anos, fornece pistas sobre como o mundo era antes, durante e depois do impacte do asteróide na Terra. Paleozóico: Microfósseis descobertos em carvão indicam que as florestas colapsaram e os fetos dominaram a paisagem. Nenhum fóssil de dinossauro foi encontrado nesta camada ou acima dela. Quartzo deformado por impacte e metais raros, como o irídio (escasso na Terra, mas abundante em alguns meteoritos) sugerem o impacte de um meteoro. Cretácico: A transição de argilito creme para carvão mostra a alteração climática de seco para húmido, possivelmente exercendo pressão sobre dinossauros e outros elementos de fauna e flora. Fotografado no Museu Real Tyrrell de Paleontologia, em Alberta, no Canadá Fonte: Dennis Braman, Museu Real Tyrrell de Paleontologia

Apesar desta abundância de achados em Liaoning, os paleontólogos ainda debatiam lacunas no registo fóssil. Algum trabalho relacionado com o DNA situa a origem das aves contemporâneas nas profundezas do Cretácico, com muitos dos grupos avícolas actualmente existentes surgindo numa fase inicial da cronologia. Isto implicava uma narrativa de sobrevivência, pois exigia uma linhagem de antepassados das aves contemporâneas capaz de sobreviver, de alguma forma, à extinção em massa.

Na opinião de outros especialistas, todas as aves existentes antes do cataclismo eram do tipo mais primitivo, como aquelas cujos fósseis foram encontrados na China. Segundo essa teoria, algumas espécies antigas sobreviveram ao impacte, dando origem a um “Big Bang” de evolução de aves modernas apenas após a morte dos restantes dinossauros.

Durante muitos anos, a discussão foi calorosamente debatida. Por fim, fósseis encontrados na Antárctida em 2005 acrescentaram ingredientes novos e excitantes à mistura: o achado revelava uma ave impressionantemente parecida com um pato contemporâneo e que viveu pouco antes do evento de Chicxulub.

Julia Clarke, da Universidade do Texas, descreveu inicialmente a Vegavis iaai com base num fóssil datado de há cerca de 67 milhões de anos, imediatamente antes do impacte do asteróide. As análises anatómicas tradicionais e uma reconstrução digital dos ossos mostram que a Vegavis parecia possuir características no seu esqueleto que existem apenas nas aves actuais, indícios de que faz efectivamente parte de um ramo contemporâneo. Julia e a sua equipa inserem-na no mesmo grupo que inclui os patos e gansos actuais.

Em 2016, a mesma equipa examinou um segundo esqueleto mais completo de Vegavis e concluiu que o animal não só se parecia com um pato, como também grasnava como um pato. O fóssil contém o exemplar conhecido mais antigo de um órgão vocal denominado siringe, uma caixa de pio semelhante à das aves aquáticas actuais.

aves dinossauros

As avestruzes, os patos e as galinhas descendem de dois dos três grupos de aves que surgiram no final do Cretácico e que, de alguma forma, sobreviveram à destruição ocorrida há 66 milhões de anos, segundo os mais recentes dados genéticos e indícios fósseis. Fotografada na Quinta Roaming Acres, em Lafayette, Nova Jersey (Avestruz); Quinta Little Ghent, Ghent, Nova Iorque (Ambas)

“A Vegavis pode ser um dos fósseis primitivos mais importantes” para compreender a disseminação das aves, afirma Daniel Field, especialista em evolução da Universidade de Bath. Esta prova de que um grupo de aves contemporâneas surgiu mesmo antes do impacte do asteróide aumentou a necessidade, já de si crescente, de repensar as opiniões sobre a evolução das aves.

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