Idade do Bronze: A alvorada de um mundo novo

Há quatro mil anos, os europeus já construíam os primeiros assentamentos urbanos, praticavam comércio de longa distância, estabeleciam hierarquias sociais e disputavam recursos, guerreando-se se preciso fosse. Tudo se torna mais claro: a sociedade que hoje conhecemos surgiu na Idade do Bronze.

Texto de Christopher Schrader

Os vencidos da batalha travada junto do rio jazem num núcleo de exposições do Castelo de Wiligrad, perto da cidade alemã de Schwerin. Trata-se de uma ampla sala do primeiro piso, com quatro janelas, dois miradouros, estantes metálicas, mesas alinhadas e, por todo o lado, ossadas humanas – os restos mortais de um exército de guerreiros da Idade do Bronze.

Dezenas de crânios com as suas calotas vazias, maxilares com dentaduras assombrosamente brancas, fémures, tíbias, ossos pélvicos, omoplatas e clavículas. Juntamente com cada peça recuperada, uma saqueta de plástico com a legenda “Museu Arqueológico do Land de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental” e, acrescentados a lápis, pormenores descritivos tais como “145 – costela direita com lesão incisa recente (possivelmente de arma branca)”.

A vítima deve ter recebido uma cutilada no tórax que provavelmente lhe provocou morte rápida. Tão rápida como a do jovem morto por uma flecha que lhe atravessou a região occipital. A ponta de bronze ainda hoje se encontra alojada no seu crânio: por fora, sobressai o casquilho da haste e por dentro é possível perceber que o metal penetrou bem fundo no seu cérebro.

“Não”, diz Ute Brinker, “não tenho pesadelos”. A sua colega Annemarie Schramm nega com a cabeça, divertida. Que pergunta! Nenhuma das duas conseguiria dedicar-se à osteoarqueologia se as provas de uma morte violenta provocassem apreensão. Em pelo menos 65 casos, documentaram feridas que não chegaram a cicatrizar, quase todas causadas por flechas, juntando-se-lhes outras 27 lesões já curadas. Restos mortais pertencentes a guerreiros que, há 3.300 anos, morreram combatendo num vau fluvial e que, ao longo de várias campanhas de investigação, arqueólogos e mergulhadores têm recuperado no vale pantanoso de Tollense e no fundo do rio do mesmo nome, próximo da localidade de Weltzin, no land alemão de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental.

Vestígios de uma grande batalha: será que o maxilar encaixa no crânio? O quebra-cabeças anatómico que tentam resolver as arqueólogas Ute Brinker (à esquerda) e Annemarie Schramm no Castelo de Wiligrad, na Alemanha, é composto por milhares de peças. 

Aqueles homens viveram e morreram num período hoje conhecido como Idade do Bronze. Com esta liga metálica de cobre e estanho, fabricavam-se armas, ferramentas e jóias. Ao acrescentar-se estanho ao cobre, o metal resultante tornava-se mais resistente. Na Europa de há quatro mil anos não faltavam minas de cobre. Em contrapartida, as jazidas de estanho eram escassas. Quem desejasse fabricar e utilizar o bronze precisava de integrar-se numa rede comercial que unia lugares tão distantes como o mar Báltico e o Egipto, ou a Grã-Bretanha e os Cárpatos.

Esse comércio de longa distância revolucionou a Europa. As antigas sociedades isoladas e igualitárias abriram as portas à hierarquização social. Em breve passaram a existir a riqueza e a pobreza, a nobreza e o vulgo. Surgiram os precursores dos impostos, as alfândegas e os meios de pagamento.

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