Catedral de Florença: histórias, curiosidades e peripécias da sua construção

Brunelleschi projectou a sua obra como duas cúpulas, uma dentro da outra. Embora não possuam excepcional mestria pictórica, as cenas pintadas por Vasari e Zuccaro na cúpula interior figuram entre as pinturas murais de maior dimensão de todo o mundo. 

 Mais tarde, estudou óptica e realizou intermináveis experiências com rodas, engrenagens, pesos e peças em movimento, com tal empenho que conseguiu fabricar uma série de engenhosos relógios, entre os quais um dos primeiros despertadores da história. Aplicando os seus conhecimentos teóricos e mecânicos à observação do mundo natural, Brunelleschi conseguiu deduzir sem ajudas as regras da perspectiva linear. 
Quando se apresentou a concurso, acabara de regressar de Roma, onde passara alguns anos a medir e a desenhar os monumentos antigos, anotando em escrita cifrada os seus segredos arquitectónicos. Na verdade, a vida de Brunelleschi parece ter sido uma longa aprendizagem encaminhada para construir uma cúpula de beleza ímpar, tão poderosa e venerável como Florença desejava. 

Para alcançar a varanda do miradouro localizado na base da lanterna que encima a cúpula, é preciso subir os 463 degraus que formam a íngreme escadaria: uma experiência memorável para quem consegue concretizá-la.

 No ano seguinte, os responsáveis pela catedral reuniram-se várias vezes com Brunelleschi e extraíram-lhe mais pormenores do seu projecto. Começaram a vislumbrar então que se tratava de uma ideia brilhante e também arriscada. A sua cúpula seria composta por duas cúpulas concêntricas: uma interna, visível a partir do interior da catedral, que seria alojada dentro de outra, externa, mais larga e mais alta. Para contrabalançar o “esforço tangencial” – a pressão de dentro para fora criada pelo peso de uma estrutura de grande dimensão, susceptível de abrir rachas, ou fazê-la derrocar – o projectista propunha-se reforçar as paredes com anéis de pedra, ferro e madeira, semelhantes aos arcos de um tonel.

A sua cúpula seria composta por duas cúpulas concêntricas: uma interna, visível a partir do interior da catedral, que seria alojada dentro de outra, externa, mais larga e mais alta.

Tencionava construir em pedra os primeiros 17 metros e prosseguir com materiais mais ligeiros, talvez spugna ou tijolo. Garantiu igualmente às autoridades que podia trabalhar sem andaimes. Os responsáveis pela construção agradeceram a poupança de madeira e mão-de-obra que isso implicava, pelo menos nos primeiros vinte metros. Depois, tudo dependeria da evolução das obras, “uma vez que, em construção, só a experiência prática pode ditar o rumo que há-de ser tomado”.
Em 1420, as autoridades decidiram nomear Filippo Brunelleschi provveditore, ou director, do projecto da cúpula. Apesar da nomeação, os mercadores e banqueiros confiavam na concorrência como mecanismo de garantia da qualidade e nomearam como director-adjunto o ourives Lorenzo Ghiberti, colega de Brunelleschi. Os dois homens eram rivais desde 1401, ano em que ambos tinham competido por outro ilustre encargo: a concepção das portas de bronze do Baptistério de Florença. Ghiberti ganhara nessa ocasião. Muito mais tarde, Miguel Ângelo diria que as portas do Baptistério eram as “portas do Paraíso”. Mas já naquela época Ghiberti era o artista mais famoso e com melhores contactos políticos de Florença. Assim sendo, Brunelleschi, cujo projecto para a cúpula fora aceite sem reparos, viu--se obrigado a colaborar com o seu incómodo e famoso rival. 

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