Nas Filipinas, grassa uma violenta guerra de droga. Os rituais da morte são uma catarse do quotidiano. 

Texto Aurora Amendoal   Fotografia Adam Dean

 

Investigadores criminais examinam um cadáver naquilo que aparenta ser uma execução relacionada com droga. A vítima, Angelito Luciano, de 41 anos, era um voluntário local que ajudava a polícia no combate contra o tráfico.

Mal viu o cadáver deitado num passeio no noticiário da tarde num dia de Novembro, Rick Medina soube imediatamente que era o seu filho de 23 anos, Ericardo. A vítima – largada junto de uma avenida sossegada de Manila, capital das Filipinas – poderia ser qualquer pessoa. Tinha as costas voltadas para as câmaras de televisão, mas um pai sabe. 

Um cartaz de cartão pousado à esquerda do corpo de Ericardo rotulava-o como vendedor de droga.

Na manhã seguinte, a sua filha Jhoy, de 26 anos, deslocou-se à morgue. Oito cadáveres jaziam no chão, alinhados. Um cartaz de cartão pousado à esquerda do corpo de Ericardo rotulava-o como vendedor de droga. Segundo o pai, Ericardo nunca tocara em drogas; Jhoy confidencia que ele as consumia ocasionalmente. Seja como for, os assassinos resolveram executá-lo sumariamente, dispensando os procedimentos judiciais.
A triste situação da família Medina tem-se repetido milhares de vezes nas Filipinas ao longo dos últimos meses, desde que Rodrigo Duterte se aproveitou de uma vaga de frustração populista para alcançar a vitória nas eleições presidenciais de Maio de 2016. Prometeu então, entre outras coisas, matar os vendedores de droga e travar a criminalidade. De acordo com os dados policiais, nos primeiros seis meses do mandato de Duterte, pelo menos duas mil pessoas foram abatidas pela polícia e mais quatro mil por agressores não identificados, talvez milícias civis. 

Jade Valenzuela procura consolo num boneco de peluche, enquanto vela o caixão de Arman Rejano, de 28 anos. Nos velórios filipinos, é costume nunca deixar o falecido sozinho e, por isso, há sempre alguém por perto. 

À medida que o número de cadáveres cresce, os rituais de morte vão-se transformando numa componente cada vez mais comum do quotidiano nas Filipinas. Os rituais destinam-se a consolar a família e a aprofundar os laços comunitários, mas também acabam por cumprir um objectivo diferente: compensam a ausência de justiça, numa época em que muitos consideram que os assassínios são cometidos com impunidade escandalosa. Aqui, os rituais de morte ultrapassam em número as cerimónias de comemoração de nascimentos e casamentos, segundo o antropólogo Nestor Castro da Universidade das Filipinas. 

Uma mulher consulta o telemóvel enquanto se senta com o cão no Cemitério Municipal de Barangka. Antes de os mortos serem enterrados, as famílias celebram rituais para proteger os vivos (em cima). Uma menina (em baixo) é passada sobre o caixão de Alex Hongco, acreditando-se que assim ficará protegida e não será assombrada. Alex Hongco, de 31 anos, foi assassinado com outras cinco pessoas, deixando mulher e seis filhos. 

 

Durante o velório que dura 7 a 10 dias, o corpo do falecido nunca é deixado sozinho. São depositados pintainhos e comida sobre o caixão. As aves bicam os alimentos, de forma a espicaçarem simbolicamente a consciência do assassino. Quebra-se uma panela de barro para travar o ciclo de morte e impedir mais mortes no futuro. Aconchegam-se no interior do caixão objectos pessoais para a vida no Além. Quando o caixão sai de casa, fazem-no girar sobre si três vezes, deitando-se moedas ao longo do trilho percorrido para custear as viagens para o outro mundo. 
Os familiares poderão também esperar uma paramdam, uma visita do espírito do falecido. 
Na noite antes do enterro, Ericardo fez uma visita à irmã em sonhos, contou Jhoy. “Estava a sorrir”, disse ela. Jhoy sentiu-se reconfortada por não o ver zangado, por o seu espírito não andar já por este mundo, buscando vingança. “Era mesmo ele”, disse. “Teve sempre tão bom feitio.”

Sobre o rebordo do caixão de Francis Mañosca, de 5 anos, a família poisou alimentos para os pintainhos debicarem, um costume destinado a espicaçar a consciência do assassino (em cima). O rapaz e o pai, Domingo Mañosca, foram abatidos a tiro em casa.  Um carro funerário (em baixo) transporta o caixão de Alex Hongco até ao cemitério, enquanto alguns dos seus familiares seguem atrás a pé.

Mesmo assim, há ainda outro sonho pelo qual Jhoy anseia. “Quero sonhar com a noite em que foi morto”, afirmou. “Quero esfaquear a pessoa que o apunhalou. Assim conseguirei finalmente defendê-lo.” Um sonho de vingança talvez seja o acto mais parecido com justiça que Jhoy Medina e outras pessoas poderão desejar. Poucos assassinos têm sido capturados. 

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