Akhenaton, o faraó que revolucionou o Egipto

O pai de Tutankhamon revolucionou a religião, a arte  e a política do Antigo Egipto. Depois, o seu legado foi sepultado por uma rebelião. Akhenaton constitui, ainda hoje, um símbolo de mudança.

Texto Peter Hessler   Fotografia Rena Effendi

 

No Novo Museu de Berlim, o busto de Akhenaton exibe cicatrizes de maleitas sofridas em tempos antigos e contemporâneos. Quebrado pelos sucessores do faraó no século XIV a.C., foi igualmente danificado aquando da sua deslocação na Segunda Guerra Mundial.

 Por vezes, o comentário mais poderoso sobre um rei é produzido por aqueles que permanecem em silêncio.
Certa manhã, em Amarna, no Alto Egipto, um conjunto de ossos delicados foi disposto sobre uma mesa de madeira. “Aqui está a clavícula e o braço, as costelas e parte inferior das pernas”, explicou a arqueóloga norte-americana Ashley Shidner. “Tinha entre 1 ano e meio e 2 anos.”
O esqueleto era de uma criança que viveu em Amarna há mais de 3.300 anos, quando este povoado era a capital do Egipto. A cidade foi fundada por Akhenaton, um faraó que, juntamente com a mulher, Nefertiti, e o filho, Tutankhamon, têm arrebatado a imaginação contemporânea. Este esqueleto anónimo provém de uma sepultura não identificada. Os ossos demonstram evidências de subnutrição, um problema que Ashley Shidner e outros já observaram nos restos mortais de dezenas de crianças de Amarna.
“O atraso no desenvolvimento começa perto dos 7 meses e meio”, explicou a especialista. “É quando se inicia a transição do leite materno para os alimentos sólidos.” Em Amarna, esta transição parece ter sido adiada em muitas crianças. “Possivelmente, a mãe ponderou se existiria alimento suficiente.”

Os sucessores de Akhenaton foram, na sua maioria, críticos violentos do seu reinado.

Até há pouco tempo, os súbditos de Akhenaton pareciam ser os únicos seres humanos que não se tinham pronunciado sobre o seu legado. Muitos têm falado sobre o faraó que governou de 1353 a.C. a 1336 a.C. e tentou transformar a religião, a arte e a governação do Egipto. Os sucessores de Akhenaton foram, na sua maioria, críticos violentos do seu reinado. Até Tutankhamon promulgou um decreto criticando as condições de vida do tempo do seu pai: “A terra estava em agonia; os deuses tinham abandonado a região.” Na dinastia seguinte, Akhenaton foi referido como “o criminoso” e “o rebelde” e os faraós que lhe sucederam destruíram as suas estátuas e iconografia, tentando apagá-lo por completo da história.
As opiniões mudaram para o extremo oposto na época contemporânea, a partir do momento em que os arqueólogos e os historiadores redescobriram Akhenaton. Em 1905, o egiptólogo James Henry Breasted descreveu o rei como “o primeiro indivíduo da história da humanidade”. Para ele e muitos colegas, Akhenaton foi um revolucionário cujas ideias, sobretudo o conceito de monoteísmo, pareciam muito avançadas para a sua época. 
Segundo o especialista Dominic Montserrat, é frequente manusearmos provas dispersas de tempos antigos e organizarmo-las em narrativas que produzam sentido no nosso mundo. Fazemo-lo, escreveu, “para que o passado possa reflectir o presente, como um espelho”.

Um vendedor do Cairo vende máscaras de Abdel Fattah el-Sisi durante as eleições presidenciais de 2014. Após a deposição do seu antecessor, o general foi eleito com 97% dos votos. Quando tomou posse, anunciou a construção de uma nova capital no deserto a leste do Cairo – um projecto de 276 mil milhões de euros, reminiscente da capital desértica de Akhenaton, em Amarna. “Era assim naquela altura e é assim agora”, diz a arqueóloga Anna Stevens. “Todos apoiam Sisi porque ele é um homem forte.”

 Esse espelho contemporâneo de Akhenaton reflectiu quase todas as identidades imagináveis. O rei já foi apresentado como protocristão, ambientalista, defensor da paz, homossexual orgulhosamente assumido e ditador totalitário. A sua imagem foi recebida com igual entusiasmo pelos nazis e pelo movimento africanista. Thomas Mann, Naguib Mahfouz e Frida Kahlo incorporaram o faraó na sua arte. Quando Philip Glass escreveu três óperas sobre pensadores visionários, a sua trindade foi formada por Albert Einstein, Mahatma Gandhi e Akhenaton. Sigmund Freud desmaiou durante uma discussão acesa com o psiquiatra suíço Carl Jung sobre a possibilidade de o rei egípcio ter sido afectado por um amor excessivo da sua mãe. O diagnóstico de Freud: Akhenaton tinha personalidade edipiana, quase mil anos antes de Édipo. 
Os arqueólogos sempre tentaram resistir a estas interpretações, mas faltavam peças essenciais. Muitos estudos sobre Amarna concentravam-se na cultura da elite: escultura e arquitectura régias e inscrições dos túmulos de altos funcionários. Durante anos, os académicos esperaram pela oportunidade de estudar as sepulturas do povo, reconhecendo que a breve existência de Amarna – 17 anos – transformava a sua necrópole numa rara representação do quotidiano. Foi preciso esperar até aos primeiros anos do século XXI para que um estudo pormenorizado do deserto conseguisse localizar provas de quatro necrópoles.

Nas sepulturas onde a idade de morte do falecido era conhecida, 70% dos indivíduos teriam morrido antes dos 35 anos e apenas nove pareciam ter vivido para além dos 50.

Após a descoberta, os arqueólogos passaram quase uma década a escavar e analisar a maior dessas necrópoles. Reuniram uma amostra de esqueletos de pelo menos 432 indivíduos. Nas sepulturas onde a idade de morte do falecido era conhecida, 70% dos indivíduos teriam morrido antes dos 35 anos e apenas nove pareciam ter vivido para além dos 50. Mais de um terço morrera antes de completar 15 anos. Os padrões de crescimento das crianças estavam dois anos atrasados. Muitos adultos acusavam danos na coluna vertebral – na opinião dos antropólogos, era uma evidência de as pessoas trabalharem excessivamente, possivelmente para construir a nova capital.
Em 2015, a equipa científica passou a outro cemitério, a norte de Amarna, onde escavou vestígios de mais 135 indivíduos. Anna Stevens, a arqueóloga australiana responsável pelo trabalho de campo no cemitério, disse-me que os escavadores rapidamente descobriram que havia algo diferente nestas sepulturas. Muitos dos corpos pareciam ter sido enterrados à pressa, em sepulturas quase sem bens ou objectos. Não há sinais de morte violenta, mas os grupos familiares pareciam desagregados: em vários casos, parecia que duas ou três pessoas sem qualquer parentesco tinham sido atiradas para uma sepultura. Eram novos – 92% dos indivíduos desta necrópole não tinham mais de 25 anos. Mais de metade morrera com 7 a 15 anos.

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