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Entre Setembro de 1957 e Outubro de 1958, o vulcão dos Capelinhos, na ilha açoriana do Faial, manifestou-se ruidosamente. Cinquenta anos depois, assinalámos a data e, com mais dez anos em cima, recuperamos a história: faz sessenta anos que o vulcão dos Capelinhos emergiu do fundo do mar.

Texto Paulo Rolão   Fotografia  Pedro Guimarães

 

O vulcão dos Capelinhos apresenta uma configuração bastante deteriorada em comparação aquando do seu apogeu. Ano após ano, as derrocadas vão aumentado e o antigo vulcão sucumbe aos poucos.

Os abalos que sacudiam a ilha do Faial há vários dias não prenunciavam nada de bom. E não é pela força do hábito que se pode encarar com descanso as instabilidades da terra. Afinal, não deixa de ser um fenómeno relativamente normal nestas ilhas plantadas a meio do Atlântico, nos instáveis limites de diversas placas tectónicas e a curta distância da dorsal médio-atlântica. A população temeu pelos seus bens mas, como é habitual, entregou-se nas mãos de Deus e resguardou-se em súplicas misericordiosas. Nenhuma entidade divina, porém, poderia conter a força que vinha das entranhas da Terra – às 6h45 do dia 27 de Setembro de 1957, na ponta oeste da ilha, a cerca de cem metros dos ilhéus dos Capelinhos e a um quilómetro da costa, o mar aparentemente calmo entrou em ebulição, dele jorrando colunas de nuvens cinzentas e esbranquiçadas.

A cerca de cem metros dos ilhéus dos Capelinhos e a um quilómetro da costa, o mar aparentemente calmo entrou em ebulição, dele jorrando colunas de nuvens cinzentas e esbranquiçadas. 

José Soares da Cunha, conhecido por todos como mestre Rosairinha, foi o primeiro a detectar algo de anormal, alertado pelos gritos do irmão Daniel, mais abaixo, na estrada do farol. Era ele quem estava no posto de vigia da comunidade baleeira do Comprido, e esfregou os olhos ensonados perante tamanha visão. Estava ali para vigiar a presença de cetáceos, mas o que estava no mar era algo bem diferente de uma baleia. Correu para o farol e alertou o chefe faroleiro, o senhor Avelar, que quase não pregara olho nessa noite devido à forma como a torre abanara. Pouco depois, na cidade da Horta, as autoridades tomaram conhecimento da ocorrência.

O registo do fenómeno pela National Geographic. Fotografia Robert F. Sisson, National Geographic Creative.

Quando chegaram à ponta do Capelo, testemunharam o que lhes tinha sido transmitido por telefone a partir do farol – quatro pontos efervescentes no mar lançavam cinzas, escórias e vapores de água. José Silveira Rafael também vivia na comunidade baleeira. Aos 38 anos, era um homem calejado das intempéries do mar e já assistira a muita coisa. Mas nada como aquilo: “Vi-o rebentar e atirar pedras. Fazia muito barulho, deitava muito fumo. E a noite ficou escura como breu.” Hoje vive no lar de terceira idade da cidade da Horta e a memória prega-lhe algumas partidas, mas os 88 anos são suficientemente lúcidos para não se esquecer dos acontecimentos de 1957. Na altura, Maria Olívia Faria tinha 23 anos e, tal como hoje, vive no Capelo, povoação com localização privilegiada para ver o acontecimento.

“Vi-o rebentar e atirar pedras. Fazia muito barulho, deitava muito fumo. E a noite ficou escura como breu”

“Lembro-me de que primeiro começaram os tremores de terra miudinhos, mas depois os abanões tornaram-se mais fortes, pelo que fui com o meu marido para uma casa mais baixa. Só no dia seguinte, de manhã, é que o meu sogro me disse que tinha rebentado um vulcão.” Num relato apaixonado, continua a desfiar a memória de juventude. Sua e do vulcão. “Como não sabia bem o que era, deu-me grande curiosidade e quis ver: havia água a ferver, parecia um lago, mas não tinha medo nenhum, só me assustava de vez em quando com as explosões. Mas mesmo quando ele deitava coisas para o ar, fumo, areia e pedras, achava que era ao mesmo tempo muito bonito. Mesmo não sendo bom para a agricultura e para as casas, tive um pouco de pena quando me fui embora, porque não consigo mentir – as explosões eram mesmo muito bonitas, sobretudo à noite. Ainda agora, aos domingos, costumo passear com a família até ao vulcão. Está diferente, é verdade, mas continua a ser um bom vizinho.”

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