Liderando homens em quatro continentes e três oceanos, Dom Manuel I abraçou a corrente europeia do Renascimento e adaptou-a à realidade nacional. Crónica de um reinado inesquecível. 

Texto João Paulo Oliveira e Costa

 

Esfera armilar - Emblema pessoal do rei que se tornou o símbolo do poder marítimo dos Portugueses. Mosteiro dos Jerónimos.

O Renascimento foi um movimento cultural que tocou toda a Europa ligada à Igreja latina ao longo dos séculos XV e XVI. Portugal cedo acompanhou este fascínio pela civilização greco-romana associado às evoluções tecnológicas (introdução das armas de fogo e do relógio, descoberta da perspectiva na pintura, invenção da imprensa de caracteres móveis) e ao desenvolvimento do humanismo que abriu caminho ao laicismo. 

Foi o primeiro soberano europeu que não comandou a sua hoste num campo de batalha e foi o primeiro rei do mundo a ter homens às suas ordens em quatro continentes e três oceanos.

Dom Manuel I nasceu e cresceu neste ambiente de mudança acelerada da sua civilização, em que tradições centenárias eram desafiadas pelas novidades. Tendo subido ao trono de Portugal, inesperadamente, a 25 de Outubro de 1495, o Venturoso tornou-se um dos protagonistas do Renascimento. Monarca apegado à velha ideia de Cruzada, foi, todavia, o primeiro soberano europeu que não comandou a sua hoste num campo de batalha e foi o primeiro rei do mundo a ter homens às suas ordens em quatro continentes e três oceanos. Uma certa tradição literária e historiográfica portuguesa construiu o mito de que Portugal evoluiu ao longo dos séculos virado para o mar e de costas voltadas para a Europa, o que lhe retirava protagonismo nos grandes movimentos europeus da História. É certo que a coroa lusa assumiu uma política de neutralidade no contexto europeu que foi particularmente bem-sucedida nos séculos XV e XVI, mas isso nunca significou um alheamento em relação ao que se passava no seio do Velho Continente. 

O rinoceronte de Dürer - Em 1515, o alemão Albrecht Dürer produziu esta gravura de um rinoceronte-indiano que chegara a Lisboa nesse ano. Dom Manuel I ofereceu o animal ao papa Leão X, mas o rinoceronte morreu afogado durante a viagem. Terá sido o primeiro da sua espécie a chegar à Europa. Museu Britânico. 

Dom Manuel I é precisamente um bom exemplo desta realidade – o rei que dirigiu a afirmação do império ultramarino português a uma escala quase planetária foi, apesar disso, um governante que dedicou a maior parte das suas energias a modernizar o seu próprio reino e que acompanhou sempre com muita atenção a conjuntura política europeia, e em especial o turbilhão político por que passava então Castela. Apesar dos naturais particularismos “portugueses” que detectamos no modo de governar de Dom Manuel I, o estudo da sua biografia mostra-nos que o Venturoso foi, sem dúvida, um príncipe do Renascimento.

Biblioteca Nacional

A edificação do Paço da Ribeira, em Lisboa (logo mimetizada pelo seu sobrinho, o duque de Bragança, em Vila Viçosa) é um dos melhores sinais da ruptura com hábitos antigos, na medida em que representa o momento em que o monarca deixa de se colocar sob a protecção de um castelo altaneiro para passar a residir no meio do casario. As profundas reformas urbanísticas realizadas em várias cidades do reino, mas especialmente em Lisboa, são um testemunho do espírito modernizador do monarca, que deu forma ao Terreiro do Paço construindo uma galeria que ligava o palácio ao rio, seguindo um modelo já experimentado, por exemplo, em Veneza, e que também era adoptado pouco depois pela monarquia francesa, como podemos apreciar hoje em Blois ou em Fontainebleau. 

O manuelino

Um estilo como nunca se vira - Iniciado em 1501, o Mosteiro dos Jerónimos foi a principal obra de regime de Dom Manuel, que para aqui canalizou fundos importantes provenientes do comércio com África  e com o Oriente. No tecto e no requinte das esculturas, ficou expresso o estilo manuelino. Fotografia Carlos Duarte.

Dom Manuel I legou-nos um património extraordinário devido à construção intensa que promoveu por todo o reino e territórios ultramarinos. Essas iniciativas levaram mesmo a que o seu nome fosse associado mais tarde a um estilo de matriz tardo-gótica, o manuelino, com elementos específicos, como são o seu emblema pessoal, a esfera armilar, e a Cruz da Ordem de Cristo, de que era governador, bem como uma decoração profusa na pedra e a construção de igrejas-salão, como é o caso do Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, ou da matriz de Freixo de Espada à Cinta, ou ainda da Igreja de Santa Maria Madalena em Olivença, entre outras construções. 

Divinizado em vida - Atribuído por alguns autores ao pintor flamengo Colijn de Coter, este Fons Vitae representa Cristo crucificado e, no plano terreno, a família real. Dom Manuel figura ao centro. Igreja da Misericórdia do Porto, cerca de 1517. Imagem Santa Casa da Misericórdia do Porto – MMIPO.

Estes edifícios distinguiam-se pelo facto de o tecto se posicionar todo à mesma altura, mesmo que fosse suportado por filas de colunas como as igrejas anteriores de estilo românico ou gótico, que estavam estruturadas em naves de alturas diferenciadas. Tratava-se de um modelo que se difundia então pela Europa renascentista, e particularmente em Itália, que também foi então adoptado pela monarquia portuguesa.

Crónica da descoberta

O atlas de Lopo Homem - Também designado por Atlas Miller (uma referência ao bibliotecário que o adquiriu para a Biblioteca Nacional francesa no final do século XIX), este atlas é uma das mais artísticas representações da América do Sul no século XVI. Ilustrado por vários artistas, representa, com bastante realismo, o recorte da costa brasileira. Imagem Biblioteca Nacional de França.

Deve-se a Pero Vaz de Caminha o relato pormenorizado da descoberta do Brasil.  Este fidalgo nascido no Porto – um dos  primeiros repórteres da história de Portugal – redigiu uma crónica pormenorizada dos dez dias que decorreram entre o avistamento da costa brasileira e a decisão de Pedro Álvares Cabral de retomar a rota original. A missiva foi dirigida a Dom Manuel, relatando as circunstâncias e observações realizadas em solo brasileiro. O rei usou informações de Caminha numa carta dirigida aos reis de Castela, mas o documento de Pero Vaz de Caminha só foi publicamente divulgado no século XIX pelo padre Manuel Aires de Casal.  Nesta semana e meia de 1500, foram produzidos outros dois relatos – um pelo piloto de uma embarcação e outro pelo mestre João Faras. Pero Vaz de Caminha faleceu em Dezembro de 1500, em Calecute.

O desejado Mar Vermelho - Afonso de Albuquerque entrou no mar Vermelho na segunda década do século XVI. As armadas que depois patrulharam a zona de entrada deste mar foram bem sucedidas no corte desta importante via de acesso comercial das mercadorias ao Mediterrâneo. Em cima, a cidade de Adem, uma das poucas conquistas que Albuquerque não concretizou. Civitates orbis terrarum, Colónia, 1572. Imagem Universidade Hebraica de Jerusalém.

Descubra mais sobre o reinado de D. Manuel e outras figuras do Renascimento na Edição Especial que lhe dedicamos este mês.

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