Paul Salopek é um dos primeiros viajantes dos últimos cem anos a atravessar o deserto de Hejaz, na Arábia Saudita. O aventureiro encontra um passado lendário de caravanas e peregrinos, de impérios que emergem e esmorecem.

Texto Paul Salopek   Fotografia John Stanmeyer

 

Povo pré-islâmico, os nabateus esculpiram túmulos grandiosos em Madain Salih.

Existem milhares de poços na velha Hejaz. Caminhamos até eles. 
Por vezes, a água é doce, mas, por norma, é salgada. Pouco importa. Estes poços, que pontilham os trilhos das caravanas da Arábia, caíram em desuso. No entanto, são monumentos à sobrevivência humana. Cada um concentra uma representação da paisagem envolvente. E o mesmo se aplica às pessoas que bebem deles. Em Hejaz, território lendário do reino desaparecido dos hachemitas, que governaram a costa do mar Vermelho da Arábia Saudita, existem poços movimentados e poços solitários. As suas águas transmitem a química da alegria ou da tristeza. Cada um representa o cosmo num balde. Servem-nos de guias para os sentimentos e impressões de cada lugar.

Estamos a meio da caminhada de mais de 1.200 quilómetros de Jeddah à Jordânia.

Wadi Wasit é um poço do esquecimento. Alcançamo-lo num dia de calor abrasador de Agosto. Estamos a meio da caminhada de mais de 1.200 quilómetros de Jeddah à Jordânia. Descansamos nas sombras cinzentas semelhantes a dendrites criadas pelos dois espinheiros junto ao poço. É aqui que travamos conhecimento com o homem corredor. 
Chega numa carrinha. Corpulento, de bigode, este beduíno pastor de camelos é amigável, curioso, falador, enérgico. Confunde-nos com caçadores de tesouros. Afinal, que outra razão nos levaria a atravessar o deserto escaldante? Ele veio para vender objectos.
“Olhem para isto!”, diz. Mostra um anel de estanho. A bainha de ferro de uma espada. Uma moeda bem polida.
Que idade terão estes objectos?
O homem corredor não sabe. “Kadim jidn”, muito antigas, diz, encolhendo os ombros.

Um guarda armado mantém vigilância enquanto o governador Mosaad Al-Saleem recebe os convidados durante uma regata na cidade de Yanbu al-Bahr no mar Vermelho, construída na década de 1970.

Hejaz é a encruzilhada onde a Arábia Saudita, África e a Ásia se encontram. É há muito uma zona ligada à Europa através do comércio e um dos pontos lendários do mundo antigo. Há milhares de anos que se processa aqui o trânsito de pessoas. Homens da Idade da Pedra caçavam e pescavam nestas paragens enquanto se encaminhavam para norte saindo de África através de savanas entretanto desaparecidas. Representantes de algumas das primeiras civilizações da humanidade, como os assírios, os egípcios e os nabateus vaguearam por aqui, trocando escravos por incenso e ouro. Os romanos invadiram Hejaz e milhares de legionários morreram de doenças e de sede. O islão nasceu aqui, nas montanhas vulcânicas escuras de Meca e Medina. Peregrinos oriundos de Marrocos ou Constantinopla terão, provavelmente, bebido do poço de Wadi Wasit. Lawrence da Arábia também pode ter bebido das suas águas. Ninguém sabe. Kadim jidn.

Existem inúmeros passados em Hejaz. Mas eu nunca estive num lugar mais carente de memória.

“Fiquem com elas!”, propõe o homem corredor. E empurra os seus achados órfãos na nossa direcção. “Fiquem com elas de graça!”, mas nós recusamos comprar as peças.
Ao carregarmos os dois camelos para partirmos, avistamo-lo uma vez mais. Corre, em redor do poço. Despiu o seu manto branco, e corre pelo deserto em roupa interior, contornando o poço sob o sol implacável. Corre despreocupadamente. Ali al-Harbi, o tradutor, tira uma fotografia. Awad Omran, o nosso condutor de camelos, solta uma gargalhada. Mas eu não posso rir. O homem corredor não é louco. Nem está a pregar uma partida. Ele está perdido, penso eu. Como todos nós, quando abandonamos a história. Não sabemos para onde ir. Existem inúmeros passados em Hejaz. Mas eu nunca estive num lugar mais carente de memória.

A nascente de Moisés perto de Maqnah recebeu o nome em homenagem ao profeta que terá dividido o mar Vermelho para fazer sair os israelitas do Egipto. John Stanmeyer produziu a imagem com aspecto envelhecido recorrendo a uma aplicação do seu telefone.

Um pequeno poço sem fundo em Hejaz. Uma chávena de porcelana branca. Lá dentro, café escuro e saboroso. Encontra-se em cima de uma mesa de madeira polida no interior de uma mansão no porto de Jeddah. Três mulheres tagarelas de Hejaz enchem a chávena sem parar. Revezam-se a falar, procurando corrigir percepções erradas sobre a Arábia Saudita. Contestam que o reino seja uma sociedade homogénea, moldada pela austeridade islâmica, uma nação tediosa devido ao seu consumismo e petrodólares. Não é, asseguram.
Dizem-nos que a Arábia Saudita constitui um rico mosaico humano. Alberga um Leste xiita, um Sul iemenita, um Norte levantino e um bastião de cultura beduína tribal no Centro, o reduto puritano dos nadjis, o berço da dinastia reinante, a Casa de Saudi. As mulheres insistem que nenhuma região da Arábia Saudita permanece mais independente, orgulhosa, do que a região que guardou as cidades santas de Meca e Medina desde o século X: o desaparecido reino de Hejaz. Totalmente independente até ao final da Primeira Grande Guerra, Hejaz foi anexada pela dinastia dos Al Saud em 1925. Permanece um lugar de contradições. Por um lado contém a paisagem sagrada, as cidades religiosas há muito proibidas aos ateus. E, no extremo oposto, é o mais liberal e cosmopolita recanto da Arábia Saudita, um caldeirão de culturas e raças, um entreposto e encruzilhada de migração, influenciado pelas culturas da Ásia, África e Levante e centenas de outros locais.

As mulheres insistem que nenhuma região da Arábia Saudita permanece mais independente, orgulhosa, do que a região que guardou as cidades santas de Meca e Medina desde o século X.

Laila Abduljawad trabalha na preservação da cultura da região e assegura que “Hejaz atraiu peregrinos de todos os cantos do mundo islâmico. Como poderia isto não afectar a nossa cultura? O nosso prato principal é o arroz buckhari originário da Ásia Central! Os nossos têxteis tradicionais são indianos! A nossa pronúncia é egípcia! Somos mais abertos ao mundo do que os habitantes da região central”.
Salma Alireza é uma bordadeira tradicional. Garante que “o vestido tradicional da mulher de Hejaz não era a abaya”, uma peça negra e severa imposta pelos nadjis reinantes. “Aqui, as mulheres envergavam vestidos claros, vermelhos e azuis em público. Isso é que era tradicional. Mas a vida mudou na década de 1960. Começou a entrar o dinheiro do petróleo. Modernizamo-nos depressa demais. Perdemos tanto em 50 anos!”
Rabya Alfadl, uma jovem consultora de marketing, prossegue na mesma linha de raciocínio: “Hejaz ainda é diferente? Olhem à vossa volta.”

Na segunda etapa da sua viagem de sete anos para repetir as rotas de migração dos seres humanos pelo planeta, Paul caminhou durante 199 dias, percorrendo 1.255 quilómetros através do antigo reino de Hejaz na Arábia Saudita, uma região raramente atravessada a pé por estrangeiros. Grande parte do percurso seguiu as “rotas dos peregrinos”, as vias ténues que vão dar à cidade sagrada de Meca. Mapa: Ryan Morris. 

 

E é verdade. As mulheres sentam-se à mesa sem véu. Vestem blusas e calças. Um encontro igual a este seria difícil de concretizar em Riade, onde a segregação de géneros e os costumes tribais são de tal forma rígidos que um homem não ousa pronunciar o nome da mãe em público.
A casa onde conversamos foi elegantemente concebida. Minimalista, tem uma decoração que se enquadraria bem em qualquer ponto do mundo. E cá fora, nas ruas de Jeddah, existem galerias de arte, cafés, passeios públicos, museus: este é o centro cultural da Arábia Saudita.
“O sentido de identidade cultural persiste em Hejaz há mil anos. Desenvolveu a sua própria música, a sua cozinha e as suas histórias tradicionais”, diz Laila. “Estamos a dar os primeiros passos para conseguir salvar uma pequena parte disto tudo.”
Estas mulheres são filhas de uma cidade feminina. A tradição popular árabe garante que a Eva bíblica foi sepultada em Jeddah, actualmente um moderno e amplo porto industrial. O túmulo de Eva era coroado por “uma cúpula antiga e nobre”, de acordo com  o viajante Ibn Jubayr. Desapareceu e deu lugar a um árido cemitério moderno. Os clérigos Wahhabi, que abominam santuários como símbolos de idolatria, provavelmente destruíram o local há um século. Uma vez mais, ninguém se recorda disso. 

A tradição popular árabe garante que a Eva bíblica foi sepultada em Jeddah, actualmente um moderno e amplo porto industrial. 

Mais de quinhentos quilómetros a norte de Jeddah, perto de um poço seco chamado Al Amarah, paramos de caminhar. Um carro aproxima-se. É um Toyota Hilux, o camelo de ferro dos modernos beduínos. É um acontecimento. A travessia do Oeste da Arábia Saudita a pé nos dias de hoje é mais solitária do que era há uma ou duas gerações quando as tendas negras dos beduínos ainda despontavam do frágil solo de areia do deserto. Os famosos nómadas de Hejaz, os balawi, os harb, os juhayna, vivem agora nas cidades, nos subúrbios, nos escritórios, em casernas do exército.
No entanto, alguns teimosos persistem. Um sai da carrinha. É um ancião envergando um thobe cinzento manchado, o manto clássico dos homens sauditas. Traz um presente. “É a nossa tradição”, diz o homem, que se autodenomina Abu Saleh. Gesticula em direcção ao deserto com a mão calejada: “Damos as boas-vindas a todos os viajantes.” Não há mais nenhuma alma visível no horizonte. Abu Saleh deixa-nos com uma despedida simples. O seu presente é um pequeno poço de bondade: uma taça cheia de leite de camela.
Construídos por necessidade, os poços na velha Hejaz desvaneceram-se, atenuaram-se, erodiram-se em objectos de beleza e contemplação. A mais antiga destas estações de abastecimento de água foi erguida, precisamente a um dia de distância a pé, pelo califa Umar em 638 d.C. “O viajante é a pessoa mais merecedora de protecção”, declarou, antes de iniciar o mais sofisticado sistema de pontos de paragem do mundo antigo: dispersos pela rota dos peregrinos a caminho de Meca, tinham fortes, cisternas, hospedarias, bosques, hospitais, canais e marcos de distância.

Na peugada dos peregrinos: rodeado pelos fantasmas dos viajantes que o antecederam, Paul Salopek monta acampamento entre os túmulos nabateus de Madain Salih.

Caminhamos pelos mesmos trilhos, faixas de deserto polidas pela deslocação de incontáveis camelos e pés humanos. Estudiosos de Tombuctu beberam da água destes poços, tal como os mercadores espanhóis em busca de incenso. Assim como os exploradores europeus do século XIX, queimados pelo sol, que deambulavam por Hejaz disfarçados de peregrinos. 
A norte da cidade de Al Wajh, descarregamos os nossos dois camelos junto de um poço ignorado pelo trânsito rápido da auto-estrada. O poço Al Antar tornou-se obsoleto há um século devido aos navios a vapor. Actualmente, é seguramente absurdo para os peregrinos que sobrevoam a zona a bordo dos Boeing 777. Curvo-me sobre a borda do poço. Ar húmido e fresco ergue-se da sua escuridão arrefecendo-me a cara. Consigo ouvir de algum sítio lá muito em baixo a chamada de pássaros assustados. E penso que a Arábia Saudita é como o Oeste norte-americano. É uma paisagem de terríveis ausências.

Se Hejaz ainda inspira romances no mundo não-muçulmano, isto deve-se à sua longa caravana de cronistas estrangeiros.

Se Hejaz ainda inspira romances no mundo não-muçulmano, isto deve-se à sua longa caravana de cronistas estrangeiros. O suíço Johann Ludwig Burckhardt foi um deles. No século XIX, viajou até ao coração religioso do islão, fingindo-se um “desventurado cavalheiro egípcio”, mas nunca regressou a casa: morreu vítima de disenteria e foi sepultado seguindo os rituais muçulmanos, no Cairo. 
Se a lenda estiver correcta, o brilhante e pomposo inglês Richard Francis Burton terá realmente tocado na Caaba, o mais sagrado objecto do islão: o cubo maciço de pedra vulcânica de Meca para onde todos os muçulmanos se devem orientar quando oram. Estes europeus foram testemunhas de um mundo parado no tempo. Descobriram cidades do mar Vermelho, construídas com brilhantes blocos de coral branco, com as portas em arco e persianas pintadas de verde e azul. Passaram por cidades muradas, cujos portões altos se fechavam aos visitantes ao anoitecer. Galoparam em camelos entre oásis fortificados com homens de cabelo comprido, os beduínos, que consideravam admiráveis. Esta Hejaz literária, se na verdade existiu mesmo, desapareceu há muito, soterrada sob os subúrbios de estilo norte--americano e  os centros comerciais. No entanto, fora do velho porto de peregrinos de Al Wajh, tropeçamos acidentalmente no fantasma de um dos mais famosos destes orientalistas.

Em Duba, onde a água é preciosa, um funcionário originário do Bangladesh enche garrafões para venda. A água, posteriormente tratada, provém de poços que podem distar 150 quilómetros.

Os trabalhadores estão a limpar um poço localizado no interior das altas paredes de rocha da fortaleza de Al Zurayb, construída há 400 anos pelos otomanos. Os homens içam explosivos antigos: balas de canhão semelhantes a ananases enferrujados que terão sido para ali atiradas num momento de pânico, provavelmente em Janeiro de 1917. Nessa altura, o exército árabe montado em camelos aproximava-se rapidamente. As tribos de Hejaz tinham-se levantado contra os senhores otomanos aliados dos alemães. O estrangeiro que tinha alimentado a revolta, apesar dos seus escassos 1,66 metros de altura, possuía uma dureza masoquista e gritava em uníssono com os atacantes. Acerca da cavalaria árabe escreveu: “Envergavam túnicas cor de ferrugem, tingidas de hena, por baixo de capas pretas, e usavam espadas. Cada um trazia um escravo acocorado atrás de si, para o ajudar com a espingarda e a adaga durante a luta e para tomar conta do seu camelo e cozinhar para ele durante o caminho.” 

As tribos de Hejaz tinham-se levantado contra os senhores otomanos aliados dos alemães.

Thomas Edward Lawrence, o Lawrence da Arábia, é um dos nossos primeiros heróis pós--modernos. O jovem oficial dos serviços de informação britânicos e medievalista de Oxford desejava, subversivamente, trazer liberdade a um mundo árabe que à época se encontrava sob o corrupto jugo dos turcos otomanos. No entanto, era atormentado por saber que os ocupantes de Hejaz que lutavam a seu lado seriam traídos pelos poderes coloniais europeus que dividiram o Médio Oriente após a Segunda Guerra Mundial.
Lorens al Arab”, digo aos trabalhadores do forte. Aponto para as munições ainda vivas. O nome não significa nada para eles. Lawrence está virtualmente esquecido na Arábia Saudita. Apoiou a dinastia errada após a guerra. Faisal, o moderado príncipe hachemita de Hejaz, perdeu a luta pelo poder a favor das tribos do interior comandadas pelo futuro rei da península, Ibn Saud.

Durante séculos, as casas de pedra e tijolos de lama de Al Ula alojaram peregrinos e comerciantes de especiarias e incenso. Na década de 1970, as autoridades sauditas deslocaram os habitantes para uma cidade nova nas imediações.

“Eram um povo de espasmos, de convulsões, de ideias, a raça dos génios individuais”, escreveu Lawrence sobre os seus companheiros em Hejaz. “O árabe do deserto não conhecia maior alegria do que a alegria de voluntariamente se abster. Encontrava conforto na abnegação, na renúncia, na autoprivação. Salvava a sua alma, talvez, e sem perigo, mas com duro egoísmo.” Isto é o que acontece quando se espreita para um poço em Hejaz: vê-se o nosso próprio reflexo. Lawrence, um asceta do Império Britânico, estava a descrever-se.
Poços de piedade: copos de água plásticos dispostos aos milhares num pátio de pedra em Medina. É o Ramadão, o mês de jejum. O mês mais sagrado do calendário lunar muçulmano. Do lado de fora de Al Masjid al-Nabawi, a mesquita onde está sepultado o profeta Maomé, o segundo lugar mais sagrado no islão, reúnem-se ao pôr do Sol pelo menos sessenta mil fiéis para quebrar o jejum do dia.

Numa habitação de Jeddah, Yasmin Gathani, mãe solteira, ajuda os filhos com os trabalhos de casa. Em público, mesmo numa das mais liberais cidades sauditas, ela enverga uma abaya.

Vejo indianos e africanos. Ouço falar francês. Não sou muçulmano, mas tenho jejuado durante o mês por respeito. À minha frente, um peregrino do Afeganistão ajoelha-se em frente de uma das refeições distribuídas diariamente no local. Dá-me a sua laranja. Eu dou-lhe a minha. Trocamos comida várias vezes, rindo. Através do sistema de som, um imã canta para a multidão em oração. Eles oram. E, sob o céu amarelo do início do crepúsculo, comemos em silêncio.
Estranhos novos poços nas estradas de Hejaz: máquinas a zumbir no deserto.
Máquinas de refrigeração ao ar livre. Dispensam água tão gelada que entorpece a boca. Encontramos centenas destes santuários mecânicos, os sabils: fontes de água pública encomendadas pelos piedosos para se tornarem virtuosos aos olhos de Alá. Um dia, as suas peças enferrujadas, sobressaindo nas dunas movediças, confundirão arqueólogos. Como pode uma sociedade dar-se ao luxo de arrefecer um copo de água numa região tão árida e remota como Hejaz? Parece impossível. Intrigante. Todavia, os sabils onde enchemos os nossos cantis existem por causa de outros poços: os que foram perfurados nos distantes campos de petróleo do Leste da Arábia Saudita.

Uma réplica da Caaba, a “casa sagrada” no centro da Grande Mesquita de Meca, serve de ferramenta pedagógica num centro de artes de Jeddah. Os pais ensinam aos filhos os ritos da peregrinação hajj. Um deles exige que o fiel dê sete voltas à Caaba.

“Trocamos o nosso passado pela riqueza”, lamenta Ibrahim, um engenheiro hidráulico no porto de Al Wajh. “A casa do meu avô feita de blocos de coral e com duzentos anos foi deitada abaixo por um bulldozer. O farol de pedra da cidade que era visto a uma distância de 20 quilómetros do mar foi reduzido a cascalho. Ninguém se preocupa. É tudo antigo.”
Alguns residentes em Hejaz responsabilizam a versão saudita ultraconservadora do islão pelo desaparecimento do seu passado. Em anos recentes, historiadores criticaram a demolição dos antigos bairros de Meca e Medina, incluindo estruturas antigas associadas ao próprio Maomé. Oficialmente, foi feito para fornecer serviços aos milhões de peregrinos que invadem as cidades durante o hajj, mas as autoridades religiosas frequentemente abençoam a destruição de sítios de interesse cultural. O wahhabismo enfatiza que todo o passado anterior ao islão é jahiliyya: um tempo de ignorância. E temem que até a preservação de locais islâmicos possa levar à adoração de objectos e não de Deus.

Fiéis de diferentes estratos sociais rezam num acampamento de luxo no deserto. O modo de vida tradicional dos pastores beduínos está a desaparecer, mas atrai os habitantes nostálgicos das cidades sauditas.

Vertiginosa mudança económica. Modernização. Das tendas para o Twitter e arranha-céus em apenas três gerações. A Europa deve ter sido semelhante durante a revolução industrial. É um milagre que Paris tenha sobrevivido.
Entretanto, nas cidades piscatórias ao longo da costa de Hejaz, os últimos pescadores locais esforçam-se por entoar canções de marinheiro para o meu gravador digital. Canções dos tempos dos dows de madeira. Canções sobre os ventos quentes do mar Vermelho. De beldades à espera nos portos de escala. Muitos destes pescadores alugaram os seus barcos a imigrantes oriundos do Bangladesh. “É importante registar os últimos verdadeiros vestígios das músicas do mar antes de se transformarem em meras cópias das canções originais”, dizem os investigadores da Universidade de Exeter, em Inglaterra.

 

Esta locomotiva transportou em tempos peregrinos que utilizavam o caminho-de-ferro de Hejaz, construído pelos otomanos. Tribos lideradas por Lawrence da Arábia atacaram os comboios de Hejaz durante a Segunda Guerra Mundial.

Caminhamos devagar para norte em direcção à Jordânia. Consumimos um litro de água por dia. Procuramos poços da memória.
Em Jeddah, uma artista homenageia um mundo perdido com uma instalação nas muralhas da cidade antiga que mostra imagens do seu avô sentado com os majlis desaparecidos, um conselho tradicional outrora comum nas casas dos aristocratas de Hejaz. Intitulada “Onde estão os meus majlis?”, a instalação foi misteriosamente removida uma semana depois.
Em Medina, o director de um museu passou sete anos da sua vida a construir um meticuloso diorama com cinco metros quadrados que mostra o coração da cidade com as ruas labirínticas e os limoeiros. Estas características foram destruídas  na década de 1980 para dar lugar a hotéis altos.

O passado é um território cheio de sentimento em todos os países, mas na Arábia Saudita esta visão míope está a mudar.

O passado é um território cheio de sentimento em todos os países, mas na Arábia Saudita esta visão míope está a mudar. Riade gastou setecentos mil euros num museu dedicado ao caminho-de-ferro de Hejaz, a versão romanceada do Expresso do Oriente, cujo destino era Medina. O antigo bairro de Jeddah também tem um projecto em análise para se tornar um sítio Património Mundial reconhecido pela UNESCO.  Já existe aliás um lugar classificado em Hejaz: Madain Salih, uma colossal necrópole do império nabateu. E toda uma povoação de caravanas com cerca de 800 habitações, abandonada e em ruínas há 40 anos, foi comprada pelo governo e será restaurada.
“Esta é a nossa maior experiência”, argumenta Mutlaq Suleiman Almutlaq, arqueólogo da Comissão Saudita para o Turismo e as Antiguidades e curador da antiga cidade caravaneira de Al Ula. “Estamos a olhar mais para o passado, e isso é bom.”  Mutlaq é um homem sincero e amigável. O seu thobe branco esvoaça à minha frente enquanto percorremos a cidade-fantasma murada a sul de Madain Salih. Atravessa arcos quebrados e ruas medievais cobertas. Mostra-me pátios onde durante oito séculos os comerciantes vendiam incenso, lápis-lazúli e seda. Lanternas de querosene fabricadas na Alemanha enferrujam nos pisos das casas vazias.

O lendário explorador árabe Ibn Battuta passou por aqui no século XIV e elogiou a honestidade do povo de Al Ula.

O lendário explorador árabe Ibn Battuta passou por aqui no século XIV e elogiou a honestidade do povo de Al Ula: os peregrinos armazenavam aqui a sua bagagem a caminho de Meca. Almutlaq orgulha-se desse facto. Ele viveu e trabalhou em Al Ula quando era jovem. Os moradores do local foram transferidos, em massa, para apartamentos modernos na década de 1970.
“Lembro-me”, diz a sorrir. E fala de comerciantes que viajavam com fardos de têxteis egípcios. Dos agricultores que regressavam dos campos ao entardecer. Das mulheres que conversavam de janela para janela protegidas pelas gelosias.
Poços gémeos de memória: os olhos de Almutlaq piscam animadamente por detrás dos óculos ao recordar a “arqueologia” da sua  infância.
Somos todos peregrinos em Hejaz. Tornamo--nos vagabundos através dos tempos. Paramos nos poços ou passamos por eles. Pouco importa. Sendo ou não utilizados, estes poços permanecem para além das culturas que os utilizaram. Na base de cada um, são pequenos círculos de água que reflectem o azul do céu e constituem os olhos fixos da memória.

Rabah al-Rhafe segue a tradição beduína. Ao pôr do Sol, este pastor quebra o jejum do Ramadão com pão e leite de cabra. Marido de três mulheres e pai de 20 filhos, viaja como os seus antepassados, movendo-se de um poço para outro e louvando Alá.

Após seis meses de caminhada, despeço-me dos meus guias Ali e Awad. Atravesso a fronteira de Haql que separa a Arábia Saudita da Jordânia. Transporto poucos bens. Um saco ao ombro com os cadernos de apontamentos presos por elásticos. Páginas enlouquecidas com  anotações sobre o calor devastador. Mapas de rotas de peregrinos sujos de tinta. Adivinhações dos “médicos do fogo” beduínos. Direcções para poços remotos.
Chego a uma moderna estância turística. Ninguém me presta atenção. A novidade são as mulheres a conduzir. Vejo casais a passear nas praias envergando sarongs. Paro num minimercado e compro uma garrafa de água filtrada: um pequeno poço de plástico, um dos principais artefactos da cultura globalizada.  Espreito para sul para lá do golfo de Aqaba, em direcção a Hejaz. Um lugar misterioso. Os rebordos dos seus poços antigos ficaram marcados pelas cordas que se transformaram em poeira. Poeira há muito tempo desaparecida. Beberico a minha água. O sabor é absolutamente vulgar. 

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