É a maior colecção do mundo de lucernas romanas. Terá integrado um grande santuário religioso em Santa Bárbara de Padrões (Castro Verde). Um arqueólogo sonha com o dia em que poderá prosseguir a escavação.

Texto: Gonçalo Pereira Rosa

Fotografias: António Cunha

As escavações e o conhecimento avançaram em Castro Verde ao ritmo da morte”, gosta de dizer, com um sorriso provocatório, o arqueólogo Manuel Maia. Em 1983, as obras de ampliação do cemitério local revelaram as estruturas de uma basílica paleocristã e de termas romanas no topo de uma colina em Santa Bárbara de Padrões. Onze anos depois, nova ampliação do cemitério levou à abertura de uma vala de quinze metros. O arqueólogo e a mulher, Maria Maia, conduziram os estudantes de um curso de iniciação à arqueologia para aquela que veio a ser conhecida como a vala das lucernas: “O primeiro estudante saiu de lá com meia lucerna. Nesse dia, trouxemos cinco sacos de supermercado repletos de fragmentos”, conta o arqueólogo.

Nos quatro meses seguintes, recuperaram-se centenas de lucernas do período romano, correspondendo a três séculos de utilização do espaço, entre inícios do século I e o final do século III. “Todas as lucernas tinham marcas de utilização. Um depósito de lucernas utilizadas indica por definição a presença de um santuário com função religiosa nas proximidades. A lucerna é como a vela moderna: deixa-se a queimar em nome de uma promessa”, diz o arqueólogo.

Durante as escavações, o casal Maia (Maria Maia faleceu em Julho de 2011) encontrou aqui cerca de vinte mil lucernas – a maior colecção conhecida do mundo. Só havia um precedente na região: as lucernas encontradas em Peroguarda, em meados do século XX, sem efectivo controlo arqueológico. “Muitas das ‘nossas’ lucernas tinham sido depositadas como hoje colocamos as chávenas nas máquinas de lavar-louça”, brinca o arqueólogo. Curiosamente, mesmo 1.700 anos depois de se ter apagado a última lucerna, “cheirava a azeite rançoso no local”.

Um santuário desta relevância teria seguramente importância estratégica no Sul de Portugal. Até à data, não emergiu nenhuma inscrição que pudesse comprovar a toponímia local, mas Manuel Maia acredita que aqui poderia ser Arannis, referenciada indirectamente por Plínio, como terra dos aranditanos. “Um itinerário do tempo de Antonino Pio, que mandou levantar todas as estradas do império, também menciona este sítio no itinerário 21, que liga Castro Marim a Tavira e Faro, subindo depois, pela serra, até ao Alentejo”, diz Manuel Maia. “Estou convencido, até pelas distâncias ali indicadas, que Arannis seria Santa Bárbara de Padrões.” Há alguns anos, uma equipa do Campo Arqueológico de Tavira detectou vestígios da velha estrada romana e o geógrafo Luís Fraga da Silva encontrou, num mapa do século XVII, provas do uso persistente dessa rota por onde se levava o correio para o Algarve. Manuel Maia continua a acreditar que uma escavação intensiva no local poderia revelar a configuração do santuário.

Entretanto, a ciência aumentou o conhecimento disponível sobre as lucernas de Castro Verde. Uma tese de mestrado defendida na Universidade de Évora em 2017 por Silvânia Afonso (enquadrada pelo Laboratório HERCULES) analisou a composição dos combustíveis utilizados em lucernas de dois sítios arqueológicos. Para as de Castro Verde, a investigadora identificou cera de abelha, resina de pinheiro e óleo de sementes de brassicáceas. Algumas lucernas são procedentes do Algarve ou da vizinha província da Bética, mas outras vieram seguramente de paragens mais distantes. “Temos peças requintadas, mas o maior custo da lucerna não é a decoração”, explica Maia. “A partir do momento em que uma matriz era esculpida, faziam-se milhares de moldes. É o tipo de pasta que sugere o poder de compra do utilizador.”

Na colecção do Museu da Lucerna, existem motivos replicados em todo o império romano e outros que só se encontraram aqui. Através destes traços de cultura material, Manuel Maia acredita que poderá ser possível cartografar as relações comerciais do mundo romano. “No interior das lucernas, aparecem impressões digitais dos oleiros, uma vez que o barro era moldado à mão. Seria muito interessante desenvolver uma base de dados que pudesse ligar as lucernas que aqui vieram parar aos centros de produção conhecidos através de algo tão identitário como a impressão digital coincidente.”

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar