Integrado nos trabalhos de campo do projecto da Capela do Fundador, o investigador turco Yigit Zafer Helvaci fotografa a parte superior do túmulo de Dom João I e Dona Filipa de Lencastre para a constituição de um modelo tridimensional desta estrutura, com recurso a fotogrametria 3D.

Habituados à configuração com que os mais conhecidos monumentos nacionais chegaram aos nossos dias, nem sempre nos lembramos de que a arte é efémera. Um inovador projecto científico procura detectar as cores e as texturas de um dos mais emblemáticos túmulos da história de Portugal.

Texto e fotografias de António Luís Campos

Enquadrada pelo inconfundível rendilhado da pedra calcária, a porta de entrada contrasta pela sobriedade, de madeira avermelhada, implícita recordação de um emblemático episódio histórico que todos os portugueses conhecem e a que devem a sua condição enquanto tal. A porta tanto esconde como antecipa o cenário resguardado para lá da ombreira: ladeando a enorme nave central, alinham-se, como um garboso exército, elegantes colunas de pedra, apontadas ao céu, coloridas por instantes pela luz fraca de Inverno, coada pelos vitrais multicolores.

A escala é avassaladora. O frio que se entranha na pele tem tanto de meteorológico como de psicológico perante o símbolo da nacionalidade que é, simultaneamente, um dos maiores monumentos de Portugal: o Mosteiro da Batalha. Foi a obra de vida do Mestre de Avis, Dom João I, o rei que derrotou o exército castelhano em Aljubarrota, devolvendo a independência a Portugal e que, em 1386, mandou erguer o complexo em cumprimento de uma promessa feita, na véspera da batalha, à Virgem Maria.

Quase seiscentos anos após a sua fundação, uma nova perspectiva começa a ser revelada num dos elementos mais nobres do edifício: a Capela do Fundador, onde estão sepultados Dom João I, a rainha Filipa de Lencastre e a maioria dos seus filhos, que Camões apodaria mais tarde de Ínclita Geração: Dom Duarte, rei; Dom Pedro, regente do reino; Dom Henrique, o Navegador; Dom João e Dom Fernando, morto no Norte de África.

Hoje, o calcário apresenta-se nu, mas nem sempre foi assim. Uma equipa multidisciplinar, composta por arqueólogos, historiadores de arte, especialistas em heráldica, químicos e designers, parte em busca dos vestígios de cor neste cenário, com o objectivo de saber como era originalmente, conhecendo e interpretando melhor a sua mensagem histórica.

O objectivo do projecto Policromia Monumental , co-financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian, é compreender melhor a extensão, significado simbólico e material da cor no plano religioso, familiar e político, num monumento tão relevante quanto este.

Joana Ramôa, investigadora do Instituto de História de Arte e responsável científica do projecto, explica que “a análise da policromia abre um novo campo de estudo – é um ‘tubo de ensaio patrimonial!’ É a primeira vez que é conduzida em Portugal em arquitectura e escultura medieval, com o ensaio de novas técnicas e metodologias de trabalho. A história também se materializa nas estruturas, na sua cor, nos pigmentos utilizados!”

A equipa do projecto é igualmente constituída pelo Laboratório Hercules, pelo Instituto Português de Heráldica e pelo Instituto Politécnico de Leiria, agregados no trabalho de campo no Mosteiro da Batalha. “Apesar de aparentemente desprovida de cor, a pedra natural na Capela encerra vestígios de policromia que só um olhar atento detecta, especialmente em pequenos interstícios da pedra, onde o acesso é difícil”, prossegue Joana Ramôa. Estudos como este são particularmente dispendiosos, pois a recolha de pigmentos é difícil e atreita a erro: num ponto preciso, podem restar resquícios de cor e 2 milímetros ao lado não existir já qualquer indício disso. É por isso que a análise da arquitectura se torna igualmente importante, como comenta a cientista espanhola Begoña Farre, cuja presença na equipa é bem expressiva de como mudaram as relações entre os dois países ibéricos desde Aljubarrota!

Quando Dom João I lançou a obra da Capela, esta não estava inicialmente prevista no plano monástico do complexo, acabando por se tornar o primeiro panteão régio português. Coube a Dom Duarte, o seu filho primogénito, a sua conclusão em 1434, reencenando então as exéquias dos pais, um ano após a morte do Mestre de Avis, e sublinhando a ideia de família perfeita, unida até na morte.

A este respeito ocorreu um episódio histórico curioso e pouco conhecido do público, contado por Miguel Seixas, historiador e presidente do Instituto Português de Heráldica. Encontramo-nos agora noutro cenário apropriado: o Convento do Carmo, em Lisboa, “monumento-irmão” da Batalha, por ter sido fundado por Dom Nuno Álvares Pereira com o mesmo intuito: agradecer a intervenção da Virgem na vitória de Aljubarrota.

“Dom João I morreu em 13 de Agosto de 1433, mas a notícia da sua morte só foi divulgada um dia depois, a 14, intencionalmente, para a fazer coincidir com a data da comemoração da vitória em Aljubarrota e apresentar o facto como um sinal divino”, narra o especialista em heráldica. “A propaganda não é exclusiva dos tempos modernos!”

Sob os arcos do convento, de chapéu e gabardina, Miguel Seixas confessa que este projecto o surpreendeu pela positiva: “Há um grande preconceito da comunidade científica face à heráldica, pois crê--se que ela está exclusivamente ligada à nobreza e à causa monárquica. Na verdade, é um código visual de comunicação, importante para a identificação e datação de informação histórica e para melhor compreensão de uma obra. E esta equipa reconheceu-o. Sabe-se que cores eram usadas por Dom João I. Agora, queremos saber como eram usadas.”

 

Na escultórica dos túmulos, está bem patente um sistema de diferenças heráldicas, entre familiares. Pais, filhos e irmãos têm escudos bastante semelhantes, mas com subtis diferenças identificativas entre si. Como na época medieval imperava a cultura cavaleiresca, as batalhas eram o palco perfeito para actos de bravura e honra.
Ao contrário de hoje, em que os militares se camuflam para dissimular a sua presença no campo de batalha, era importante ser facilmente reconhecido para mais fácil atribuição dos feitos heróicos.
E tal conseguia-se pela heráldica. Sinal da importância destes signos visuais, o prémio máximo para um combatente era a captura da bandeira do inimigo.

Fernão Lopes, o cronista consagrado do século XV, que dedicou a Dom João I o seu talento narrativo, conta mesmo que o militar português que subtraiu a bandeira aos castelhanos em Aljubarrota a trouxe ao rei tão entusiasmado que, enrolado nela, fez uma dança efusiva. O próprio monarca teve de o mandar parar!

Para a história, ficaram também os inovadores movimentos encetados por Dom Nuno Álvares Pereira, em particular a Táctica do Quadrado, graças à qual as forças portuguesas, maioritariamente a pé e em desvantagem numérica, derrotaram uma das mais poderosas cavalarias do mundo!

Foram vários os heróis desta batalha, com relatos de bravura cujo registo varia entre o facto e a lenda. Em primeiro lugar, o próprio rei, que lutou fisicamente lado a lado com as tropas e que, já prostrado, terá sido salvo in extremis de um golpe fatal do inimigo por um nobre, Martim Gonçalves de Macedo, cuja campa rasa se encontra à entrada da Capela. Depois, o Condestável, braço-direito do rei e cujo génio militar é ainda hoje estudado por académicos militares. Os feitos heróicos da Ala dos Namorados perduram também até à actualidade, tendo inclusivamente dado o nome a uma banda pop nos anos 1990. Mas a mais icónica lenda é a da Padeira de Aljubarrota, de seu nome Brites de Almeida. No rescaldo da batalha, terá chacinado com as próprias mãos, a golpes de pá, uns quantos castelhanos que, em fuga, se tinham escondido no seu forno! Pelo menos, essa é a lenda.

Bem perto desse local, irrequieto e visivelmente entusiasmado com os trabalhos de fotogrametria 3D e fluorescência de raios X que investigadores turcos, norte-americanos, mexicanos, espanhóis e portugueses levam a cabo no túmulo central da Capela do Fundador empoleirados num enorme andaime que roça o tecto, encontra-se Joaquim Ruivo, o director do Mosteiro da Batalha.

Após um vigoroso aperto de mão, entre uma floresta industrial de focos, flashes, câmaras fotográficas e tripés, refere a importância da investigação interdisciplinar de um monumento tão emblemático como este, sublinhando que foi uma iniciativa da comunidade científica que a tutela acolheu com agrado.

Reforça de seguida a ideia primordial de que a utilização de novas tecnologias e de uma metodologia que vai muito além dos conceitos tradicionais da História de Arte tem como objectivo o conhecimento material do património e o estímulo de uma dimensão pedagógica, que o torne atractivo para o público. Com quinhentos mil visitantes anuais (80% dos quais estrangeiros), a Batalha é o terceiro monumento sob tutela da Direcção-Geral do Património Cultural mais visitado do país.

Sorrindo, de discurso solto e informal, Joaquim Ruivo, antigo professor de história, remata, em tom jocoso: “Este projecto de investigação é exemplar até pelos objetivos que persegue de uma certa deselitização do conhecimento científico!” Através da tecnologia de laser scan e fotogrametria, que cria nuvens de pontos, o primeiro resultado visível é o modelo 3D de toda a Capela. Na realidade, é uma técnica fotográfica avançada que permite analisar o espaço tridimensionalmente, em diferentes perspectivas. E já tem uma aplicação prática: será instalado ali um ecrã interactivo de grandes dimensões, com a imagem em 3D da sala colorida virtualmente, tal como ela terá sido construída originalmente. Mais adiante, e se se conseguirem reunir as sinergias de mecenato necessárias, Joaquim Ruivo gostaria de recriar esta percepção a uma escala mais ambiciosa, com recurso a tecnologia de videomapping.

Mais ou menos fantasiada, a mística do Mosteiro da Batalha perdurará para sempre. Até Almada Negreiros para ela contribuiu, já em pleno século XX, quando ali defendeu que os icónicos Painéis ditos de São Vicente e atribuídos a Nuno Gonçalves, terão sido pintados especificamente para a Capela do Fundador. Segundo os cálculos do pintor, as medidas de vários dos trípticos que chegaram aos nossos dias são exactas para os espaços nas paredes e muitas das figuras neles representadas estão lá sepultadas.

O projecto de estudo da cor que caminha agora para a conclusão segue um caminho inovador, almejando lançar sobre a Batalha uma nova luz e acrescentando conhecimento científico, tangível e fidedigno, sobre um dos mais marcantes episódios da história de Portugal. Mesmo que nos tenhamos de habituar à perspectiva de uma Capela do Fundador em tons mais dourados e menos brancos do que constavam nos manuais de história. 

A construção do Mosteiro da Batalha foi iniciada em 1386, cumprindo uma promessa de Dom João I à Virgem Maria, na véspera da batalha de Aljubarrota. A construção do monumento prolongou-se por dois séculos. Desde 1983, é classificado como Património Mundial pela UNESCO. É agora visto a uma nova luz, graças ao contributo da ciência.

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