O gigante que despertou há quase três anos

Faz agora quase três anos que o vulcão do Fogo fez nova prova de vida. Recuperemos a sua história.

Texto Gonçalo Pereira Rosa   Fotografia Pedro Narra

 

A erupção stromboliana na ilha do Fogo libertou para a atmosfera toneladas de cinzas e fumo. Este tipo de erupção produz materiais piroclásticos incandescentes, que se acumulam à volta da boca eruptiva.

Falta uma semana para o início do Verão de 1951. Em Portugal continental, os jornais noticiam o reinício da actividade vulcânica na ilha do Fogo. Não é uma novidade na longa história de sonos e despertares do gigante cabo-verdiano, mas, desta vez, há um homem da ciência que quer compreender os mecanismos de acção vulcânica em território (então) nacional. Esse homem é Orlando Ribeiro, pai da geografia portuguesa moderna.

Orlando Ribeiro não é geólogo, mas substitui o conhecimento de causa por um entusiasmo juvenil pelos fenómenos naturais.

Ninguém mais se oferece para uma viagem-relâmpago ao arquipélago de Cabo Verde. A ilha do Fogo é remota, a vulcanologia ainda está sob a égide do Serviço Meteorológico Nacional e há muita tendência, nos assuntos coloniais, para a geologia de gabinete. Orlando Ribeiro não é geólogo, mas substitui o conhecimento de causa por um entusiasmo juvenil pelos fenómenos naturais. Com bons contactos, persuade ministros e secretários de Estado. Garantem-lhe meios aéreos, que depois não serão disponibilizados. Nas malhas da burocracia, o geógrafo perde oito dias importantes do início da erupção, ansioso e desterrado no Sal, a aguardar transporte marítimo para o centro eruptivo.
Com sentido de modernidade, Orlando Ribeiro convidara Salvador Fernandes, operador de cinema, para o acompanhar. Diz-lhe com franqueza que não sabe se haverá dinheiro para lhe pagar, mas o operador partilha o sentido de aventura (e de loucura) do cientista. Chegam a São Filipe na noite de 27 de Junho. No dia 28, já no Fogo, correm para o ponto de erupção lávica e constatam, eufóricos, que “as lavas ainda corriam”. Filmam o que podem, e a lava líquida imobiliza-se nessa mesma noite, mantendo-se as projecções incandescentes. São as primeiras imagens em movimento de uma erupção activa em território nacional.

Perante o avanço rápido das escoadas de lava, pouco restava à população da aldeia de Portela para lá da observação do fenómeno. Cerca de 1.200 pessoas foram evacuadas da caldeira do vulcão, num esforço bem sucedido de protecção civil.

Como crianças, não querem abandonar o centro explosivo. Passam ali cinco horas. Dormem os oito dias seguintes numa casa das proximidades, onde “se guardava ricínio”, a 1.700 metros de altitude, observando as projecções incandescentes e o ribombar contínuo do gigante rochoso. Passam frio e calor, mas a aventura é inesquecível. Acabam por partir 21 dias depois – uma vez mais, por força da burocracia. Orlando Ribeiro tinha de vir a Lisboa fazer exames e o governador do arquipélago precisava do navio Santa Maria para serviço da província. Pouco importa. É no Fogo que Orlando Ribeiro assina o prefácio do livro da vulcanologia portuguesa que terá um capítulo nobre na memória geológica dos Capelinhos, na ilha do Faial em 1957/58, com Raquel Soeiro de Brito, outra geógrafa que inovou nesta disciplina.

“Vulcões que não fazem mortandade ficam rapidamente esquecidos.”

“Vulcões que não fazem mortandade ficam rapidamente esquecidos.” A frase é de Victor Hugo Forjaz, presidente do Observatório Vulcanológico e Geotérmico dos Açores, e culmina uma vida inteira de estudo de vulcões na Islândia, em Itália, no Japão, na Indonésia e nos Açores. É a voz da experiência acumulada, e o lamento ecoa a tristeza da oportunidade perdida pela ciência portuguesa. “As universidades portuguesas demoraram muito tempo a responder à emergência”, conta. Por burocracia, asfixia financeira ou ausência de convite formal das autoridades locais, seis décadas depois da erupção de 1951, os meios científicos de ponta não chegaram logo onde poderiam fazer a diferença. Ironicamente, chegaram primeiro ao Fogo as equipas científicas espanholas e as turísticas italianas de volcano watching, tecnicamente bem apoiadas.
“Aprendi com o geólogo Haroun Tazieff que se deve passar horas a observar como o ‘monstro’, a fera terrestre, se exibe, como se fosse uma sessão circense.” Os primeiros dias são fundamentais: “É preciso perceber os seus feitiços, as suas zonas neutras e fiáveis, para planear uma aproximação quase segura. É a fase mais apaixonante da ‘conquista de um vulcão, seja nos Capelinhos,  como eu, jovem atónito, o vi fazer em 1957, seja no Sakurajima (baía japonesa de Kagoshima de São Francisco Xavier), onde  também o vi fazer e aconselhar, já como jovem vulcanólogo.”

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