A honestidade talvez seja a melhor política, mas o logro e a desonestidade fazem parte do ser humano.

Texto Yudhijit Bhattacharjee   Fotografia Dan Winters

 

Polígrafo fotografado no Museu Nacional de História Americana, Instituto Smithsonian.

No Outono de 1989, a Universidade de Princeton acolheu, entre os caloiros daquele ano, o jovem Alexi Santana, cuja história de vida fora considerada extraordinariamente interessante.
Alexi mal frequentara o ensino formal. Passara a adolescência ao ar livre no estado de Utah, onde fora pastor de vacas e ovelhas e lera livros de filosofia. Correndo no deserto de Mojave, treinara para ser corredor de meio-fundo.
O aluno tornou-se rapidamente uma estrela no campus universitário. Obtinha bons resultados académicos em quase todas as disciplinas. O seu feitio reservado e os antecedentes invulgares conferiam-lhe um encanto enigmático. Quando um colega de quarto perguntou a Alexi por que motivo a sua cama parecia estar sempre arrumada na perfeição, ele respondeu que dormia no chão. Parecia perfeitamente lógico que alguém que passara grande parte da vida a dormir ao ar livre não sentisse especial afeição por uma cama.

Parecia perfeitamente lógico que alguém que passara grande parte da vida a dormir ao ar livre não sentisse especial afeição por uma cama.

Na verdade, a história de vida de Alexi Santana era falsa. Cerca de 18 meses depois de se ter matriculado, uma mulher identificou-o como um rapaz que conhecera seis anos antes na escola secundária de Palo Alto, na Califórnia, chamado Jay Huntsman. Esse também não era o seu nome verdadeiro. Na verdade, ele chamava-se James Hogue, um homem de 31 anos que cumpria pena numa prisão em Utah por posse de peças e ferramentas de bicicleta roubadas. Foi detido em Princeton e transportado para a esquadra.
Nos anos seguintes, foi detido sob acusações de furto. Em Novembro, quando foi preso por roubo, tentou usar a identidade de outra pessoa.
A história da humanidade está repleta de mentirosos astutos e experientes como James Hogue. Muitos são criminosos que tecem mentiras para obter recompensas injustas – como o financeiro Bernie Madoff fez durante anos, enganando os investidores e ganhando milhares de milhões de euros. Alguns são políticos que mentem para ganhar poder, ou mantê-lo, como no famoso caso protagonizado por Richard Nixon, ao negar qualquer envolvimento no escândalo de Watergate.

Aprender a mentir é uma etapa natural do desenvolvimento infantil. Kang Lee, psicólogo da Universidade de Toronto, investigou a maneira como as crianças se transformam em mentirosos sofisticados à medida que crescem. Darshan Panesar, assistente de investigação, e Amelia Tong, de 9 anos, demonstram a utilização da tecnologia de espectroscopia cerebral de infravermelho próximo, utilizada por Lee nos seus estudos.

Por vezes, os seres humanos mentem para melhorar a sua imagem – um motivo que serve para explicar a afirmação do presidente Donald Trump, comprovadamente falsa, de que o número de pessoas que assistiu ao seu discurso de tomada de posse foi superior ao que assistira à tomada de posse de Barack Obama. As pessoas mentem para encobrir comportamentos errados, como o nadador Ryan Lochte fez durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, quando alegou ter sido assaltado com uma arma numa estação de serviço – na verdade, ele e os seus companheiros de equipa, embriagados depois de uma festa, foram confrontados por seguranças após causarem danos. O próprio mundo da ciência universitária já revelou uma galeria de mentirosos, como o físico Jan Hendrik Schön, cujas descobertas pretensamente inovadoras na investigação de semicondutores moleculares se revelaram fraudulentas.
Estes mentirosos ganharam notoriedade porque as suas mentiras eram odiosas, descaradas ou nocivas. Mas o logro não faz deles as aberrações que poderíamos imaginar. As mentiras contadas por impostores, charlatães e gabarolas estão apenas no topo de uma pirâmide de inverdades que caracterizam o comportamento humano.

As mentiras contadas por impostores, charlatães e gabarolas estão apenas no topo de uma pirâmide de inverdades que caracterizam o comportamento humano.

Na verdade, a mentira é um acto para o qual a maioria de nós tem muito jeito. Mentimos com facilidade, enganando estranhos, colegas, amigos e familiares. A capacidade de ser desonesto é, para nós, tão fundamental como a necessidade de confiarmos nos outros, o que, por ironia, nos torna péssimos a descobrir mentiras. 
A omnipresença da mentira foi sistematicamente documentada pela primeira vez por Bella DePaulo, especialista em psicossociologia da Universidade da Califórnia. Há duas décadas, Bella e os seus colegas descobriram que os sujeitos mentiam, em média, uma ou duas vezes por dia. Por norma, estas inverdades eram contadas com a intenção de esconder inaptidões ou de proteger os sentimentos de alguém. Algumas mentiras eram desculpas, mas outras pretendiam criar uma falsa imagem da pessoa. 

O falsificador de arte: Mentir para fins de auto-engrandecimento - Mark Landis, que afirma ter sido um fracasso como artista comercial, passou quase três décadas a imitar obras de pintores famosos, incluindo esta, inspirada no estilo de William Matthew Prior. Fazendo-se passar por filantropo ou padre jesuíta, doou-as a museus de arte e divertiu-se ao vê-las tratadas com respeito cerimonioso. “Eu nunca sentira isto antes e quis continuar a senti-lo”, afirma. “Não sinto remorsos por ter praticado este acto. Quando fui descoberto e tive de parar, fiquei muito triste.”

Embora sejam transgressões menores, um estudo posterior realizado pela mesma equipa com uma amostra semelhante concluiu que a maioria das pessoas, em algum momento da vida, conta uma ou mais “mentiras graves”, escondendo um caso amoroso do cônjuge ou prestando declarações falsas numa candidatura à universidade.
O facto de os seres humanos possuírem um talento universal para enganarem os outros não deveria espantar-nos. Os investigadores especulam que, enquanto comportamento, a mentira não apareceu muito depois da linguagem. A capacidade para manipular os outros sem recorrer à força física deveria conferir vantagem na competição por recursos e parceiros sexuais. “Mentir é muito fácil comparado com outras formas de ganhar poder”, comenta Sissela Bok, especialista em ética da Universidade de Harvard e uma das mais proeminentes teorizadoras nesta matéria. “É muito mais fácil uma pessoa mentir para obter dinheiro de alguém do que bater-lhe na cabeça ou roubar um banco.”

Os investigadores especulam que, enquanto comportamento, a mentira não apareceu muito depois da linguagem.

À medida que a mentira se vai tornando reconhecida como característica enraizada no ser humano, os investigadores de ciências sociais e os neurocientistas procuram esclarecimentos sobre a natureza e as origens do comportamento. Como e quando aprendemos a mentir? Quais os processos psicológicos e neurobiológicos subjacentes à desonestidade? Onde se encontra o limite aceitável para a maioria das pessoas? Os investigadores estão a descobrir que temos propensão para acreditar em algumas mentiras, mesmo quando são contrariadas por evidências óbvias. Esta informação sugere que a nossa tendência para enganar os outros e a nossa vulnerabilidade são particularmente graves na era das redes sociais. A nossa capacidade, enquanto sociedade, para distinguir a verdade da mentira corre riscos sem precedentes.
Quando frequentava o terceiro ano, um dos meus colegas de turma trouxe para a escola uma folha com autocolantes de carros, procurando exibir-se. Os autocolantes eram lindos. Eu queria-os tanto que transferi a folha da mochila dele para a minha. Quando os meus colegas voltaram, sentia o coração aos pulos. Em pânico com a possibilidade de ser descoberto, elaborei uma mentira preventiva: disse ao professor que tinham aparecido dois adolescentes numa moto e que tinham entrado na sala de aula, mexido nas mochilas e levado os autocolantes. Como seria de esperar, a mentira foi desmontada com as perguntas mais simples e eu devolvi, com relutância, aquilo que surripiara.

O campeão: Mentir por diversão - O desejo de Jacob Hall de ser um super-herói inspirou uma história que lhe valeu a conquista do Prémio de Melhor Mentiroso do estado da Virgínia Ocidental. “As minhas histórias seriam muito aborrecidas sem logros”, diz este homem que tenciona inventar mentiras “durante o resto da minha vida, se alguém conseguir acreditar nisso”.

Estas mentiras que contei não eram extraordinárias para crianças da minha idade. Tal como aprender a andar e a falar, mentir é uma espécie de marco do desenvolvimento. Embora os pais fiquem frequentemente preocupados com o facto de os filhos mentirem, na opinião de Kang Lee, psicólogo da Universidade de Toronto, a primeira manifestação deste comportamento nas crianças pequenas é uma confirmação de que o seu desenvolvimento cognitivo está a correr bem.
Para estudar a mentira nas crianças, Kang Lee e os seus colegas recorrem a uma experiência simples. Pedem às crianças para identificarem brinquedos escondidos do seu alcance visual com base numa pista sonora. 
Para os primeiros brinquedos, a pista é óbvia – um latido para um cão, um miado para um gato – e as crianças respondem com facilidade. De seguida, o som reproduzido nada tem que ver com o brinquedo. “Tocamos uma música de Beethoven, mas o brinquedo é um carro”, explica Lee. O responsável pela experiência sai da sala sob o pretexto de atender um telefonema e pede à criança para não espreitar o brinquedo. Quando volta, pede a resposta à criança, perguntando-lhe de seguida: “Espreitaste ou não?”

A percentagem de crianças que espreita e mente varia em função da idade.

A maioria das crianças não resiste a espreitar, concluiu a equipa, recorrendo a câmaras ocultas. A percentagem de crianças que espreita e mente varia em função da idade. Entre os transgressores com 2 anos, apenas 30% não dizem a verdade. Nas crianças de 3 anos, 50% mentem. Chegados aos 8 anos, cerca de 80% afirmam não ter espreitado.
As crianças também aperfeiçoam a mentira à medida que crescem. Ao adivinharem o brinquedo que viram secretamente, as crianças de 3 e 4 anos costumam dizer de imediato a resposta certa, sem se aperceberem de que isso revela a transgressão e a mentira. Aos 7 ou 8 anos, as crianças aprendem a encobrir as mentiras, dando deliberadamente uma resposta errada ou tentando que as suas respostas pareçam palpites lógicos.
As crianças de 5 e 6 anos enquadram-se no meio. Num dos estudos, Kang Lee usou o dinossauro Barney como brinquedo. Uma menina de 5 anos que negou ter olhado para o brinquedo, escondido sob um pano, disse a Lee que queria senti-lo antes de adivinhar. “Então pôs a mão debaixo do pano, fechou os olhos e disse: ‘Ah, já sei que é o Barney’”, contou o especialista. “Quando quis saber porquê, ela respondeu: ‘Porque sinto que é roxo’.” 

O impostor: Mentir para obter ganhos pessoais - Frank Abagnale, Jr. é hoje um respeitado consultor de segurança, mas as mentiras descaradas que inventou quando era novo inspiraram o filme “Apanha-me se Puderes”, de 2002. Leonardo DiCaprio interpretou Abagnale, que fugiu de casa aos 16 anos e aprendeu a sobreviver utilizando a sua astúcia, tornando-se falsificador de cheques, charlatão e impostor. “Tinha de ser criativo para sobreviver”, diz. “Estou e vou continuar arrependido para o resto da minha vida.” Frank fez-se passar por piloto, pediatra e advogado com uma licenciatura em direito obtida em Harvard.

O factor responsável por esta crescente sofisticação da mentira é o desenvolvimento da capacidade da criança para compreender as convicções, intenções e conhecimento dos outros. Igualmente essencial para mentir é a função executiva do cérebro: as capacidades necessárias ao planeamento, concentração e autocontrolo. As crianças de 2 anos que mentem na experiência de Lee tiveram melhores resultados nos testes de teoria da mente e função executiva do que aquelas que não mentiram. Mesmo aos 16 anos, os mentirosos competentes obtinham melhores resultados do que os maus mentirosos. Por outro lado, crianças com desordens do espectro autista – com reconhecidos atrasos no desenvolvimento de uma teoria da mente robusta – não são eficazes a mentir.
Numa manhã recente, chamei uma motorista da Uber e fui visitar Dan Ariely, psicólogo da Universidade de Duke e um dos maiores especialistas do mundo em mentiras. O interior do automóvel, embora limpo, emanava um cheiro forte a meias transpiradas, e a motorista, embora cortês, teve dificuldade em encontrar o caminho. Quando finalmente lá chegámos, ela perguntou-me, com um sorriso, se lhe daria cinco estrelas de classificação. “Claro”, respondi. Mais tarde, dei-lhe três estrelas. Mitiguei o meu complexo de culpa dizendo para os meus botões que era melhor não induzir em erro milhares de clientes da Uber.

Mitiguei o meu complexo de culpa dizendo para os meus botões que era melhor não induzir em erro milhares de clientes da Uber.

Dan Ariely ficou fascinado pela desonestidade como tema académico há cerca de 15 anos. Ao folhear uma revista num voo de longa duração, deparou-se com um teste de aptidão mental. Respondeu à primeira pergunta e foi verificar se tinha acertado. Deu por si a olhar de relance para a resposta à pergunta seguinte. Mantendo este comportamento durante todo o teste, obteve uma excelente pontuação! “Concluí que me engara a mim próprio”, disse. “No fundo, queria provar a mim próprio que sou mesmo inteligente.” Esta experiência levou-o a desenvolver um interesse duradouro pelo estudo da mentira.
Numa experiência realizada por Dan e pelos colegas, foi entregue um teste a voluntários com 20 problemas matemáticos simples. Foi-lhes pedido que resolvessem o maior número de problemas possível em cinco minutos, sendo pagos de acordo com o número de respostas certas. Disseram-lhes para depositarem as folhas numa máquina destruidora de papel antes de comunicarem o número de respostas certas. Mas as folhas não são destruídas. Descobriu-se, deste modo, que muitos voluntários mentiam. Afirmavam ter resolvido seis problemas, em média, mas na verdade o número aproximava-se mais dos quatro. Os resultados foram parecidos em indivíduos de culturas diferentes. A maioria das pessoas mente, mas apenas um pouco. 

O agente secreto: Mentir pelo país - Valerie Plame, antiga agente da CIA, trabalhou infiltrada durante duas décadas. O seu disfarce foi descoberto em 2003 e a sua carreira clandestina terminou quando funcionários da administração Bush confidenciaram a sua identidade a um jornalista. Ela e o marido afirmam ter-se tratado de um acto de vingança por ele ter acusado a Casa Branca de invocar informações secretas falsas para justificar a invasão do Iraque. Que lição aprendeu ela nos seus anos como espia? “A maioria das pessoas adora falar sobre si.”

Para Dan Ariely, o factor mais interessante é o motivo pelo qual as pessoas não mentem mais. Mesmo quando o montante de dinheiro oferecido pelas respostas correctas era significativamente reforçado, os voluntários não aumentavam o nível de batota. “Demos oportunidade de pessoas fazerem batota e ganharem imenso dinheiro e os voluntários só mentiam um pouco. Por isso, algo trava a maioria de nós, impedindo-nos de mentir mais”, resume. 
Na sua opinião, queremos considerar-nos honestos porque, de certo modo, interiorizámos a honestidade como valor ensinado pela sociedade. É por isso que, a menos que sejamos sociopatas, a maioria de nós impõe um limite ao nível de mentira que estamos dispostos a atingir. Para a maioria das pessoas, o limite é determinado por normas sociais estabelecidas por consenso não verbalizado, como o facto de ser tacitamente aceitável levar para casa lápis surripiados ao material de escritório no local de trabalho.

O juiz gabava-se de credenciais académicas impressionantes – licenciatura em física e mestrado em psicologia. Nada disto correspondia à verdade. 

A equipa de funcionários de Patrick Couwenberg e os colegas juízes do Supremo Tribunal da Comarca de Los Angeles pensavam que ele era um herói americano. Segundo o que lhes contara, recebera a condecoração Purple Heart no Vietname. Participara em operações secretas com a CIA. O juiz gabava-se de credenciais académicas impressionantes – licenciatura em física e mestrado em psicologia. Nada disto correspondia à verdade. Quando confrontada com a mentira, a defesa de Patrick Couwenberg baseou-se numa condição denominada pseudologia fantastica, a tendência para contar histórias contendo factos entretecidos com fantasia. O argumento não serviu para impedir que o afastassem do cargo em 2001.
Parece não haver consenso entre os psiquiatras sobre a relação entre a saúde mental e a mentira, embora pessoas com determinados distúrbios psiquiátricos pareçam exibir comportamentos de mentira específicos. Os sociopatas – indivíduos diagnosticados com perturbação de personalidade anti-social – tendem a contar mentiras manipuladoras, enquanto os narcisistas podem mentir para melhorar a sua imagem.

Os charlatães: Mentir para entreter - Apollo Robbins e Ava Do, casados e parceiros de negócio, usam as suas mãos leves para divertir e educar. Apollo é um carteirista fabulosamente ágil, talvez mais conhecido por ter esvaziado os bolsos de agentes dos Serviços Secretos de serviço à guarda do presidente. Ava é ilusionista e estudou psicobiologia. “Vemos o engano como a intenção de distorcer a percepção da realidade de uma pessoa. É uma ferramenta imparcial que pode ser usada para o bem ou para o mal, para informar ou desinformar”, afirmam.

Haverá algo singular no cérebro dos indivíduos que mentem mais do que os outros? Em 2005, a psicóloga Yaling Yang e os seus colegas compararam exames cerebrais de imagiologia provenientes de três grupos: 12 adultos com um historial de mentira repetida, 16 que correspondiam aos critérios de perturbação anti-social da personalidade, mas não mentiam frequentemente, e 21 que não eram nem anti-sociais nem tinham por hábito mentir. Os mentirosos tinham pelo menos 20% a mais de fibras nervosas por volume no córtex pré--frontal, sugerindo que os mentirosos frequentes têm mais ligações nos seus cérebros. É possível que este aumento os predisponha a mentir porque fabricam mentiras mais depressa do que os outros ou que seja apenas resultado da mentira repetida.

O ás das cartas: Mentir para obter vantagem estratégica - Acumulando mais de 29 milhões de euros em prémios de torneios, Daniel Negreanu ganhou mais dinheiro do que qualquer outra pessoa na história do póquer. A estrela de nacionalidade canadiana, mudou-se para Las Vegas há 20 anos, viajou pelo mundo como embaixador do jogo e figurou em inúmeros programas televisivos. “Se quiser ganhar no póquer, o logro é absolutamente necessário”, afirma. O problema ocorre quando os jogadores passam tanto tempo a enganar os concorrentes que “isso se infiltra nas suas vidas pessoais”.

Os psicólogos Nobuhito Abe e Joshua Greene completaram exames de ressonância magnética funcional (fMRI) ao cérebro de indivíduos e descobriram que aqueles que tinham comportamentos desonestos mostravam maior activação do núcleo accumbens – uma estrutura no prosencéfalo basal que desempenha um papel essencial nos circuitos de recompensa. “Quanto mais o nosso sistema de recompensa é estimulado pela possibilidade de ganhar dinheiro (mesmo num contexto perfeitamente honesto), mais provável se torna que façamos batota”, explica Joshua Greene. 
Uma mentira pode conduzir a outras. Uma experiência realizada por Tali Sharot, neurocientista do University College de Londres, mostrou como o cérebro se habitua ao stress ou desconforto emocional que ocorre quando mentimos, facilitando o processo da próxima patranha. Nos exames de fMRI dos participantes, a equipa concentrou-se na amígdala, a região envolvida no processamento das emoções. A reacção da amígdala às mentiras torna-se progressivamente mais fraca a cada mentira contada e até quando as mentiras se tornam mais elaboradas. “Talvez os pequenos logros conduzam a logros muito maiores”, afirma.

A reacção da amígdala às mentiras torna-se progressivamente mais fraca a cada mentira contada e até quando as mentiras se tornam mais elaboradas.

Muito do conhecimento que utilizamos para o quotidiano provém de informações transmitidas por terceiros. Sem a nossa confiança implícita na comunicação humana, perderíamos a capacidade para manter relações sociais. “Temos muito a ganhar quando acreditamos e é relativamente pouco grave sermos enganados de vez em quando”, defende Tim Levine, psicólogo da Universidade de Alabama, em Birmingham, que chama a esta ideia a teoria da verdade por omissão. 
O facto de estarmos programados para confiar torna-nos intrinsecamente crédulos. “Se dissermos a alguém ‘sou piloto’, essa pessoa não vai normalmente questionar a fundo essa afirmação. As pessoas não pensam assim”, afirma Frank Abagnale, Jr., consultor de segurança cujos esquemas praticados na juventude, incluindo a falsificação de cheques e a fraudulenta identificação como piloto aéreo, inspiraram o filme “Apanha-me se Puderes”, de 2002. “É por isso que as aldrabices funcionam. Quando o telefone toca e o identificador de proveniência das chamadas indica que a chamada provém da Autoridade Tributária, as pessoas acreditam automaticamente que é das Finanças. Não percebem que alguém pode manipular a proveniência da chamada.”

O embusteiro: Mentir para contar histórias - Alguns dos vídeos e fotografias mais virais da Internet foram encenados por um artista conhecido como Zardulu, que raramente revela as suas invenções. “Como todos os mitos, os meus são criados para gerar uma ideia de encantamento pelo mundo, para contrabalançar a percepção de domínio e compreensão que temos dele”, diz. Zardulu aparece com uma cabeça de carneiro, simbolizando uma viagem à mente inconsciente, enquanto o hierofante, intérprete de mistérios, representa a sombra pessoal.

Robert Feldman, psicólogo da Universidade de Massachusetts, chama a isso a vantagem do mentiroso. “As pessoas não estão à espera de mentiras. Muitas vezes, querem ouvir aquilo que estão a ouvir”, diz. Oferecemos pouca resistência aos logros que nos agradam e reconfortam, sejam falsos louvores ou a promessa de lucros impossivelmente elevados em investimentos. As mentiras contadas por pessoas com dinheiro, estatuto e poder parecem ser mais fáceis de impingir, como ficou demonstrado pelo relato crédulo da comunicação social sobre o alegado assalto de Lochte: uma mentira desvendada pouco depois.
Os investigadores mostraram que somos particularmente propensos a acreditar em mentiras que validem a nossa mundivisão. Memes a afirmar que Obama não nasceu nos EUA, a negar as alterações climáticas, a acusar o governo norte-americano de ter engendrado os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001 e a divulgar outros “factos alternativos” – termo que um assessor de Donald Trump atribuiu às afirmações sobre o número de pessoas que assistiram à tomada de posse presidencial – circulam na Internet e nas redes sociais, devido a esta vulnerabilidade. Desconstruí-los não lhes retira poder porque o ser humano avalia as provas que lhe são apresentadas através de um sistema de crenças e preconceitos preexistentes, afirma George Lakoff, linguista cognitivo da Universidade da Califórnia. “Se depararmos com um facto que não se enquadra com o nosso sistema, não reparamos nele, ignoramo-lo, ridicularizamo-lo ou ficamos intrigados com ele. A outra hipótese é atacá-lo, caso seja ameaçador.”

Os investigadores mostraram que somos particularmente propensos a acreditar em mentiras que validem a nossa mundivisão.

Um estudo recente liderado por Briony Swire--Thompson, doutoranda em psicologia cognitiva na Universidade do Oeste da Austrália, documenta a ineficácia da informação baseada em provas para refutar crenças erradas. Em 2015, Briony propôs a cerca de dois mil adultos norte-americanos, em alternativa, uma das seguintes afirmações: “As vacinas causam autismo” ou “Donald Trump disse que as vacinas causam autismo”. (Trump sugeriu repetidamente uma ligação, apesar da falta de provas científicas que corroborem a tese.)
Não surpreende saber que os participantes que eram apoiantes de Trump mostraram uma crença mais forte nesta informação errada com o nome de Trump a ela associado. Após uma curta explicação (citando um estudo de grande escala) da razão pela qual a ligação entre vacinas e autismo era falsa, foi perguntado aos participantes se continuavam a acreditar nela. Os participantes de todo o espectro político aceitavam agora que as afirmações sobre a ligação eram falsas, mas um teste realizado uma semana mais tarde demonstrou que a crença na informação errada voltara praticamente ao mesmo nível.

Outros estudos mostraram que a utilização de provas para refutar mentiras pode, na verdade, reforçar a crença nessas mentiras.

Outros estudos mostraram que a utilização de provas para refutar mentiras pode, na verdade, reforçar a crença nessas mentiras. “Os seres humanos são propensos a pensar que a informação familiar é verdadeira. Por isso, quando a refutamos, corremos o risco de torná-la mais familiar, tornando, ironicamente, a refutação menos eficaz a longo prazo”, comenta Briony.
Vivi este fenómeno em primeira mão pouco depois de conversar com Briony Swire-Thompson. Quando um amigo me enviou um artigo que classificava os dez partidos políticos mais corruptos do mundo, partilhei-o de imediato com um grupo de WhatsApp com cerca de cem amigos do meu liceu, na Índia. A razão para o meu entusiasmo era o facto de o quarto lugar ser ocupado pelo Partido do Congresso, da Índia, que nas últimas décadas foi implicado em vários escândalos de corrupção. Ri-me porque não sou adepto deste partido.

O efabulador: Mentir para ganho profissional - Jayson Blair é life coach e procura ajudar as pessoas a definir e alcançar os seus objectivos. Antes disso, era um repórter do “New York Times” em rápida ascensão cuja carreira implodiu em 2003 quando se descobriu que inventara e plagiara dezenas de artigos. “O meu mundo deixou de ser aquele em que eu relatava os logros dos outros para passar a ser aquele em que eu sou responsável pelos logros e acabou por me levar a procurar respostas para as razões pelas quais eu e outros mentíamos.”

No entanto, pouco depois de partilhar o artigo, descobri que a lista, que incluía partidos da Rússia, do Paquistão, da China e do Uganda, não se baseara em qualquer critério quantitativo. Fora elaborado por um sítio da Internet denominado BBC Newspoint, que soava a fonte credível. Descobri que não tinha qualquer relação com a British Broadcasting Corporation. Publiquei um pedido de desculpas no grupo, explicando que o artigo mencionava, muito provavelmente, informações falsas.
Isso não impediu os outros de voltarem a partilhar o artigo no grupo várias vezes no dia seguinte. Percebi que a correcção não exercera qualquer efeito. Muitos dos meus amigos, por partilharem a minha antipatia pelo Partido do Congresso indiano, ficaram convencidos de que a lista era verdadeira e, de cada vez que a partilhavam, estavam involuntariamente, ou talvez não, a contribuir para a sua legitimidade. Seria inútil contradizê-los com factos.
Qual será, então, a melhor maneira de impedir a propagação de inverdades, em grande escala, nas nossas vidas? A resposta não é clara. A tecnologia abriu novos terrenos ao logro, acrescentando uma pitada do século XXI ao velho conflito entre as nossas facetas mentirosas e crédulas. 

Ajustando a verdade - “A verdade surge naturalmente, mas mentir exige esforço e uma mente acutilante e flexível”, diz o psicólogo Bruno Verschuere. A mentira faz parte do processo de desenvolvimento, tal como andar e falar. As crianças aprendem a mentir entre os 2 e os 5 anos e mentem mais quando estão a pôr à prova a sua independência.

Frequência da mantira por idades num período de 24 horas: 34% uma a cinco mentiras; 10% percentagem de quem conta mais do que cinco mentiras num dia. Gráficos Ryan Morris; Shelley Sperry. Fontes: Timothy R. Levine e outros, Journal of Intercultural Communication Research, 2016; Evelyne Debey e outros, Acta Psychologica, 2015; Kim Serota, Universidade de  Oakland. 

MENTIRAS CÉLEBRES

Texto Claudia Kalb   Ilustração Tim McDonagh

Inverdades presidenciais 
Watergate definiu um padrão de mentira. O desmentido de Nixon tornou-se icónico. 

Na manhã de 17 de Junho de 1972, cinco homens foram detidos depois de invadirem a sede do Comissão Nacional do Partido Democrático, no edifício Watergate. Bob Woodward e Carl Bernstein, do “Washington Post”, entre outros, perseguiram a história, expondo escutas telefónicas, documentos secretos e subornos. O presidente Richard Nixon negou o envolvimento no escândalo numa conferência de imprensa transmitida pela televisão. Disse então: “Não sou um bandido.” A mentira da Casa Branca fracassou. Confrontado com a impugnação quase certa, Nixon demitiu-se no dia 9 de Agosto de 1974, durante o seu segundo mandato.

Outras mentiras famosas

Donald Trump: “Ganhei o voto popular, se descontarem os milhões de pessoas que votaram ilegalmente.”
Trump venceu no Colégio Eleitoral, mas perdeu no voto popular. Vários dos seus tweets eram comprovadamente falsos. Não há provas de fraude eleitoral significativa.

Bill Clinton: “Não tive relações sexuais com aquela mulher.”
A negação inicial de Clinton no início de 1998 foi subsequentemente provada como falsa após a descoberta do seu DNA numa mancha no vestido da estagiária Monica Lewinsky.

Escândalos desportivos
Os White Sox chocaram o país ao perderem de propósito a liga de basebol. 

Há quase um século, alguns jogadores da equipa White Sox, de Chicago, aceitaram um suborno para perderem deliberadamente o campeonato de 1919, face aos Cincinnati Reds. As suspeitas surgiram no primeiro jogo, após um arremesso invulgarmente desajeitado dos White Sox – então, os candidatos mais fortes à vitória. “Não sei por que o fiz”, disse o jogador Eddie Cicotte ao testemunhar em tribunal. “Devia estar maluco.” Ele e sete outros jogadores, incluindo “Shoeless” Joe Jackson, foram pronunciados por nove acusações de conspiração, mas absolvidos pelo júri. Foram proibidos de competir para o resto da vida.

Outras mentiras famosas

Lance Armstrong: “Ando a dizer isto há mais de sete anos. 
"Nunca usei doping. Como fizera tantas vezes antes, o vencedor de sete Voltas à França mentiu a Larry King, na CNN, em 2005. Despojado dos seus títulos, admitiu a batota em 2013.

Rosie Ruiz: “Eu corri naquela corrida. A sério que corri.”
Coroada vencedora feminina da maratona de Boston de 1980 apesar de quase não se notar a sua transpiração, Rosie negou qualquer batota. O seu título foi revogado quando surgiram provas de que ela não completara todo o percurso.

Roubo de identidade
Muitas pessoas afirmaram ser a grã-duquesa da Rússia, mas eram fraudes.

Em 1918, revolucionários bolcheviques executaram o czar russo Nicolau II, a imperatriz e os seus cinco filhos. Mas teria Anastácia, a filha mais nova, escapado? Vários impostores exploraram essa esperança. A mais famosa foi Anna Anderson, sósia de Anastácia que interpôs uma acção judicial mal-sucedida em 1938 para tentar provar a sua identidade e reclamar a herança. Anna teve defensores e detractores e morreu em 1984. Um teste póstumo de DNA concluiu não existir qualquer parentesco entre ela e os Romanov e, aparentemente, confirmou tratar-se de uma operária polaca chamada Franziska Schanzkowska.

Outras mentiras famosas

Joan Lowell: “Qualquer pateta pode ser rigoroso e aborrecido.”
Joan ficou famosa por ter inventado o seu livro de memórias, campeão de vendas em 1929. Intitulava-se “The Cradle of the Deep” e descrevia aventuras de infância passadas a bordo de uma escuna com o seu pai, capitão de alto-mar.

Han van Meegeren: “Deu trabalho.”
Este artista holandês de talento mediano ganhou milhões com as suas falsificações de Vermeer, que cozeu num forno para fazer as pinturas novas aparentarem séculos de idade.

 

Defraudar por dinheiro
Um vigarista famoso deu nome a um esquema fraudulento que ainda perdura.

Em 1919, o imigrante italiano Charles Ponzi concebeu um esquema em pirâmide com cupões de resposta internacionais. Ponzi, que chegou a ganhar 250 mil dólares por dia no auge do seu ardil (cerca de 2,7 milhões de euros a preços actuais), enganou os investidores, prometendo-lhes enormes lucros. O esquema de Ponzi implicava pagar a um investidor com o dinheiro dos outros e foi desmontado judicialmente em Agosto de 1920. Em 2008, o charlatão dos tempos modernos Bernie Madoff foi detido depois de defraudar investidores, incluindo Steven Spielberg, Zsa Zsa Gabor ou Elie Wiesel.

Outras mentiras famosas

Cassie  Chadwick: “Oh, deixem-me ir. Eu não sou culpada. Não sou culpada, a sério. Deixem-me ir!”
Chadwick manteve a sua inocência em 1905, depois de defraudar bancos em milhões de euros, fazendo-se passar pela filha de Andrew Carnegie.

James W. Johnston: “Fumar cigarros não é mais ‘viciante’ do que café, chá ou Twinkies.”
O testemunho escrito do director-geral R. J. Reynolds para uma audiência do Congresso negou o que a indústria do tabaco sabia há décadas: a nicotina é viciante. 

Partidas para divertimento
O artista P. T. Barnum explorava o desejo das pessoas de serem surpreendidas.

No seu primeiro espectáculo, em 1835, o artista Phineas Taylor Barnum apregoou Joice Heth como a ama de 161 anos de George Washington. Multidões vieram ver “a maior curiosidade natural e nacional do mundo”. P.T. lucrou com a sede de entretenimento do mundo divulgando mentiras e outras fantasias através dos jornais. A sua fabulação foi exposta após a morte da senhora, quando a autópsia declarou que ela não tinha mais de 80 anos. O jeito de P.T. Barnum para criar doenças falsas culminou quando, passando mal de saúde, conseguiu a publicação do seu próprio obituário para poder lê-lo antes de morrer. 

Outras mentiras famosas

Mito urbano: “O Paul morreu.”
O boato sobre a morte de Paul McCartney num desastre de viação em 1966 lançou os fãs dos Beatles em busca de pistas nos álbuns da banda.

Orson Welles: “Não podia imaginar que uma invasão de marcianos fosse tão prontamente aceite.”
Em 30 de Outubro de 1938, a CBS Radio emitiu “A Guerra dos Mundos”, um relato inventado sobre a aterragem de extraterrestres. Alguns ouvintes entraram em pânico. Welles, o narrador, ficou espantado por tantos terem acreditado nele.

Falsidades científicas
A história do homem de Piltdown, antepassado humano habilmente inventado.

Em 1912, o paleontólogo amador Charles Dawson e o seu colaborador Arthur Smith Woodward anunciaram a descoberta de fragmentos de crânio de aspecto humano e um maxilar aparentemente simiesco numa mina nos arredores da vila inglesa de Piltdown. Poucos anos antes, Dawson escrevera a Smith Woodward, dizendo que “estava à espera da grande ‘descoberta’”. Porém, o homem de Piltdown, inicialmente aclamado como o elo perdido entre símios e seres humanos, era uma fraude. Os ossos foram tingidos de modo a parecerem fósseis antigos e os dentes, de um orangotango, foram limados para parecerem humanos.

Outras mentiras famosas

Hwang Woo-Suk: “Criei uma ilusão e fi-la parecer real. Estava embriagado dentro da bolha por mim criada.”
Em 2004, o cientista anunciou a criação de uma linha de células estaminais a partir do primeiro embrião humano clonado do mundo. Os dados eram inventados.

Marmaduke Wetherell: “Vou dar-lhes o monstro que eles querem.”
O realizador britânico e o seu enteado construíram um monstro do lago Ness com um submarino artesanal. A cabeça emergiu numa famosa fotografia falsa de 1934.

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar