Os crentes adoram Jesus como Filho de Deus. 

Os cépticos desvalorizam Jesus, considerando-o uma lenda. Os artistas retrataram-no em imagens que reflectem o seu próprio tempo e espaço. Entretanto, os arqueólogos que fazem escavações na Terra Santa ajudam-nos a separar os factos da ficção.

Texto: Kristin Romey

Há muitos retratos de Jesus, desde frescos da época romana a uma reconstituição forense moderna.

O gabinete de Eugenio Alliata em Jerusalém é mais parecido com a base de um arqueólogo que preferiria estar no campo a sujar as mãos do que entre quatro paredes a arrumar artefactos. Relatórios de escavações partilham as prateleiras atafulhadas com fitas métricas e outras ferramentas do ofício.
O gabinete é parecido com os de todos os arqueólogos que conheci no Médio Oriente, só que Alliata enverga o hábito castanho-chocolate de um frade franciscano e a sua sede fica no Mosteiro da Flagelação. Segundo a tradição eclesiástica, o mosteiro assinala o local onde Jesus Cristo, condenado à morte, foi flagelado pelos soldados romanos e coroado com espinhos.

Fiéis na Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém, circundam a Edícula restaurada, um santuário que, segundo a tradição cristã, foi construído sobre a sepultura de Jesus Cristo. O santuário atraiu a atenção do mundo em 2016, quando a equipa de restauro descobriu restos de um túmulo antigo atrás das suas paredes ornamentadas.

“Tradição” é uma palavra muito ouvida neste recanto do mundo, onde multidões de turistas e peregrinos são atraídos a dezenas de sítios que, segundo a tradição, são as pedras angulares da vida de Cristo – desde o seu local de nascimento em Belém à sepultura em Jerusalém.

Para uma arqueóloga como eu, transformada em jornalista, sempre consciente de que culturas inteiras emergiram e colapsaram, deixando poucos vestígios da sua passagem sobre a Terra, vasculhar uma paisagem ancestral em busca de fragmentos de uma só vida parece uma perda de tempo. Não é muito diferente da perseguição de um fantasma. E quando esse fantasma é nada menos do que Jesus Cristo, que mais de dois mil milhões de pessoas em todo o mundo crêem ser o Filho de Deus, a reportagem corre o risco de nos tentar a procurar orientação divina.

O padre Alliata recebe-me sempre com um misto de paciência e perplexidade. Professor universitário de Arqueologia do período cristão e director do Museu Franciscano de Estudos Bíblicos, o padre Alliata pertence a uma missão franciscana com mais de setecentos anos que pretende cuidar e proteger os sítios religiosos antigos na Terra Santa e, desde o século XIX, escavá-los segundo princípios científicos.

 

Homem de fé, o padre Alliata aparenta estar em paz com aquilo que a arqueologia pode revelar sobre a figura central do cristianismo. “Vai ser uma circunstância estranha se obtivermos provas arqueológicas de [uma pessoa específica] de há dois mil anos”, reconhece. “Mas não se pode afirmar que Jesus não deixou vestígios na história.”

Os vestígios mais importantes são, de longe, os textos do Novo Testamento, sobretudo nos Evangelhos de São Mateus, São Marcos, São Lucas e São João. De que maneira estes textos ancestrais, escritos na segunda metade do século I, e as tradições que inspiraram, se relacionam com o trabalho de um arqueólogo?

Segundo o Evangelho de São João, Jesus curou um homem paralisado num banho ritual rodeado por cinco colunatas chamado Reservatório de Betesda, em Jerusalém. Vários académicos duvidaram da veracidade do local até arqueólogos descobrirem vestígios claros da sua existência sob as ruínas destas igrejas multisseculares.

“A tradição dá mais vida à arqueologia e a arqueologia dá mais vida à tradição”, responde o padre Alliata. “Certas vezes, combinam bem uma com a outra, outras vezes nem por isso”, prossegue, fazendo uma pausa e esboçando um sorriso. “E isso é muito interessante.”

Com a bênção do padre Alliata, parto para seguir as pegadas de Jesus, acompanhando a sua história tal como ela nos foi contada pelos Evangelhos e interpretada por gerações sucessivas de académicos. Pelo caminho, espero descobrir de que maneira os textos e as tradições cristãs se comportam perante as descobertas dos arqueólogos que, há cerca de 150 anos, começaram a revolver com seriedade e método as areias da Terra Santa.
No entanto, antes de dar início à minha peregrinação, preciso de analisar uma pergunta explosiva que espreita nas sombras dos estudos sobre o Jesus histórico: será possível que Jesus Cristo nunca tenha existido, que toda esta história reproduzida em vitrais seja pura invenção?
É uma afirmação defendida por alguns cépticos assumidos, mas não, como vim a descobrir, pelos académicos, sobretudo os arqueólogos, cujo trabalho tende a deitar literalmente por terra os voos da imaginação.

“Não conheço nenhum investigador convencional que duvide da historicidade de Jesus,” disse Eric Meyers, arqueólogo e professor emérito de Estudos Judaicos na Universidade de Duke. “Os pormenores são discutidos há séculos, mas ninguém tem dúvidas sérias sobre a sua identidade como figura histórica.”

Ouvi praticamente o mesmo de Byron McCane, arqueólogo e professor de história. “Não consigo lembrar-me de mais nenhum exemplo que se enquadre tão bem no seu tempo e no seu espaço e que, mesmo assim, suscite dúvidas sobre a sua existência”, afirmou.

Até John Dominic Crossan, antigo sacerdote e co-presidente de um polémico fórum académico, acredita que os cépticos radicais vão longe de mais. É verdade que as histórias sobre os feitos milagrosos de Cristo são difíceis de aceitar pela mente contemporânea. Mas isso não é razão para concluir que Jesus de Nazaré tenha sido uma fábula religiosa. “Podemos argumentar que Jesus caminhou sobre a água e que ninguém consegue fazer isso, pelo que ele não terá existido. Mas isso é diferente”, disse-me John. “O pano de fundo sobre os actos que lhe são atribuídos na Galileia e em Jerusalém até à sua execução é, creio eu, perfeitamente enquadrável num determinado cenário.”

Um ícone decorado com jóias usado por Teófilo III, patriarca grego ortodoxo de Jerusalém e da Palestina, representa a Virgem Maria e o Menino Jesus.

Os investigadores que estudam Jesus dividem-se em dois campos opostos: aqueles que acreditam que o Jesus milagreiro dos Evangelhos é o Jesus autêntico e aqueles que acham que o Jesus autêntico (o homem que inspirou o mito) se oculta sob a superfície dos Evangelhos e tem de ser revelado através de investigação histórica e análise literária. Ambos os campos reivindicam a arqueologia como aliada.

Independentemente de quem Jesus Cristo tenha sido, a diversidade e devoção dos seus discípulos de hoje formam um desfile colorido quando chego a Belém, uma cidade antiga tradicionalmente identificada com o seu local de nascimento. Os autocarros turísticos que atravessam o ponto de controlo entre Jerusalém e a Cisjordânia transportam umas Nações Unidas virtuais de peregrinos. Um a um, os autocarros estacionam e descarregam os seus passageiros, que emergem do interior piscando os olhos devido ao sol ofuscante: mulheres indianas vestindo saris vistosos, espanhóis com mochilas estampadas com o logótipo da sua paróquia, etíopes com túnicas brancas como a neve e crucifixos índigo tatuados na testa.

 

Aproximo-me de um grupo de peregrinos nigerianos na Praça da Manjedoura e sigo-os, entrando pela porta baixa da Igreja da Natividade. As naves altíssimas da basílica apresentam-se envoltas em telas e andaimes. Uma equipa de conservação está ocupada a remover séculos de fuligem libertada pelas velas dos mosaicos dourados do século XII que ladeiam as paredes superiores, por cima de vigas cuidadosamente esculpidas em madeira de cedro no século XII. Circundamos cuidadosamente uma secção aberta no solo que revela a fase mais antiga da igreja, construída na década de 330, sob ordens de Constantino, o primeiro imperador cristão de Roma.

As ruínas do Herodium evocam o poder opressivo do Império Romano, já representado por Herodes. Alguns académicos consideram Jesus um activista da revolução social que tinha por missão real alterar o regime e não salvar almas.

Outra série de degraus conduz-nos a uma gruta iluminada por lamparinas e um recanto revestido a mármore. Aqui, uma estrela prateada assinala o local exacto onde, segundo a tradição, Jesus Cristo nasceu. Os peregrinos ajoelham-se para beijar a estrela e encostam a palma das mãos à pedra fria e polida. Pouco depois, um funcionário da igreja pede-lhes que se despachem e dêem a outros a possibilidade de tocar na pedra sagrada.

A Igreja da Natividade é a mais antiga igreja cristã aberta ao culto diariamente, mas nem todos os académicos estão convencidos de que Jesus de Nazaré tenha nascido em Belém. Apenas dois dos quatro Evangelhos mencionam o seu nascimento e fornecem relatos divergentes. Alguns suspeitam que os autores dos Evangelhos indicaram Belém como local da Natividade de Jesus para vincular o camponês da Galileia à cidade da Judeia profetizada no Antigo Testamento como local de nascimento do Messias.

A arqueologia permanece praticamente silenciosa nesta matéria. Afinal, quais as probabilidades de escavar quaisquer vestígios da visita fugaz de um casal de camponeses há dois milénios? As escavações realizadas na própria Igreja da Natividade e em seu redor não revelaram, até à data, quaisquer artefactos datados do tempo de Cristo, nem quaisquer sinais de que os cristãos primitivos considerassem o local sagrado.
A primeira prova clara de veneração data do século III, quando o teólogo Orígenes escreveu: “Em Belém, é mostrada a gruta onde [Jesus] nasceu.” No início do século IV, o imperador Constantino enviou uma delegação imperial para identificar locais associados à vida de Cristo e consagrá-los com igrejas e santuários. Depois de localizarem o que pensavam ser o local da gruta da Natividade, os delegados erigiram uma igreja requintada, predecessora da actual basílica.

As colunas de uma sinagoga dos séculos II-V parcialmente restaurada, em Cafarnaum, situam-se sobre uma estrutura mais antiga talvez visitada por Jesus. Nos arredores, os arqueólogos descobriram uma habitação venerada pelos cristãos primitivos, possivelmente a casa do apóstolo Pedro.

Muitos investigadores têm uma posição neutra sobre o local de nascimento de Cristo, uma vez que as provas físicas não sustentam qualquer posição. Para eles, o velho adágio que aprendi em arqueologia – “A ausência de provas não prova a inexistência de provas” – aplica-se neste caso.

o rasto do Jesus autêntico torna-se visível na Galileia, a terra de colinas ondulantes situada na região setentrional de Israel. Jesus foi criado em Nazaré, uma pequena aldeia agrícola no Sul da Galileia. Os investigadores que o vêem de uma perspectiva meramente humana, como reformador religioso, revolucionário social, profeta apocalíptico ou mesmo… jihadista judaico, sondam as correntes políticas, económicas e sociais da Galileia do século I em busca das forças que originaram o homem e a sua missão.

A força que mais poderosamente influenciava a vida da Galileia nessa época era, de longe, o Império Romano, que subjugara a Palestina cerca de 60 anos antes do nascimento de Jesus. A governação de Roma criara anticorpos na região, e muitos académicos defendem que esta agitação constituiu o palco ideal para o agitador judeu.

Outros imaginam que a escalada ofensiva da cultura greco-romana fez de Jesus um defensor um pouco menos judeu e mais cosmopolita da justiça social. Em 1991, John Dominic Crossan publicou um livro explosivo, “The Historical Jesus”, no qual apresentou a teoria de que Jesus terá sido um sábio errante cujo estilo de vida de contracultura e afirmações subversivas tinham parecenças impressionantes com os Cínicos. Estes filósofos peripatéticos da Grécia Antiga, embora não sendo cínicos no sentido actual do termo, não se preocupavam com convenções sociais como a aquisição de dinheiro e estatuto.

 

Tesouros do tempo de Jesus. Escavada numa sinagoga na terra natal de Maria Madalena, crê-se que a Pedra de Magdala tenha sido inspirada no Templo Judeu de Jerusalém e usada como suporte cerimonial da Torá. Esta imagem foi captada nos armazéns dos tesouros nacionais de Israel.

A tese heterodoxa foi parcialmente inspirada por descobertas arqueológicas demonstrativas de que a Galileia estava, efectivamente, a tornar-se mais urbanizada e romanizada durante o tempo de Jesus do que os académicos pensavam, e isso deve-se parcialmente ao facto de a casa de infância de Jesus se situar a cinco quilómetros de
Séforis, a capital de província romana. Embora a cidade não seja mencionada nos Evangelhos, uma campanha de construção ambiciosa promovida pelo governante da Galileia, Herodes Antipas, poderia ter atraído trabalhadores qualificados de todas as aldeias em redor. Muitos académicos consideram razoável imaginar Jesus, um jovem artesão que vivia nos arredores, a trabalhar em Séforis e, tal como um caloiro universitário, a desafiar os limites da sua educação religiosa.

Numa radiosa manhã de Primavera, depois de uma sequência de chuvadas ter coberto as colinas da Galileia de flores, dei um passeio entre as ruínas de Séforis com Eric e Carol Meyers, os arqueólogos que consultei no início da minha odisseia. O casal passou 33 anos a escavar este amplo sítio arqueológico, que se tornou o centro de uma discussão acesa sobre quão judaica seria a Galileia e, por conseguinte, Jesus.

Eric Meyers pára em frente de uma pilha de colunas. Detém-se no topo de uma colina e acena com as mãos sobre uma extensão de muros meticulosamente escavados. “Tivemos de escavar um acampamento da guerra de 1948, incluindo um obus ainda activo, para chegarmos a estas casas”, explica. “E sob elas, encontrámos o mikveh!”

Pelo menos 30 mikvaot, ou banhos rituais judeus, polvilham o bairro residencial de Séforis, a maior concentração doméstica alguma vez descoberta por arqueólogos. Juntamente com recipientes cerimoniais de pedra e uma ausência assinalável de ossos de porco, estes vestígios fornecem evidências concretas de que esta cidade imperial romana permaneceu bastante judaica durante os anos formativos da vida
de Jesus.

Este e outros esclarecimentos resultantes de escavações na Galileia provocaram uma mudança significativa na opinião académica, afirma Craig Evans, professor de Origens Cristãs. “Graças à arqueologia, ocorreu uma grande mudança na forma de pensar: de Jesus, o helenista cosmopolita, a Jesus, o judeu observante.”

Cenas da vida de Cristo enfeitam uma pequena capela copta ortodoxa na Igreja do Santo Sepulcro. Várias seitas cristãs partilham cautelosamente o enorme santuário, cada uma reivindicando para si uma capela ou outro espaço. As chaves da igreja são confiadas a uma família muçulmana local.

Quando Jesus tinha cerca de 30 anos, entrou nas águas do rio Jordão na companhia do agitador judaico João Baptista e, segundo relatos do Novo Testamento, viveu uma experiência que lhe mudou a vida. Erguendo-se da água, viu o Espírito divino descer sobre ele “como uma pomba” e ouviu a voz de Deus proclamar: “Este é o Meu Filho, muito amado, no qual pus toda a minha complacência.” O encontro divino lançou Jesus numa missão de pregação e cura que começou na Galileia e terminou, três anos mais tarde, com a sua execução em Jerusalém.

 

Uma das suas primeiras paragens foi em Cafarnaum, uma aldeia piscatória na margem noroeste de um grande lago de água doce confusamente designado por mar da Galileia. Ali, Jesus encontrou os pescadores que viriam a tornar-se os seus primeiros seguidores – Pedro e André lançando redes, Tiago e João remendando as suas – e criou a sua primeira base de actuação.

Comummente chamada “cidade de Jesus” na rota turística dos cristãos, o local de peregrinação de Cafarnaum é hoje propriedade dos franciscanos e está cercado por uma vedação metálica alta. A tabuleta afixada no portão avisa com toda a clareza que não podem entrar lá dentro cães, armas, cigarros e saias curtas. Mesmo em frente do portão, ergue-se uma igreja incongruentemente moderna, assente sobre oito pilares, que parece uma nave espacial pairando sobre uma pilha de ruínas. É o Memorial de São Pedro, consagrado em 1990 sobre uma das maiores descobertas arqueológicas sobre este tema no século XX.

Morte numa cruz romana. O osso do calcanhar de um homem crucificado descoberto num túmulo familiar poderá refutar a afirmação segundo a qual Jesus, tendo sido executado como um criminoso, não teria recebido um enterro digno. A crucificação romana assumia várias formas.

Do alto do seu estranho poleiro, a igreja oferece uma perspectiva deslumbrante do lago, mas todos os olhares são atraídos para o centro do edifício, onde os visitantes podem espreitar sobre um corrimão e um piso envidraçado e ver as ruínas de uma igreja octogonal construída cerca de 1.500 anos antes. Quando arqueólogos franciscanos escavaram sob a estrutura em 1968, descobriram que fora construída sobre os restos de uma casa do século I. Havia evidências de que esta residência particular fora transformada em ponto de encontro público num curto espaço de tempo.

Na segunda metade do século I, poucas décadas após a Crucificação de Jesus, as paredes toscas de pedra foram estucadas e os utensílios de cozinha substituídos por lucernas a óleo, características dos centros de congregação comunitários. Ao longo dos séculos seguintes, súplicas dirigidas a Cristo foram gravadas nas paredes e quando o cristianismo se tornou a religião oficial do Império Romano, no século IV, a construção fora ampliada, transformando-se numa casa de culto requintadamente decorada. Desde então, a estrutura tem sido comummente conhecida como a Casa de Pedro e, embora seja impossível determinar se o discípulo habitou efectivamente a casa, muitos académicos acreditam nessa possibilidade.

Os Evangelhos referem que Jesus curou a sogra de Pedro, doente com febre, na sua casa de Cafarnaum. A notícia do milagre espalhou-se rapidamente e, nessa noite, uma multidão em sofrimento juntou-se à sua porta. Jesus curou os doentes e libertou pessoas possuídas por demónios.

Relatos de grandes multidões dirigindo-se a Jesus em busca de cura são compatíveis com aquilo que a arqueologia revela sobre a Palestina do século I, onde grassavam doenças como a lepra e a tuberculose. Segundo um estudo sobre sepulturas da Palestina romana, realizado pelo arqueólogo Byron McCane, dois terços a três quartos das sepulturas examinadas continham restos mortais de crianças e adolescentes. Quem sobrevivesse aos anos perigosos da infância, via as suas probabilidades de viver até velho aumentarem consideravelmente, explica o arqueólogo. “No tempo de Jesus, aparentemente, a dificuldade era ultrapassar a barreira dos 15 anos.”

Parto de Cafarnaum e dirijo-me para sul, ao longo do mar da Galileia, até chegar a um kibutz (ou exploração agrícola comunitária) que, em 1986, foi um local de grande excitação e de uma escavação de emergência. Uma seca grave baixara drasticamente o nível das águas do rio e, quando dois irmãos da comunidade procuravam moedas antigas na lama do leito exposto do lago, vislumbraram o contorno ténue de um barco. Arqueólogos que examinaram a embarcação descobriram artefactos datados da época romana, no interior e junto do casco. Testes de datação por carbono 14 realizados subsequentemente confirmaram a idade da embarcação: era aproximadamente do tempo de Jesus.

Os esforços para manter a descoberta em segredo não tardaram a fracassar e a notícia sobre “o barco de Jesus” desencadeou uma corrida de caçadores de relíquias até às margens do lago. Foi nesse instante que as chuvas regressaram e o nível do lago começou a subir.

A “escavação de resgate” que se seguiu, empreendida durante as 24 horas de cada dia foi uma proeza arqueológica digna dos livros de recordes. Um projecto que normalmente demoraria meses a planear e executar foi concluído, do início ao fim, em apenas onze dias. Uma vez expostas ao ar, as madeiras encharcadas da embarcação desintegrar-se-iam rapidamente, pelo que os arqueólogos escoraram os restos com uma estrutura de fibra de vidro e espuma de poliuretano e fizeram-nos flutuar até um local seguro.

Actualmente, a valiosa embarcação ocupa um lugar de destaque no museu do kibutz. Medindo aproximadamente dois metros de largura e oito de comprimento, teria capacidade para 13 homens, mas não há naturalmente qualquer prova de que Jesus e os seus Doze Apóstolos tenham utilizado esta embarcação específica. O artefacto não me pareceu particularmente notável: um esqueleto de tábuas remendado e reparado até ser finalmente desequipado e submerso.

“Eles tiveram de cuidar deste barco até já não conseguirem cuidar mais dele”, comenta John Crossan, que compara a embarcação com “alguns daqueles carros que vemos em Havana”. No entanto, o seu valor para os historiadores é incalculável, afirma. Ao apreciar “quão arduamente eles tinham de trabalhar para manter o barco à tona, diz-me muito sobre a economia do mar da Galileia e a pesca no tempo de Jesus”.

Outra descoberta espectacular ocorreu dois quilómetros a sul do barco de Jesus, no antigo sítio de Magdala, a terra natal de Maria Madalena, uma seguidora devota de Jesus. Os arqueólogos franciscanos começaram a escavar parte da cidade durante a década de 1970, mas a metade setentrional encontrava-se sob uma estância turística abandonada à beira do lago, chamada Hawaii Beach.

Entrou então em cena o padre Juan Solana, um enviado papal encarregado de supervisionar uma hospedaria para peregrinos em Jerusalém. Em 2004, Solana “sentiu o chamamento de Cristo” para construir um retiro para peregrinos na Galileia e dedicou-se à angariação de milhões de euros e à aquisição de terrenos à beira do lago, incluindo a estância falida.

 

Quando a construção estava prestes a começar em 2009, arqueólogos da Autoridade de Antiguidades Israelita compareceram no local para o examinar, conforme as exigências regulamentares. Após algumas semanas a sondar o solo rochoso, ficaram estupefactos por descobrirem as ruínas enterradas de uma sinagoga do tempo de Jesus, a primeira estrutura do género encontrada na Galileia.

O achado foi particularmente significativo por ter posto fim à argumentação dos cépticos, segundo os quais só existiram sinagogas na Galileia décadas após a morte de Jesus. Se esses cépticos estivessem certos, a sua afirmação eliminaria o retrato de Jesus traçado pelos Evangelhos como um fiel frequentador da sinagoga que proclamava frequentemente a sua mensagem e obrava milagres sobretudo nestes locais de congregação judaicos.

Ao escavarem as ruínas, os arqueólogos encontraram paredes revestidas com bancos – indicando tratar-se de uma sinagoga – e um pavimento em mosaico. Para sua surpresa, descobriram no centro da sala uma rocha do tamanho aproximado de uma arca com os elementos mais sagrados do Templo de Jerusalém esculpidos em relevo. A descoberta da Pedra de Magdala, o nome que viria a ser dado ao artefacto, desferiu um golpe mortal na ideia outrora em voga de que os galileus eram campónios ímpios afastados do centro religioso de Israel.

Peregrinos coptas etíopes comemoram a Páscoa no topo da Igreja do Santo Sepulcro. Numa longa contenda com os coptas egípcios, os monges etíopes ocupam um mosteiro construído no telhado há mais de duzentos anos para reforçar o seu direito a uma parte da igreja.

Ao prosseguirem a escavação das ruínas, os arqueólogos descobriram uma cidade inteira enterrada a menos de trinta centímetros da superfície. As ruínas estavam tão bem preservadas que alguns começaram a chamar “Pompeia israelita” a Magdala.

A arqueóloga Dina Avshalom-Gorni guiou--me através do local, apontando-me a localização dos restos de armazéns, banhos rituais e uma zona industrial onde poderia ser processado e vendido peixe. “Consigo imaginar as mulheres a comprarem peixe no mercado neste sítio exacto”, comentou, acenando em direcção aos alicerces de bancas de pedra. E quem sabe? Talvez entre essas mulheres estivesse a famosa filha da cidade, Maria de Magdala.

O padre Solana vem cumprimentar-nos e pergunto-lhe o que diz aos visitantes que querem saber se Jesus andou por estas ruas. “Não temos resposta para isso, mas sabemos o número de vezes que os Evangelhos mencionam Jesus numa sinagoga na Galileia”, admite. Tendo em conta o facto de a sinagoga ter mantido actividade durante o seu ministério e de se situar a uma breve viagem de barco de Cafarnaum, Solana conclui: “Não temos razões para negar ou duvidar que Jesus esteve aqui.”

Em cada paragem da minha viagem pela Galileia, as ténues pegadas de Jesus pareciam tornar-se um pouco mais visíveis. Quando regressei a Jerusalém, porém, assumiram plena nitidez. No Novo Testamento, a cidade ancestral é o palco de vários dos seus milagres e momentos mais dramáticos.

Contrariamente às histórias díspares que narram o nascimento de Jesus, os quatro Evangelhos são bastante mais concordantes no que diz respeito ao relato da sua morte. Após a sua chegada a Jerusalém, para celebrar a Páscoa, Jesus foi apresentado diante do sumo-sacerdote Caifás e acusado de blasfémia e ameaças contra o Templo. Condenado à morte pelo governador romano Pôncio Pilatos, foi crucificado numa colina fora das muralhas da cidade e sepultado num túmulo escavado na rocha ali perto.

A localização tradicional desse túmulo, na actual Igreja do Santo Sepulcro, é considerada o local mais sagrado da cristandade. É igualmente o local que desencadeou a minha busca pelo Jesus real. Em 2016, fiz várias viagens à igreja para documentar o restauro histórico da Edícula, o santuário que aloja o famoso túmulo de Jesus. Agora, durante a semana da Páscoa, regresso para ver o túmulo em toda a sua glória, reforçado e limpo de fuligem.

De pé, lado a lado com peregrinos que aguardam a sua entrada no minúsculo santuário, recordo as noites que passei fora da igreja vazia com a equipa de conservação, desvendando recantos escurecidos cobertos por séculos de grafitos e sepulturas de reis cruzados.

Sinto-me maravilhada com os numerosos achados arqueológicos feitos em Jerusalém e noutros locais ao longo dos anos que deram credibilidade às Escrituras e às tradições em torno da morte de Jesus, incluindo um ossário decorado que poderá conter os ossos de Caifás, uma inscrição confirmativa do governo de Pôncio Pilatos e um osso do calcanhar atravessado por um prego de ferro de crucificação, descoberto na sepultura de um homem judeu chamado Yehohanan em Jerusalém.

Um peregrino ajoelha-se na Igreja do Santo Sepulcro, junto da Pedra da Unção, que celebra a unção do corpo de Cristo antes de ser sepultado.

Sinto-me igualmente assombrada pelas muitas linhas de prova que convergem nesta igreja antiga. A poucos metros do túmulo de Cristo, há outros túmulos da mesma época escavados na rocha, confirmando que esta igreja, destruída e reconstruída duas vezes, foi efectivamente construída sobre um cemitério judaico. Recordo-me de estar sozinha no interior do túmulo depois de a sua tampa de mármore ser brevemente removida e sentir-me maravilhada ao olhar para um dos mais importantes monumentos do mundo – uma simples prateleira de calcário venerada há milénios e que não era vista há, possivelmente, mil anos. Acima de tudo, senti-me maravilhada com todas as perguntas históricas para as quais eu esperava encontrar resposta neste breve e espectacular momento de exposição.

Nesta minha visita de Páscoa, estou novamente dentro do túmulo, espremida contra três mulheres russas com as cabeças cobertas por lenços. A laje de mármore já está no sítio, protegendo o leito sepulcral dos beijos e de todos os rosários e cartões com orações incessantemente esfregados na superfície polida ao longo do tempo. A mais nova das mulheres murmura súplicas a Jesus, rogando-lhe que cure o seu filho Yevgeni, doente com leucemia.

O sacerdote que se encontra junto da entrada recorda-nos, alto e bom som, que o nosso tempo chegou ao fim e que há mais peregrinos à espera. Com relutância, as mulheres levantam-se e encaminham-se para a saída. Sigo-as. Neste instante, apercebo-me de que, para os verdadeiros crentes, a demanda académica pelo Jesus histórico e não sobrenatural pouco importa. Essa demanda será interminável, repleta de teorias que vão mudando com o tempo, perguntas sem resposta, factos irreconciliáveis. Para os verdadeiros crentes, porém, a fé na vida, morte e ressurreição do Filho de Deus é prova suficiente. 

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