O fabuloso destino de Iker, o arqueiro

De tez escura e traços negróides, possivelmente núbio, Iker, “o excelente”, deve ter combatido nas fileiras do governador de Tebas que foi coroado rei do Alto e Baixo Egipto depois de vencer a guerra civil contra o Norte. Foi sepultado há quatro mil anos com os seus bastões de comando, arcos e flechas em Dra Abu el-Naga, na orla ocidental de Lucsor. Recentemente, arqueólogos espanhóis encontraram a sua sepultura intacta, o que nos permite perscrutar uma época pouco conhecida da história do Egipto. 

Texto José Manuel Galán   Fotografia José Latova/José Miguel Parra

 

Arqueiros núbios utilizados como mercenários no exército de Mentuhotep II durante a guerra contra o Norte. Após o conflito, este foi coroado rei do Alto e Baixo Egipto. A maqueta, de peças de madeira, fazia parte do espólio funerário de um homem chamado Meseheti, enterrado em Assiut em meados da XI dinastia. Os seus arcos e flechas são iguais aos de Iker, que poderia perfeitamente ser membro desta milícia. Fotografia Araldo de Luca.

Tebas, capital do Alto Egipto, cerca do ano 1470 a.C. Djehuti, supervisor do tesouro e dos artesãos no reinado de Hatchepsut, desejoso de construir para si uma “morada para a eternidade” que despertasse a atenção, ordenou a ampliação da fachada talhada na rocha da colina de Dra Abu el-Naga com blocos de pedra calcária até ultrapassar os cinco metros de altura. Além disso, aumentou o tamanho do pátio de entrada, alargando-o até aos 34 metros de comprimento.

O nome Iker, na extremidade esquerda da inscrição que figura nos pés do sarcófago. Fotografia José Latova.

Para esboçarem um pátio tão amplo, os trabalhadores foram tirando da frente da fachada as lascas de pedra resultantes da rocha picada para construir o interior do túmulo-capela, com o propósito de nivelar a inclinação natural da encosta e desse modo obter uma maior superfície horizontal. No processo, de maneira consciente ou inconscientemente, taparam sepulturas anteriores, cinco séculos mais antigas, datadas de cerca de 2000 a.C., que assim ficaram ocultas e protegidas até aos nossos dias. 

O rais Ali Faruk e os seus ajudantes retiram com todo o cuidado o caixão de Iker da sepultura. Fotografia José Manuel Galán.

No dia 14 de Fevereiro de 2007, à distância de 22 metros atrás da fachada, descobrimos um caixão cuja base assentava sobre a rocha-mãe, apenas um metro abaixo do nível do “piso falso” do pátio de Djehuti. Tinha sido simplesmente tapado com terra e, por não dispor de qualquer tipo de protecção, as sucessivas infiltrações de água acumularam grande quantidade de barro no interior do sarcófago. A sua proprietária, a quem chamámos Valentina, tinha sido uma mulher com mais de 50 anos cujo único adorno era um leve colar de contas de faiança. O seu tesouro funerário resumia-se a duas pequenas vasilhas de barro.

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