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Esposa de Filipe da Macedónia e mãe de Alexandre, Olímpia brilhou com luz própria num mundo turbulento. Famosa pela sua beleza e crueldade, a sua lenda acompanhou a do seu filho.

Texto de: Juan Carlos Chirinos

Olímpia, Rainha dos Macedónios. Relevo de mármore datado de 1460 e atribuído ao artista florentino Desidério de Settignano (1430-1464). Palácio Real, La Granja de Santo Ildefonso, Segóvia.

Olímpia do Epiro foi muito mais do que a mãe do maior conquistador da Antiguidade. É certo que no mundo grego as mulheres não faziam parte da biografia política, mas uma rainha podia ter mais opções e foi isso que sucedeu com Olímpia. O seu marido e o seu filho mudaram radicalmente o mapa político do século IV a.C., mas os testemunhos que nos chegaram assinalam que a figura de Olímpia causou igualmente furor.

Alexandre, o Grande, exigiu mesmo que ela fosse tratada como deusa, Filipe fugiu ao vê-la dormindo com uma serpente, os soldados do seu inimigo Cassandro negaram-se a executá-la assim que a viram… Tudo isto parece provar que ela foi uma mulher de carácter excepcional, decidida, férrea e plena de paixão.

Olímpia e Alexandre 

Alguns acontecimentos da vida de Olímpia estão recolhidos nas diferentes versões do Romance de Alexandre, Obra dedicada ao seu Filho:

Os historiadores crêem que Olímpia terá nascido entre 375 e 371 a.C., em Dodo-na, a principal cidade do reino do Epiro. Localizado nas fronteiras da actual Grécia e Albânia, era um território periférico no mundo grego, mas vinculado há muito à sua história. Na Odisseia e na Ilíada, são evocados os oráculos no Epiro: o do rio Aqueronte, que atravessa a região, e o de Zeus em Dodona. Foram encontrados em ambos vestígios arqueológicos micénicos, o que leva a supor que os fundadores de Micenas provinham do Epiro.

Descendentes das formigas

As origens dos molossos do Epiro, a família real à qual pertencia Olímpia, remontavam a Zeus, segundo a tradição. O pai de Olímpia, Neoptólemo I, rei do Epiro, dizia-se descendente do filho de Aquiles, também chamado Neoptólemo. Por essa via, entroncava com a dinastia dos Eácidas, descendentes do avô de Aquiles, o rei Éaco. Segundo o mito, quando o seu país foi dizimado pela praga, o rei Éaco rogou a Zeus que lhe concedesse mais cidadãos e a divindade criou um novo povo transformando formigas em seres humanos. Assim nasceram os Mirmidões (do grego myrmex, formiga), que combateram na guerra de Tróia sob comando de Aquiles. Assim, Olímpia – e por extensão Alexandre – eram descendentes directos de Aquiles. Quanto à mãe de Olímpia, pode ter pertencido à casa real dos Caônios do Epiro que, segundo a tradição, remontava a Heleno, filho do rei troiano Príamo.

Olímpia não foi o único nome da futura rainha da Macedónia, pois ela usou mais quatro, o que representa um paralelismo interessante com o filho. Alguns contemporâneos propuseram que os nomes, para ela, eram como os galões para os militares e, tal como Alexandre acumulou títulos reais, somando ao de rei dos macedónios, os de líder dos gregos, faraó do Egipto e grande Rei dos Reis dos persas, também ela adoptou novos títulos.

O seu primeiro nome, Políxena (“a hospitaleira”), vinculava-a à mítica princesa de Tróia, filha de Príamo e da qual Aquiles se enamorou. Ao casar-se com Filipe ou ao iniciar-se nos mistérios de Samotrácia, passaria a chamar-se Mírtale, uma alusão à murta, planta usada no culto de Afrodite.

De seguida, como homenagem ao nascimento do filho e ao triunfo do cavalo do seu marido nos Jogos Olímpicos, adoptou o nome de Olímpia, designação pela qual passou a ser conhecida. E mais tarde ainda, quando teve de demonstrar que também uma mulher podia combater – e ganhar batalhas –, adoptou o nome de Estratonice, “vitória do exército”. Esta profusão de designações sugere uma necessidade régia de ser distinguida do comum dos mortais.

Teatro de Dodona. Na cidade onde nasceu Olímpia, existia um oráculo associado a Zeus, mais antigo do que o de Delfos, embora não fosse tão procurado. Nele foi construído este teatro no século III a.C.

Filipe da Macedónia viu pela primeira vez Políxena do Epiro em Samotrácia, entre 365 e 361 a.C. Filipe tinha então perto de 20 anos e Olímpia 15. Encontravam-se nesta ilha do Egeu por causa dos cultos misteriosos. Tal como muitas jovens, Olímpia era uma menina religiosa, embora, segundo escreveu Plutarco, “ela fosse mais devota do que outras” e “se deixasse transportar da forma mais bárbara pelos delírios inspirados pela divindade”, assistindo a cortejos báquicos para os quais levava “grandes serpentes domesticadas” que aterrorizavam os homens.

O poder da beleza

Segundo Plutarco, nesse encontro em Samotrácia, Filipe apaixonou-se por Olímpia. Caiu rendido à sua beleza, mas também à sua imponente presença e carisma. Há múltiplos testemunhos sobre a sua extraordinária capacidade de sedução até uma idade bastante avançada. Um deles é do próprio Alexandre, dado que a sua beleza não parece ser herança do pai, a julgar pelos retratos que de ambos se conservam; todas as fontes coincidem na sua parecença com a mãe, embora, como aponta Mary Renault – autora de uma trilogia sobre Alexandre –, “não tenha sobrevivido um único retrato de Olímpia que não esteja estilizado a ponto de anulá-la”. Outro mito antigo persistiu na história que a representa com quase 60 anos: acossada por duas centenas de soldados de Cassandro, que tinham ordens para matá-la, eles acabaram por fugir quando ficaram frente a frente com ela.

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