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Perto de Joanesburgo, uma auto-estrada separa duas comunidades contrastantes: o bairro burguês maioritariamente branco de Primrose e a povoação de Makause, onde os mineiros desempregados se apropriaram de terras na década de 1990. Quase todos os seus moradores são negros.

Estamos programados para nos distinguirmos dos outros e favorecermos o nosso grupo de pertença. Poderá a ciência descobrir uma solução?

Texto: David Berreby

Fotografias: John Stanmeyer

Apesar das diferenças entre eles, Solomon Igbawua e Dahiru Bala eram grandes amigos. A sua amizade começou na escola, quando os dois caminhavam até casa um do outro entre a aldeia de Igbawua e o povoado de Bala, no estado de Benue, na região oriental da Nigéria. Pensavam então que a sua amizade duraria até ao fim da vida.

De físico compacto e peito volumoso, Igbawua, hoje com 40 anos, é cristão e pertence aos tiv, o povo que cultiva as planícies ondulantes de Benue há longos séculos. Alto e magro, Bala, de 42 anos, é um muçulmano hausa. O seu povo, composto pelos intimamente relacionados hausa e fulani, vive do pastoreio de vacas que pastam em grande parte da África Ocidental. Em muitos lugares, essas diferenças de grupo étnico, religião, língua, cultura e política são mortíferas. Poucas centenas de quilómetros a norte do local onde me encontrei com estes dois homens, o grupo Boko Haram combate todos aqueles que não aderem à sua versão do Islão. Noutros lugares da África Ocidental, e fora dela, pastores e agricultores envolvem-se em combates violentos pelo acesso aos recursos. E outros grupos (raças, tribos, nações, religiões, seitas) permanecem mergulhados noutros conflitos por todo o mundo.

Até há pouco tempo isso não sucedia em Zongo, a aldeia de Igbawua, nem em Daudu, onde Bala vive. Durante a maior parte das suas vidas, houve terra suficiente para todos. Se as vacas espezinhassem o campo de um agricultor, ou se um  pastor descobrisse um caminho cortado por uma nova vedação, havia formas de resolver a querela. 

No entanto, à medida que os dois amigos cresciam e tinham filhos, a população de Benue aumentou. A subida da temperatura secou as terras a norte, empurrando mais pastores para sul. 
O solo de boa qualidade tornou-se escasso. Muitos agricultores encontravam as colheitas destruídas pelas manadas e os ganadeiros descobriam as suas vias de transumância do gado cortadas por novas vedações ou recém-plantadas com culturas. As relações entre agricultores e pastores deixaram de ser descontraídas e cordiais. Mesmo assim, Zongo e Daudu mantiveram a paz através de rotinas partilhadas. Ninguém pensava que alguma vez pudessem acontecer aqui conflitos, conta a mulher de Solomon Igbawua, Katrin.

Um dia, aconteceram. 

Em 2014 “a crise” abateu-se sobre as duas comunidades. As linhas divisórias entre tribos, religiões e culturas transformaram-se em muros. Viver do lado errado do muro revelou-se potencialmente mortífero. Correram boatos. Depois, vieram ataques e contra-ataques. Destruíram-se colheitas, mataram-se animais. A aldeia dos tiv foi incendiada. Homens e mulheres perderam a  vida. 

Solomon e Dahiru contaram-me que não atacaram ninguém: no entanto, quando os grupos se viraram uns contra os outros, esse apaziguamento pouco contou. A crise alterou as normas de comportamento das pessoas. O convívio deixou de ser valorizado. “Eu pensava que ninguém deveria fazer justiça pelas próprias mãos”, afirma Dahiru. “Mas não tive coragem para falar com a minha gente e dizer-lhes o que pensava.” Ele e Solomon tornaram-se refugiados, visitando-se em casa um do outro, mas durante pouco tempo e de dia, sempre de olho nas emboscadas. 

É um infortúnio que acontece em todo o mundo: ao longo de décadas, os seres humanos convivem uns com os outros, ultrapassando barreiras de raça, religião ou cultura. De repente, rostos, anteriormente familiares, passam a ser Eles, o Inimigo, o Outro. 

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