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Escavações em Mértola

Texto: Gonçalo Pereira Rosa

Fotografias: António Cunha

Uma escavação arqueológica revelou indícios do passado glorioso de Mértola, documentando uma viagem ao tempo de um novo culto romano na vila.

Ex digito gigas. Pelo dedo se vê o gigante – referia a velha alocução latina. Talvez ninguém tenha pensado nessas palavras nos primeiros instantes, mas havia uma correspondência divertida entre o velho ditado romano e o achado que brotava agora do solo numa tarde de Verão em Mértola.
Protegida do calor escaldante pelas paredes da velha Casa Cor de Rosa da vila, uma equipa do Campo Arqueológico de Mértola (CAM) produziu uma descoberta peculiar. Nos alicerces desta velha propriedade de um comerciante mertolense do início do século XX, antepassado da família Allen Gomes, surgiu uma sandália de mármore. Era um pé de dimensão considerável, vestígio evidente de uma estátua há muito removida do seu pedestal. “Ficámos contentes, naturalmente”, conta Virgílio Lopes, coordenador da escavação. “Até a comparámos com uma estátua exposta na Casa Romana do Museu de Mértola, mas não havia correspondência.”

A sandália tem uma simbologia muito própria em Mértola. Ibn Qasi, líder sufista de Mértola à época da reconquista cristã, tem uma estátua equestre ao lado do Castelo e foi autor de um curioso tratado intitulado “Vamos Apertar as Sandálias” precisamente sobre questões religiosas.
“A forma como se aperta ou desaperta as sandálias entre as tribos berberes formaliza a união ou a desunião entre tribos”, lembra o arqueólogo Cláudio Torres, responsável do CAM. “Teve uma certa graça que o primeiro vestígio romano encontrado nesta escavação fosse uma sandália onze séculos anterior a Ibn Qasi.”

 

Nos dias seguintes, porém, a equipa continuaria a maravilhar-se com as descobertas sucessivas. Em breve, a sandália passaria para segundo plano. Quatro metros abaixo da superfície, numa cova artificial, surgiram fragmentos de grande dimensão de estatuária nobre. Um deles destacou-se dos demais. De torso nu e profusamente decorado com animais reais e ficcionais, registava, só por si, dimensões colossais. Virado para o solo, como se se escondesse, mostrava as costas. Com um resquício de malandrice, mal pôde, Virgílio Lopes esgueirou a mão por um cavidade no solo até tactear relevos que deverão fazer parte de uma couraça. Quando esta figura musculada foi limpa, um nome brotou de imediato na boca de Cláudio Torres: Augusto. Estaria um mistério com mais de um século finalmente resolvido?

Devem-se a um frade dominicano muitas das primeiras notícias arqueológicas do Alentejo. No século XVI, o eborense André de Resende visitou compulsivamente cidades e vilas. O seu gosto por antiguidades era conhecido e representantes das populações levavam-lhe informações dispersas sobre o que ia aparecendo. Mértola não foi excepção. Em data desconhecida, Resende terá estado na vila. Ali soube que, anos antes (a imprecisão é do próprio), os “habitantes de Mértola permitiram que levassem dali oito ou dez estátuas, escavadas da terra, artisticamente esculpidas mas sem cabeça, admitindo-se que as cabeças fossem de bronze e inseridas nos corpos e que tivessem mesmo sido arrancadas para outro uso”.

Quase pela mesma altura, Frei Amador Arrais testemunhou a descoberta de cinco estátuas de mármore quando se fizeram obras nos alicerces da Igreja da Misericórdia da vila, lembrando que eram ali conhecidas colunas, estátuas e inscrições romanas.

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