Descobrir a Cuba mais genuína

A ilha caribenha oferece uma última oportunidade aos viajantes: descobrir o estilo de vida e a riqueza natural de um país que está prestes a soltar amarras rumo a um futuro repleto de desafios.

Texto: Fernando García del Rio

Cuba começa a mudar, mas ao seu ritmo. Avança, naturalmente, mas mais como um bolero do que como uma salsa. A sensação de recuo no tempo percebe-se quando aterramos em Havana e penetramos num dos bairros da cidade antes de sair para “o interior”, isto é, para o resto de Cuba.


Havana Velha, Vedado e o município de Playa são os três núcleos que, juntamente com o Malecón a norte, constituem pontos imperdíveis nesta urbe mestiça e sedutora. Havana Velha, tal como Castillo, o Morro e o Forte de La Cabaña do outro lado da baía, transforma-se num passeio apaixonante desde o século XVI até à Cuba dos nossos dias. Quatro praças, a de Armas, perto à da Catedral, e a praça Velha, perto da de São Francisco, constituem os pontos cardeais de uma cidade que durante centenas de anos serviu de paragem e guarida, bem como de caixa-forte, para os expedicionários do Novo Mundo.

A incursão em Havana Velha não pode ser imaginada sem se percorrer a Rua Obispo. Sugere-se depois um daiquiri (ou dois) na celebre Floridita e uma incursão pelo Parque Central. Aí encontramos o Grande Teatro de Havana, onde todas as semanas amantes de ballet aplaudem as figuras do momento. Ao lado, encontram-se os edifícios do Museu de Belas-Artes, e mais à frente o imponente Capitólio, inspirado no de Washington mas que os cubanos fizeram uns centímetros mais alto, de forma a não perder na comparação com o monumento americano.

O Malecón, ponto de encontro e de refrescos de todo o cubano de Havana que se preze, não figura como monumento, mas é. Um monumento à vida social e à diversão sem complicações – passeando, cantando boleros ou mergulhando. É o famoso passeio marítimo com zonas socialmente diferenciadas, umas mais familiares, outras mais complexas, incluindo uma declaradamente gay no final da Rua 23.

O vértice principal do Vedado é o Hotel Habana Libre, o Hilton que Fidel Castro expropriou logo depois do triunfo da revolução em Janeiro de 1959 e uma das silhuetas que assinalam o perfil da cidade. Em frente do estabelecimento, no outro lado da Rua 23, vê-se a fila que todos os dias e a todas as horas se forma com os cubanos de Havana na geladaria Coppelia. Em frente, existe uma fila de táxis de todas as classes, incluindo tuk-tuks e almendrones da década de 1950, que oferecem passeios por Miramar, Siboney e Atabey, os nobres bairros do Oeste.

Havana merece uma viagem, mas, para conhecer a ilha e captar a essência de Cuba, é preciso rumar a leste. Para começar, conduzimos pela Via Blanca em direcção a Matanzas e Varadero. Este paraíso de centenas de quilómetros de costa e praia virgem é um tesouro raro nas Caraíbas sobrepovoadas. Começa na baía de Jibacoa, a setenta quilómetros de Havana, embora muito antes encontremos Santa Maria do Mar e Guanabo, destino veraneante dos cubanos de Havana.

Chega-se facilmente até Matanzas seguindo a Via Blanca e a estrada do Circuito Norte, com paragem no miradouro da ponte de Bacunayagua. Daí, à altura das aves que povoam a zona, desfruta-se uma das paisagens icónicas de Cuba: o oceano vegetal do vale de Yumuri, pontilhado por troncos prateados de milhares de palmeiras.

É aconselhável entrar no vale através da sinuosa estrada interior até Matanzas. A paisagem é mágica, como se nos tivéssemos afastado do mundo. O viajante pode ali encontrar a qualquer momento um pioneiro montado a cavalo a caminho da escola, identificado pelo seu uniforme de lenço e calções grenás ou um guajiro, o camponês de idade indefinida que saúda e sorri como se há vinte anos não visse um forasteiro.

Matanzas ostenta a alcunha da Veneza cubana, designação motivada pelas pontes sobre os três rios que desaguam na sua baía. Também lhe chamam a Atenas de Cuba pelo forte desenvolvimento cultural do século XIX. Do esplendor da época áurea, resta o Teatro Sauto, concebido como uma caixa de ressonância e com a peculiaridade de a plateia subir até à altura do cenário para a converter numa pista de dança. À cidade também pode chegar-se, vindos de Havana, pelo único comboio eléctrico do país, conhecido como Hershey, o empresário de chocolates que o mandou construir para transportar mercadorias e trabalhadores.

Varadero está a vinte minutos de Matanzas. É o ponto turístico de Cuba por excelência, com os seus 20 quilómetros de praia e infra-estruturas como o único campo de golfe de 18 buracos que se conserva na ilha. O club house do campo é a sumptuosa mansão Xanadu, construída em 1930 pelo magnata americano Irénée du Pont. Vale a pena visitar a casa por fora e por dentro. Varadero não é um resort para banhos de sol na espreguiçadeira. Para gozar tudo o que oferece, deve alugar-se um catamarã, nadar na barreira de coral, mergulhar com golfinhos e comprar ou descobrir as bagatelas dos vendedores ambulantes. Um simples passeio pela praia pela manhã é aconselhável.

Ciénaga de Zapata, a maior zona húmida das Caraíbas e refúgio para mais de seiscentas espécies de aves, dista pouco mais de uma hora e meia de carro. O primeiro ponto de interesse é a Zona de Reprodução de Crocodilos, cujos responsáveis se encarregam de assegurar a variedade genética do animal. Muito perto dessa quinta, no local conhecido como Boca, pode-se embarcar numa lancha até à lagoa do Tesouro e à instalação hoteleira de Guamá, formada por 49 cabanas erguidas entre ilhotas sobre a lagoa. O verde intenso, as palmeiras e as águas que reflectem tudo como um espelho criam uma paisagem quase irreal. Tão irreal como a da Gruta dos Peixes, uma cavidade com 70 metros de profundidade que é o paraíso dos mergulhadores. Já dentro da Baía dos Porcos, é impossível não mergulhar nas águas da Playa Larga, da Playa Girón ou da Caleta Buena.

O périplo continua por Cienfuegos e Trinidad, compêndios da modernidade e da herança colonial de Cuba, respectivamente. Com a sua imensa baía, o traçado quadriculado, os palácios e mansões espanholas do século XIX, Cienfuegos ostenta com justiça o título de Pérola do Sul. O centro histórico e o passeio do Prado alojam a maioria das atracções, mas também convém visitar o Palácio do Vale, na Punta Gorda no final do Malecón, bem como o Teatro Tomás Terry, o bar Palatino, o Palácio do Governo e o Parque José Martí.

O banho de cor, de luz e de história continua em Trinidad, ziguezagueando ou atravessando o Parque Natural de Topes de Collantes. Trinidad é a cidade colonial mais bem conservada em Cuba e a que reflecte a prosperidade e grandeza que a indústria do açúcar chegou a dar ao país. As ruas são empedradas e as casas têm coberturas de telha de barro, grandes janelas gradeadas quase a rasar o solo e fachadas de cores vivas. A igreja paroquial da Santíssima Trindade, uma das maiores da ilha, reina numa Plaza Mayor com planta extravagante. A vila foi classificada como Património Mundial juntamente com Valle de los Ingenios, uma planície de 250 quilómetros quadrados com 13 fazendas de antigos latifundiários que permitem ter uma ideia do que foi o império cubano do açúcar. A quatro quilómetros de Trinidad, encontra-se a Villa Dalia, um hostel na aldeia de Casilda, onde os pratos e o trato que dispensa o chef e proprietário, Juan José, valem bem uma paragem.

A estrada ziguezagueante que conduz até oriente devolve-nos à costa atlântica, onde se situa um dos caminhos de pedra que conectam com o arquipélago dos Jardins da Rainha. Aí encontram-se os famosos cayos das províncias nortenhas de Villa Clara e Ciego de Ávila: Cayo Santa Maria, Cayo Coco, Cayo Guillermo e Cayo Romano…, embora convenha não descuidar outros menos conhecidos como os de Media Luna, Los Ensenachos e Las Brujas. O arquipélago, ao qual também se pode chegar de avião, está cercado pela segunda maior barreira de coral do planeta – a primeira é australiana –, de 400 quilómetros de comprimento. O turismo histórico, urbano e cultural reaparece na cidade de Camagüey, antes de se procurar a frescura nas praias dessa província e, sobretudo, nos areais de Holguín.

A Cuba pura e essencial, menos turística mas mais genuína, coincide com um último ramo da rota através dos “santos locais” da revolução. Primeiro, está Bayamo, berço do hino nacional, La Bayamesa, e do pai da pátria, Carlos Manuel de Céspedes (1819-1874). De seguida, aparece a serra Maestra e o seu grande parque natural juntamente com o Pico Turquino, principal refúgio e campo de batalha de Fidel Castro mas também a maior cordilheira da ilha. E quase no final do itinerário aparece Santiago, onde Cuba se tornou independente.

Na segunda cidade de Cuba, vêem--se as raízes das árvores, escutam-se as raízes do som e percebem-se as raízes da mestiçagem cubana.
O parque Céspedes é o centro do som quotidiano, do comércio e do regateio, do enamoramento e da conversadera em palrarias sem fim. Também é na rua que encontramos a música, cujo santuário é a Casa da Trova, a poucos passos do parque.
E quanto à história, essa encontra-se por todo o lado: nos destroços dos navios espanhóis afundados em 1898 e que hoje atraem os mergulhadores; no Castelo de San Pedro de la Roca e na Paisagem Arqueológica das Primeiras Plantações de Café do Sudeste de Cuba, ambos Património Mundial. Foi em Santiago que começaram as principais revoltas de Cuba. E é em Santiago que me pareceu que as pessoas falam, cantam e dançam com maior naturalidade e simpatia.

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