Alimentação dos romanos pode ter contribuído para a queda do império

A herança cultural do Império Romano ainda se sente, mas sabemos pouco sobre a dieta desta época. Um projecto da Universidade de Évora quer descodificar os hábitos alimentares dos romanos no nosso território.

Texto e Fotografia António Luís Campos

 

Fragmento de um mosaico romano encontrado em Cartago, representando um banquete. A comida era um tema frequente nas representações artísticas romanas.  Louvre/Paris/França, Bridgeman Images/AIC.

Nas Universidades de Cádis e Sevilha, em Espanha, um grupo de especialistas em história, arqueologia e tecnologia dos alimentos desenvolveu um curioso projecto de reconstrução e reprodução experimental do processo de elaboração do famoso garum, um molho de peixe em nome do qual os romanos moviam montanhas. Apelidado de “Flor de Garum” e premiado em vários festivais, o produto já foi testado por chefs e será comercializado no Sul de Espanha, voltando a desafiar os paladares ibéricos. É intrigante que poucos produtos alimentares romanos tenham sobrevivido até aos nossos dias, mas, na verdade, ainda desconhecemos muito sobre o regime alimentar do período romano. E isso vai mudar. 

A nossa cultura construiu preconceitos sobre as refeições faustosas e exóticas do mundo romano.

 Junto da imponente Anta Grande do Zambujeiro, a maior da Península Ibérica, no meio de uma explosão de cor e forma típica do montado na Primavera alentejana, nada levaria a crer que Cristina Dias, química do Laboratório hercules, investiga a dieta de um império de há dois milénios. A nossa cultura construiu preconceitos sobre as refeições faustosas e exóticas do mundo romano, mas, na verdade, a investigação académica ainda não se debruçou sobre a dieta da Antiguidade e há um mundo de oportunidades associadas a esta linha de investigação.
“As opções na mesa não são normalmente escolhas pessoais”, assegura a investigadora a propósito do novo projecto heroica. “Resultam da condição social ou de classe, das crenças religiosas, do género e do grupo étnico.” As fontes documentais e a informação arqueológica permitem concluir que os cereais seriam a base da dieta romana, a par do azeite, do vinho e dos legumes secos. A carne de porco e de vaca, os produtos lácteos e o peixe proporcionariam proteínas animais, mas o acesso a estes produtos era limitado. Alguns estudos europeus reforçam esta teoria, mas também revelam variação da disponibilidade de proteína animal e de peixe em função do género, idade e região. O estatuto social seria, sem dúvida, outro elemento diferenciador.

As fontes documentais e a informação arqueológica permitem concluir que os cereais seriam a base da dieta romana, a par do azeite, do vinho e dos legumes secos.

A informação documental sobre o que se comia e bebia no Império Romano está dispersa em textos de diferentes autores e períodos.
A produção de alimentos é relatada em “Naturalis Historia”, de Plínio, o Velho, “De Re Rustica”, de Columela, e “De Agricultura”, de Cato. As dietas são descritas em tratados médicos como “Materia Medica”, de Dioscórides e podem até encontrar-se receitas culinárias em “De Re Coquineria”, atribuído a Apício. No entanto, os métodos científicos de ponta, suportados pelo equipamento tecnológico do hercules, sugerem que é possível conhecer bastante melhor os hábitos alimentares de Roma e a sua expansão ao longo do império. 
“A ciência pode ajudar à obtenção de uma visão renovada dos vestígios arqueológicos”, explica Cristina Dias. “O material cerâmico é poroso e pode reter a assinatura química de alimentos cozinhados ou armazenados no seu interior. As análises químicas e isotópicas dos tecidos ósseos podem ser usadas para determinar a dieta dos falecidos e alguns indicadores de saúde de uma população, podendo até revelar se o seu lugar de nascimento difere do local de inumação.” Por outras palavras, a multidisciplinaridade deste projecto pode fornecer respostas a questões que por ora permaneciam insolúveis.

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