Perto de Joanesburgo, uma auto-estrada separa duas comunidades contrastantes: o bairro burguês maioritariamente branco de Primrose e a povoação de Makause, onde os mineiros desempregados se apropriaram de terras na década de 1990. Quase todos os seus moradores são negros.

Estamos programados para nos distinguirmos dos outros e favorecermos o nosso grupo de pertença. Poderá a ciência descobrir uma solução?

Texto: David Berreby

Fotografias: John Stanmeyer

Apesar das diferenças entre eles, Solomon Igbawua e Dahiru Bala eram grandes amigos. A sua amizade começou na escola, quando os dois caminhavam até casa um do outro entre a aldeia de Igbawua e o povoado de Bala, no estado de Benue, na região oriental da Nigéria. Pensavam então que a sua amizade duraria até ao fim da vida.

De físico compacto e peito volumoso, Igbawua, hoje com 40 anos, é cristão e pertence aos tiv, o povo que cultiva as planícies ondulantes de Benue há longos séculos. Alto e magro, Bala, de 42 anos, é um muçulmano hausa. O seu povo, composto pelos intimamente relacionados hausa e fulani, vive do pastoreio de vacas que pastam em grande parte da África Ocidental. Em muitos lugares, essas diferenças de grupo étnico, religião, língua, cultura e política são mortíferas. Poucas centenas de quilómetros a norte do local onde me encontrei com estes dois homens, o grupo Boko Haram combate todos aqueles que não aderem à sua versão do Islão. Noutros lugares da África Ocidental, e fora dela, pastores e agricultores envolvem-se em combates violentos pelo acesso aos recursos. E outros grupos (raças, tribos, nações, religiões, seitas) permanecem mergulhados noutros conflitos por todo o mundo.

Até há pouco tempo isso não sucedia em Zongo, a aldeia de Igbawua, nem em Daudu, onde Bala vive. Durante a maior parte das suas vidas, houve terra suficiente para todos. Se as vacas espezinhassem o campo de um agricultor, ou se um  pastor descobrisse um caminho cortado por uma nova vedação, havia formas de resolver a querela. 

No entanto, à medida que os dois amigos cresciam e tinham filhos, a população de Benue aumentou. A subida da temperatura secou as terras a norte, empurrando mais pastores para sul. 
O solo de boa qualidade tornou-se escasso. Muitos agricultores encontravam as colheitas destruídas pelas manadas e os ganadeiros descobriam as suas vias de transumância do gado cortadas por novas vedações ou recém-plantadas com culturas. As relações entre agricultores e pastores deixaram de ser descontraídas e cordiais. Mesmo assim, Zongo e Daudu mantiveram a paz através de rotinas partilhadas. Ninguém pensava que alguma vez pudessem acontecer aqui conflitos, conta a mulher de Solomon Igbawua, Katrin.

Um dia, aconteceram. 

Em 2014 “a crise” abateu-se sobre as duas comunidades. As linhas divisórias entre tribos, religiões e culturas transformaram-se em muros. Viver do lado errado do muro revelou-se potencialmente mortífero. Correram boatos. Depois, vieram ataques e contra-ataques. Destruíram-se colheitas, mataram-se animais. A aldeia dos tiv foi incendiada. Homens e mulheres perderam a  vida. 

Solomon e Dahiru contaram-me que não atacaram ninguém: no entanto, quando os grupos se viraram uns contra os outros, esse apaziguamento pouco contou. A crise alterou as normas de comportamento das pessoas. O convívio deixou de ser valorizado. “Eu pensava que ninguém deveria fazer justiça pelas próprias mãos”, afirma Dahiru. “Mas não tive coragem para falar com a minha gente e dizer-lhes o que pensava.” Ele e Solomon tornaram-se refugiados, visitando-se em casa um do outro, mas durante pouco tempo e de dia, sempre de olho nas emboscadas. 

É um infortúnio que acontece em todo o mundo: ao longo de décadas, os seres humanos convivem uns com os outros, ultrapassando barreiras de raça, religião ou cultura. De repente, rostos, anteriormente familiares, passam a ser Eles, o Inimigo, o Outro. 

 

Maria Uwambaje, que perdeu quatro filhos durante o genocídio do Ruanda, em 1994, posa ao lado de Boniface Twagiramungu, que conduziu os assassinos aos seus filhos. Maria perdoou Boniface. O programa dirigido pelo Centro Karuna para a Construção da Paz ajuda atacantes e vítimas a superar os seus traumas. 

Nessa colisão entre grupos, a individualidade esfuma-se e a empatia desaparece, juntamente com a confiança. Pode acontecer entre pastores e agricultores na Nigéria ou entre nativos do país e imigrantes em França, ou nos Estados Unidos. As situações são muito diferentes e as diferenças são importantes. A raiz comum destes problemas, porém, é igualmente importante: por todo o lado, as pessoas ficam “enlouquecidas pela identidade”, para usar a expressão de John Tooby, psicólogo especialista em evolução. É mais forte do que nós: estamos programados, desde a nascença, para distinguir o Nós dos Outros. E, inevitavelmente, favorecemos o Nós, em especial quando nos sentimos ameaçados. 

Como é evidente, os seres humanos partilham essa característica com outras criaturas – das formigas aos salmões, passando pelos macacos. 
O que as outras criaturas quase nunca fazem, porém, é alterar as suas percepções e acções de grupo. As aves e as abelhas mantiveram-se nas suas tribos enquanto os jugoslavos se transformavam em croatas, sérvios e bósnios, guerreando entre si. Só os seres humanos são capazes de decidir que já são compatriotas, depois de partilharem pacificamente uma pátria durante séculos. Só os seres humanos conseguem mudar repentinamente, deixando de sentir-se unidos e passando a sentir-se divididos como estados conservadores vermelhos e estados liberais azuis.

A nossa capacidade para mudar percepções também incute esperança, pois permite que as comunidades evoluam no sentido de mais inclusão, justiça e paz. Na Nigéria e noutros lugares, comunidades dilaceradas por conflitos estão a reintegrar-se com a ajuda de uma fonte surpreendente: cientistas que estudam a mente. Os seus métodos também ajudam a melhorar as relações comunitárias em várias cidades dos EUA. 

Durante uma manifestação em Charlottesville, no dia 12 de Agosto de 2017, apoiantes de extrema-direita impedem a entrada de contramanifestantes no parque onde se encontra uma estátua do general  Robert E. Lee. Pouco depois, iniciaram-se confrontos. Mais tarde, um homem foi morto. Segundo a polícia, o atacante avançou, de propósito, com o carro contra a multidão. 

Eu sou um leopardo.

O neurocientista Jay van Bavel, da Universidade de Nova Iorque, estuda a identidade de grupo. Atribuiu-me esta classificação quando eu estava deitado numa máquina de imagiologia de ressonância magnética junto do seu gabinete. Na máquina, mostraram-me fotografias de rostos (12 jovens brancos do sexo masculino e 12 jovens negros do sexo masculino). A máquina mediu a minha actividade cerebral enquanto eu associava estes indivíduos a identidades de grupo. Criado nos EUA, sempre vivi com as categorias raciais do meu país e não me foi difícil realizar umas das tarefas da experiência: classificar cada rosto segundo a cor da pele, como branco ou negro. No entanto, recebi também instruções para trabalhar com outro tipo de categorias. Disseram-me que os homens das fotografias pertenciam a uma de duas equipas: os Tigres ou os Leopardos. O ecrã mostrou--me a que equipa pertencia cada um deles e, de seguida, deu-me instruções pormenorizadas, até o meu cérebro assimilar a questão. Mas eu não era um observador neutro: disseram-me que eu era um Leopardo.

As tarefas realizadas pela máquina (baseadas numa experiência realizada por Van Bavel e colegas em 2008) permitiam ao investigador comparar a minha actividade cerebral à medida que o cérebro actuava, primeiro com uma identidade de grupo familiar e significativa (raça nos EUA) e, posteriormente, com uma identidade de grupo efectivamente desprovida de significado. 

 

À semelhança dos cérebros observados na experiência real, o meu iluminava-se de maneira diferente, consoante eu observava um rosto do meu grupo (para mim, um membro da equipa dos Leopardos) ou do outro grupo (dos Tigres). O meu córtex órbito-frontal, uma região do cérebro associada aos gostos, iluminava-se mais quando eu olhava um rosto do meu grupo de pertença. O mesmo acontecia ao giro fusiforme, uma região cerebral ligada ao processamento da identidade dos rostos. 

Em Ntarama, os crânios das vítimas revestem as prateleiras de uma igreja onde foram assassinadas cinco mil pessoas. Nas sociedades pós-conflito, a recordação dos horrores da violência de grupo constitui uma motivação poderosa em prol da paz.

Esta experiência confirmou vários factores importantes sobre a maneira exacta como o cérebro humano fica “enlouquecido com a identidade”. Estes exames demonstram, por um lado, que muitas das nossas percepções e emoções relativas aos grupos acontecem sem que as controlemos nem delas tenhamos consciência. Não tenho qualquer preferência consciente por pessoas brancas relativamente às pessoas negras. Pelo contrário, à semelhança da maioria dos norte-americanos, abomino o racismo. No entanto, se não me tivessem dito que eu era um Leopardo, quase de certeza teria mostrado uma preferência inconsciente pelos rostos brancos e não pelos negros. O facto de não ter revelado essa preferência exemplifica outra conclusão importante da investigação de Van Bavel: as novas identidades de equipa podem facilmente suplantar as antigas na nossa mente. Tudo o que Van Bavel precisou de fazer foi dizer--me que havia duas equipas e explicar-me que eu pertencia a uma delas. Isso bastou para que o meu cérebro preferisse os Leopardos aos Tigres, com tanta rapidez e intensidade como, por norma, diferencia os negros dos brancos. 

Estes exames ilustram um facto decisivo acerca do espírito de grupo dos seres humanos: possuímos um radar mental muito diligente que se esforça por perceber a importância dos grupos que nos rodeiam e a quais pertencemos. E este radar está sempre ligado. Mesmo quando vivemos bem com as nossas identidades, a nossa mente está sempre atenta à possibilidade de novas alianças. 

Não é difícil de entender a razão pela qual os seres humanos evoluíram no sentido de se preocuparem com as equipas a que pertencem e com o lugar que ocupam nessas equipas. Contar com os outros é uma estratégia de sobrevivência inteligente para uma criatura frágil e munida à partida de armamento escasso. A vida em grupo é uma solução de sobrevivência, motivo pelo qual a maioria dos primatas vive assim. Com efeito, não existem sociedades humanas sem linhas claras de separação, distintivas de grupos diferentes.

“É assim que funciona, geralmente, a percepção pessoal”, explicou Jay van Bavel. “Na primeira fracção de segundo, avaliamos as pessoas com base na sua pertença a um grupo.” A pertença a um grupo não se aprende, como a leitura ou a condução. É um acto automático, como a respiração. Aliás, grande parte da nossa sensibilidade aos grupos começa muito antes de aprendermos a falar. Os bebés pequenos preferem os adultos parecidos com as pessoas que tratam deles aos adultos diferentes deles. Também se sabe que gostam mais do som da língua que ouviram no útero materno ou nos primeiros tempos de vida do que qualquer língua estrangeira. Estas preferências continuam a desenvolver-se. Na idade adulta, a maioria das pessoas é mais eficaz a reconhecer os rostos e a interpretar as emoções das pessoas que se parecem com elas e que se comportam como elas.

Agentes da Esquadra de Spokane desenvolvem as suas competências com o Simulador de Formação Antipreconceito, na Universidade Estadual de Washington. As simulações realistas treinam os agentes a recorrer a pistas e não a estereótipos quando decidem se devem usar força mortífera.

Em outubro passado, quando me encontrei com Solomon Igbawua e Dahiru Bala, eles preparavam-se para participar numa assembleia de tiv e hausa-fulani. Era a primeira vez em três anos, a primeira vez desde a crise que os tiv e os igbawua mostravam vontade de visitar a outrora familiar Daudu. A assembleia começou com orações (uma cristã, outra muçulmana) e prosseguiu com discursos em louvor da paz restaurada. De seguida, através dos meus intérpretes, conversei com homens e mulheres de ambos os lados. Contaram-me que perderam familiares e as suas casas, andaram escondidos no mato durante muitos dias, tornaram-se refugiados. E contudo, como agora afirmam, estão a dar-se bem. Solomon e Dahiru dizem que podem voltar a ser amigos.

 

Enquanto conversávamos, ouviam-se galos cantar, cabras a berrar e as crianças a correr umas atrás das outras no meio da poeira. Pouco depois, a mesquita fez soar uma gravação do chamamento à oração. De vez em quando, um estrondo fortíssimo ecoava, proveniente do vale, lá em baixo, assustando as cabras e as galinhas e provocando risos entre as pessoas. Eram ensaios realizados numa instalação militar nigeriana. Era-me difícil imaginar estas pessoas bem-educadas e descontraídas a temer-se e a odiar-se umas às outras.

Vista do lado mexicano da fronteira entre os EUA e o México, perto de San Diego, a barreira de chapa que divide os dois países parece ridiculamente pequena ao lado de quatro dos oito protótipos do muro que a  administração de Donald Trump pretende construir. Os muros não são apenas barreiras físicas: eles reforçam o sentimento de separação e de alienação.

Eis uma mudança impressionante. É como se os pastores e os agricultores tivessem tomado um remédio para acalmar o medo e o ódio, recuperando a compaixão pelos indivíduos alheios aos seus grupos. Num certo sentido, assim foi, mas o tratamento não foi à base de comprimidos. 

Em 2015, uma equipa do Mercy Corps, uma organização não-governamental, chegou a Zongo e a Daudu, juntamente com os grupos de pacificação locais. Fizeram uma oferta: a ONG daria os materiais e o dinheiro para escavar poços de abastecimento de água. Isso proporcionaria água potável às duas povoações. Os moradores das duas aldeias participariam num programa de formação em técnicas de negociação e de prevenção de conflitos. Teriam de utilizar essas competências, construindo os poços juntos e assegurando a exploração conjunta. 

O programa, elaborado por peritos em ciências sociais e fundamentado nas lições aprendidas em matéria de espírito de grupo das sociedades humanas, é um exemplo da maneira como os cientistas estão a tentar descobrir uma solução para o problema, aplicando essas noções a casos reais de conflitos Nós-contra-Eles. “A ideia é desvalorizar os benefícios psicológicos do conflito e valorizar os benefícios psicológicos da cooperação”, explica Christopher Grady, licenciado em ciência política pela Universidade de Illinois, que ajuda a avaliar os resultados do projecto.

A aprendizagem do que significa ser um bom negociador é “quase uma prática de meditação, de parar antes de agir”, diz Arthur Martirosyan, consultor da CMPartners, a empresa de consultoria que concebeu o programa de formação. “Trata-se de dizer: eu reconheço que a situação existe e, ao reconhecer a sua existência, sei que poderá desencadear emoções muito destrutivas em mim. Não quero perder o controlo.”

Soldados sul-coreanos montam guarda na fronteira com a Coreia do Norte, na aldeia de Panmunjom, em Julho de 2017. Apesar de partilhar a mesma língua, a mesma cultura e a mesma etnia (bem como uma civilização milenar), o povo da península Coreana encontra-se dividido desde 1945 em dois Estados ferozmente opostos e ainda tecnicamente em guerra.

Não existe uma teoria única para explicar as razões pelas quais os seres humanos se deixam cair na armadilha mental do Nós-contra-Eles, nem existe um método único para ajudá-los a sair dessa armadilha. Todavia, cada vez mais investigadores trabalham para resolver este problema e partilham efectivamente o método científico.

Começam por factos verificáveis acerca da mente humana, do comportamento humano e das sociedades humanas. Depois, utilizam-nos para criar uma intervenção. De seguida, testam essa intervenção, da mesma forma que as companhias farmacêuticas fazem testes aos fármacos: as pessoas envolvidas num conflito são aleatoriamente divididas em grupos que recebem o “tratamento” e outras que não o recebem. Por fim, os investigadores comparam os grupos para avaliar se o tratamento resultou efectivamente em menos violência, mais justiça e mais paz. Em redor de Zongo e Daudu existem aldeias que não tiveram a oportunidade de frequentar a formação em negociação, nem de trabalhar num projecto conjunto.

No entanto, se a análise dos investigadores demonstrar que este método funciona, como parece ter acontecido em Zongo, Daudu e mais algumas aldeias participantes no estudo, o programa será alargado a muito mais pessoas. 

 

Os simuladores de voo estão para os pilotos como os simuladores de “uso de força” para os agentes policiais.

A versão utilizada na Universidade Estadual de Washington é típica em muitos aspectos. Ficamos em frente de um ecrã, de arma engatilhada. Cada caso que surge no ecrã exige decisões numa fracção de segundo. Uma delas, por exemplo, é um “um caso de violência doméstica”. A câmara conduz-nos através de um curto corredor até uma cozinha, onde um homem e uma mulher estão a lutar. O homem arrasta a mulher para fora do nosso campo de visão. Quando voltamos a vê-los, o homem tem qualquer coisa na mão, apontada à mulher. Noutra situação, vemo-nos confrontados com um condutor relutante em colaborar, que foi mandado parar por uma infracção de trânsito. Ele estende a mão para agarrar um objecto dentro do carro. Se se tratar de um telemóvel e lhe dermos um tiro, poderemos ter-lhe tirado a vida sem motivo. Se for uma arma de fogo e não dispararmos, poderemos morrer.

Palestinianos enfrentam as forças de segurança israelitas em Ramallah, na Cisjordânia, em 29 de Dezembro de 2017. Os confrontos iniciaram-se pouco depois de o governo dos EUA anunciar a decisão de transferência da sua embaixada para Jerusalém.

Mas existe uma diferença entre o simulador WSU e a maior parte dos outros utilizados pela polícia: ele faz variar os perfis demográficos das pessoas identificadas, incluindo a identidade étnica e racial, e coloca-as em cenários concebidos para medir e contrabalançar o preconceito. Por isso, mesmo quando os agentes estão a receber formação para lidar com os aspectos elementares da gestão de situações tensas, também estão a aprender quando e como devem tratar os negros e os hispânicos de maneira diferente dos brancos. O Simulador de Formação Antipreconceito (CBTsim) foi desenvolvido por Lois James, da Faculdade de Enfermagem da Universidade Estadual de Washington, para mostrar aos agentes como é possível tratar outras etnias de maneira diferente em situações exactamente iguais. 

“Com efeito, o objectivo do CBT sim é retirar a raça ou outros factores demográficos do processo de tomada de decisão, ao ensinar os agentes a centrarem-se exclusivamente no nível objectivo da ameaça”, afirma Lois James.

Essa objectividade é precisamente aquilo de que a sociedade precisa da parte das pessoas que trabalham em profissões onde a igualdade de tratamento é essencial: médicos, advogados, professores, militares e, claro, agentes responsáveis pela aplicação da lei. No entanto, trata-se de uma exigência difícil de satisfazer, dada a força da nossa tendência inata para dividir as pessoas em grupos que, no nosso entender, não têm a mesma maneira de pensar ou de sentir. Nos Estados Unidos, discute-se actualmente com que frequência e intensidade a polícia trata todos os civis de igual maneira. Num amplo leque de actos policiais, há provas da existência de disparidades significativas entre o tratamento dispensado a brancos e não-brancos. 

“Senti-me incomodada por aquilo que me pareceu um paradoxo”, diz a criminologista Lorie Fridell, lembrando os estudos laboratoriais que sugerem um forte preconceito na actuação policial. “Em contrapartida, eu sei que a maior parte dos polícias quer prestar serviço ao público e se sente ofendida com a ideia de que talvez seja preconceituosa. Estes indivíduos não são racistas.” 

A chave para deslindar este paradoxo consiste em compreender que, muitas vezes, os preconceitos de grupo não são conscientes. São implícitos, pois acontecem sem intenção e sem que deles tenhamos conhecimento. Tomemos como exemplo a minha preferência pelos Leopardos relativamente aos Tigres, da qual só tive conhecimento depois de ver a minha ressonância ao cérebro.

No posto de controlo Checkpoint 300, perto de Belém, palestinianos dos territórios da Cisjordânia aguardam inspecção para poderem entrar em Israel. Milhares de trabalhadores suportam este suplício todos os dias, a troco de trabalho mais remunerado em Israel. As disparidades económicas agravam as divisões baseadas na religião, na identidade étnica ou nas reivindicações territoriais.

O programa de Policiamento Justo e Imparcial (FIP) de Lorie Fridell é um curso de formação para polícias. À semelhança do simulador de Lois James, foi concebido para levar os agentes policiais a gerir a sua preferência imperceptível por Nós relativamente a Eles sem afectar a sua obrigação de tratar todos de forma igual. Para um agente da polícia, Nós pode significar “Nós, pessoas cumpridoras da lei” contra Eles, o tipo de pessoas com cadastro; ou pode significar “Nós, polícias” contra “Eles, civis”. Nos Estados Unidos, com um longo historial de injustiça baseada na etnia, Nós significa frequentemente “Nós, pessoas brancas” e “Eles, todos os outros”. 

Lorie Fridell recebeu cerca de 1,2 milhões de euros em subsídios do Ministério da Justiça dos EUA desde 2007 para formar milhares de agentes da polícia de centenas de esquadras em todo o país e no Canadá. “O debate sobre o preconceito policial tem caracterizado este preconceito como explícito”, afirma a investigadora, como se o principal problema residisse nos polícias que são propositadamente racistas. A abordagem da questão pela perspectiva científica, focada na maneira como a mente funciona, permite um diálogo mais sincero. “Não apontamos o dedo a ninguém”, diz. “Não falamos sobre o preconceito policial. Falamos sobre o preconceito humano.”

Monges budistas protestam contra os muçulmanos rohingya em Yangon, em Maio de 2015. A desumani-zação do inimigo é comum nestes conflitos. O monge ultranacionalista Ashin Wirathu comparou os muçulmanos a cães raivosos e carpas invasoras.

Em 2017, quando visitei o Departamento da Polícia Metropolitana de Indianápolis, alguns elementos da chefia estavam presentes, assistindo à acção de formação de Lorie Fridell juntamente com líderes comunitários. À semelhança do que se verifica noutras cidades, em Indianápolis existe um problema de confiança entre a polícia e as comunidades minoritárias. Em muitos bairros com residentes de maioria afro-americana, os polícias sentem-se mais como força de ocupação do que como agentes de serviço público. Embora constituam 28% da população da cidade, os afro-americanos só representam 15% da força policial.

Bryan K. Roach, o chefe da polícia de Indianápolis, quer melhorar as relações existentes. Sentiu-se atraído pelo FIP, segundo afirma, porque o programa se baseia em investigação científica e não em opiniões. “Interessou-nos a ciência subjacente ao programa”, diz. Roach decidiu que os 1.600 agentes do departamento frequentariam a formação em preconceito implícito. Começou por si próprio, com os melhores agentes e representantes comunitários da cidade. 

“Acho que correu muito bem”, resume Patricia Payne, professora reformada e administradora escolar que organiza acções de formação anti-racismo para o sistema escolar de Indianápolis. O facto de a formação incidir sobre a ciência da identidade de  grupo ajudou a promover um diálogo respeitoso entre activistas e comandantes da polícia. “Apercebi-me de que era a primeira vez que me sentava numa sala a ouvir os pontos de vista da polícia”, diz.

Apesar dos primeiros sinais positivos, a sociedade deseja, essencialmente, o mesmo que deseja de qualquer outro “tratamento”: o resultado. A obtenção de respostas é terrivelmente difícil. Como se pode provar que uma atitude registada em Junho afectou um comportamento em Outubro? Os cientistas só agora começam a estudar o assunto. 

Em Ramiro, no Ruanda, Cyrille Namubonye, acusado de genocídio, caminha ao lado da sobrevivente Maria Nyirambarushimana, durante uma acção de formação do Centro Karuna para a Construção da Paz. “No seu processo de sarar feridas, Cyrille percebeu que precisa de Maria, e Maria percebeu  que precisa de Cyrille”, resume Rosette Sebasoni, a responsável do projecto.

James e os seus colegas deram início a um projecto de dois anos que acompanhará algumas esquadras de polícia no estado do Ohio, observando como os agentes lidam com os seus interlocutores em qualquer situação típica. Em 2018, o estudo registará apenas o modo como os polícias se comportam, utilizando ocasiões, aleatoriamente seleccionadas, filmadas por câmaras instaladas no corpo dos agentes, queixas de cidadãos e outras fontes de informação. No próximo ano, cada força policial será aleatoriamente dividida em quatro grupos. Um grupo continuará a agir como habitualmente, sem qualquer formação (é o grupo de controlo, o equivalente comportamental aos doentes a quem é administrado o placebo durante o ensaio farmacológico). Outro grupo receberá apenas formação no Simulador de Formação Antipreconceito. O terceiro grupo frequentará a formação na sala de aula e o último receberá ambas as formações, no simulador e na sala de aula. 

Nos nove meses subsequentes, os investigadores reunirão o mesmo tipo de informação. O resultado deste ensaio, concluído em 2020, produzirá dados sobre a forma como agentes com diferentes tipos de formação se comparam com os agentes que não fizeram trabalho sobre preconceito implícito. E esses dados devem determinar se essa formação resulta num policiamento mais justo. 

Este tipo de testes cuidadosos está a ser cada vez mais realizado noutros contextos em todo o mundo. Dentro de poucos anos, talvez permita demonstrar se descobrimos finalmente uma verdadeira ciência da identidade de grupo que nos ajude a dominar estes instintos, antes que eles nos dominem. Talvez isto contribua para criar um mundo mais pacífico e mais justo. 

No entanto, ninguém imagina que o processo vá ser fácil. Desde a minha visita a Benue em Outubro, os conflitos na região entre agricultores e pastores voltaram a agravar-se, alimentados em parte pela legislação recentemente aprovada em Benue contra a pastagem. Segundo os pastores, a medida destina-se a expulsá-los do estado.

Enquanto esta reportagem era redigida, porém, a paz negociada entre os agricultores de Zongo e os pastores de Daudu ainda vigorava. Com efeito, os pastores ameaçados noutras zonas procuraram refúgio na região de Zongo-Daudu. Quando esse afluxo alarmou os agricultores das redondezas, os moradores das duas comunidades formados em técnicas de negociação conseguiram diluir a tensão e promover o respeito mútuo. 

À semelhança de muitas pessoas de ambos os lados do conflito, Solomon Igbawua associou as novas ideias da formação em negociação à sua profunda fé religiosa. O perdão por erros passados, no seu entender, é uma boa ideia para os negociadores e uma obrigação para os cristãos. Perdoou praticamente todos os pastores. Por vezes, porém, quando vê um homem mais velho, lembra-se do pai, morto em combate há três anos. 

“Até consigo perdoar”, resume. “Mas não consigo esquecer.” 

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