Coração de África dilacerado pelo conflito

A República Centro-Africana é um dos mais belos países do continente. Como foi possível a transformação num Estado falhado?

Texto Peter Gwin   Fotografia Marcus Bleasdale

 

Num bairro da capital, Bangui, ergue-se o fumo de um incêndio. Em 2014, as milícias chefiadas por cristãos atacaram os rebeldes predominantemente muçulmanos que tinham derrubado o governo. As duas religiões tinham coexistido numa paz relativa, mas nos últimos quatro anos o caos tem reinado no país. 

 Para chegar à casa do artista das borboletas, é preciso percorrer um labirinto de casas em tijolos de adobe, junto do rio Oubangui, de águas acastanhadas. Há quatro anos, rebeldes muçulmanos e milícias cristãs devastaram esta zona, combatendo pelo controlo de Bangui, a capital da República Centro-Africana. Actualmente, crianças jogam futebol aqui e escutam-se os pregões dos vendedores. Por baixo desta camada de normalidade, a cidade continua atormentada pela violência e os seus habitantes não baixam a guarda, atentos ao som dos disparos ou ao voo de helicópteros militares. 
Philippe Andé mantém-se indiferente a tudo. Este homem esguio debruça-se sobre uma mesa de trabalho coberta de asas de borboleta, numa constelação de cores eléctricas, formas extravagantes e padrões exóticos. Há 597 espécies identificadas na República Centro-Africana e é frequente caminhar rodeado por uma nuvem destas criaturas silenciosas e esvoaçantes. Philippe é agricultor. Captura-as nos campos e encarrega os rapazes de apanhá-las nas colinas e junto do rio. 

De pinças, lâmina e cola em punho, dispõe laboriosamente as finíssimas asas de maneira a compor cenas deslumbrantes da vida centro-africana.

De pinças, lâmina e cola em punho, dispõe laboriosamente as finíssimas asas de maneira a compor cenas deslumbrantes da vida centro-africana. Cada recriação faz lembrar uma janela de vitrais em miniatura. Um homem captura peixes pintalgados de verde num rio azul-turquesa. Mulheres de vestidos cor de laranja, com bebés adormecidos presos às costas, trituram mandioca e transformam-na em farinha. Um rapaz trepa a uma árvore para colher cocos. Vêem-se campos de algodão, retratos de elefantes, gorilas, papagaios, antílopes. Até há um diamante facetado, a exportação mais famosa do país. 
Esta é a República Centro-Africana que Philippe prefere lembrar quando cerra os olhos: o país anterior a 2013, ano em que a Seleka — uma aliança maioritariamente constituída por grupos muçulmanos rebeldes — assolou o território, pilhando, violando, matando e incendiando os sítios por onde passava. Derrubou o governo corrupto dominado por cristãos e desencadeou uma guerra civil brutal, ainda hoje latente, responsável pela morte de milhares de pessoas e pela deslocação de um milhão de pessoas, gerando escassez de alimentos. 
Para falar com franqueza, os quadros encantadores de Philippe representam algumas das minhas próprias impressões idealizadas da República Centro-Africana. O país despertou-me a atenção quando o vi representado num mapa de conservacionistas: uma ilha de verde aproximadamente com a área de França. Soube então que vastas extensões de terra e as suas florestas permaneciam desabitadas por humanos e nelas pululavam os animais selvagens. Sob esta abundância, jaz uma imensidão de recursos, incluindo diamantes, ouro, urânio e, possivelmente, petróleo. Seria razoável esperar que um país tão escassamente povoado (somente cinco milhões de habitantes) estivesse a prosperar. Mas estava a fracassar. Porquê? Essa pergunta tem-me atormentado nos últimos três anos, durante as minhas reportagens sobre aquilo a que os centro-africanos chamam a Crise, o termo que escolheram para designar a guerra e o caos que se seguiu. 

Uma rapariga cristã chora a morte da irmã, abatida em 2014 durante combates de rua perto de sua casa em Bangui. Apesar das forças de manutenção da paz da ONU, muçulmanos e cristãos continuam a lutar. Há também grupos rivais de rebeldes muçulmanos. 

 Na minha primeira visita a Bangui, em 2014, fiz essa pergunta a um oficial do exército francês, sentado a meu lado num voo da Air France prestes a descolar de Paris. O assunto pode ser delicado para os franceses, que colonizaram o país no decurso da corrida europeia a África, no século XIX. A República Centro-Africana conquistou a independência em 1960, mas os franceses mantiveram-se profundamente envolvidos nos assuntos desta nação. Actualmente, os centro-africanos ainda dependem da petrolífera francesa Total para obter grande parte do combustível que consomem e a divisa utilizada no país é suportada pelo Tesouro francês. 
O oficial, homem de ombros largos, partia para a sua segunda missão de paz no país. “A logística é um enorme problema”, disse, abanando a cabeça. Descreveu a maneira como, durante a estação das chuvas, entre Maio e Outubro, as aldeias do Nordeste pantanoso ficam isoladas, cortando as rotas comerciais. “No Norte, a economia não consegue crescer e as pessoas estão zangadas”, afirmou. “Foi lá que a Seleka nasceu.”
Nesse momento, fomos interrompidos pelos gritos de uma mulher prestes a ser deportada. Fora escoltada por dois agentes da polícia e algemada ao banco. Estrebuchava para libertar-se das algemas e gritava. Os outros passageiros eram um misto de centro-africanos de regresso ao seu país, elementos da força de manutenção da paz, trabalhadores da ajuda humanitária e diplomatas.

Nesse momento, fomos interrompidos pelos gritos de uma mulher prestes a ser deportada. Fora escoltada por dois agentes da polícia e algemada ao banco.

As palavras da mulher inquietaram os centro-africanos. “Ela é uma feiticeira”, queixou-se um homem. “Está a rogar uma praga ao avião”, disse outro. Os assistentes de bordo esforçaram-se por acalmar os passageiros, mas pouco depois vários deles tentavam retirar as malas das bagageiras e pediam para desembarcar. Após um atraso de uma hora, o piloto ordenou aos agentes da polícia que retirassem a mulher do avião. Anunciou que, devido ao atraso, teríamos de pernoitar nos Camarões. “Não se pode aterrar em Bangui de noite porque as luzes do aeroporto não funcionam”, explicou. O oficial inclinou-se e disse: “E também por não ser seguro viajar pela estrada do aeroporto à cidade, durante a noite.” E fazendo um esgar de descontentamento: “É assim que as coisas funcionam na República Centro-Africana.”
Num dos meus primeiros dias em Bangui, o guia conduziu-me a uma praça com seis estátuas pintadas de dourado. Explicou-me que ali se ilustrava toda a história que eu precisava de conhecer. A praça presta homenagem aos seis homens que lideraram o país desde o movimento pela independência até ao início da Crise. 
As estátuas apresentavam-se lascadas e viam--se cabras a mordiscar ervas que cresciam nas fendas do pavimento em redor. “Este é Barthélémy Boganda”, começou, apontando para a primeira estátua, como professor numa sala de aula. “Ele está para os centro-africanos como George Washington e Martin Luther King, Jr. para os norte-americanos.”


 

A mesquita de Berbérati foi saqueada e abandonada depois de as milícias forçarem os muçulmanos a partir. Antes do conflito, estes representavam um quarto da população e dirigiam estabelecimentos comerciais. “São importantes para esta comunidade”, afirma o autarca, Albert Eustache Nakombo. “Queremos que regressem.” 

 Nas minhas leituras aprendi a história de Boganda, auto-retratado como filho de um canibal, famoso por ter negociado a independência do país com Charles de Gaulle. Não interrompi o guia. Parecia enlevado ao falar sobre o líder que todos os centro-africanos tratam com carinho. Nasceu naquela que então era a colónia francesa de Oubangui-Chari, cujo nome provinha dos dois rios que delimitavam as fronteiras meridional e setentrional. A colónia era impunemente governada pelas empresas privadas e qualquer noção de justiça era deixada ao critério dos seus administradores. No Dia da Tomada da Bastilha, em 1903, um oficial francês em Kaga Bandoro autorizou os seus homens a executarem um prisioneiro africano introduzindo-lhe um pau de dinamite no ânus e acendendo-o.

A vida de Boganda é narrada como se de um profeta do Antigo Testamento se tratasse.

A vida de Boganda é narrada como se de um profeta do Antigo Testamento se tratasse. Antes do seu nascimento, em 1910, as forças francesas mataram-lhe o pai, num ataque lançado contra a sua aldeia. Guardas da empresa mataram a mãe à paulada quando ela se recusou a colher borracha selvagem. Órfão, Boganda foi acolhido por um padre da Igreja Católica e chegou a ser ordenado padre, tornando-se o primeiro sacerdote nativo de Oubangui-Chari. Mais tarde, prestou serviço como primeiro representante nativo na Assembleia Nacional Francesa, transformando-se num crítico feroz da administração francesa. Com a independência iminente, Boganda era claramente o preferido do povo para ser eleito chefe. 

Um rebelde muçulmano mantém-se de guarda, enquanto homens e rapazes escavam numa mina perto de Bambari. Os rebeldes ficam com uma percentagem de ouro como “garantia”. Há abundância deste metal  na República Centro-Africana, mas a corrupção e a instabilidade política impedem que os lucros beneficiem o povo. 

 Deu ao país o nome de República Centro-Africana, projectou a bandeira e escolheu o lema nacional: “Igualdade para todos”. Porém, no dia 29 de Março de 1959, antes das primeiras eleições, o avião que transportava Boganda explodiu em pleno voo. Numerosos compatriotas acreditam que os franceses foram responsáveis pela sua morte, apesar de França o negar desde então. O incidente condicionou as relações entre os dois países. 
“Pode citar-me, mas por favor não diga o meu nome”, pediu o guia, vigilante da natureza. 
Os franceses ainda acham que somos uma colónia deles.” Apontou para as estátuas dos outros cinco homens, que prestaram serviço como presidentes. “Sempre que cada um destes homens decidiu agir contra os franceses, foi substituído pelo seguinte.”
Os chefes que se seguiram a Boganda tinham pecados próprios a confessar. Percorrendo a pé a fila de estátuas, descreveu a maneira como dilapidaram a riqueza nacional, privilegiando os grupos étnicos mais numerosos e gerando um ressentimento profundo entre os 15% da população muçulmana (os restantes são praticantes do cristianismo e de crenças animistas). Imobilizou--se junto da última estátua, do homem que muitos centro-africanos acusam de ter dado início à Crise, François Bozizé, um oficial do exército que tomou o poder em 2003. “Prometeu aos muçulmanos que os incluiria no governo se o ajudassem a conquistar o poder. Depois, traiu-os e foi assim que a Seleka se instalou”, explicou o guia.

Percorrendo a pé a fila de estátuas, descreveu a maneira como dilapidaram a riqueza nacional, privilegiando os grupos étnicos mais numerosos e gerando um ressentimento profundo entre os 15% da população muçulmana.

Os combatentes da Seleka cumpriram o objectivo de derrubar Bozizé, mas não faziam a menor ideia de como governar. Controlaram Bangui durante menos de um ano até a ONU enviar para o país uma força de manutenção da paz. 
A Seleka retirou-se para as regiões dominadas pelos muçulmanos e, pouco depois, a aliança desmoronou-se. Grupos de rebeldes dividiram o território em feudos, cada qual controlado por um antigo líder da Seleka que explorava os recursos locais.
Angariava assim recursos para pagar aos combatentes e adquirir armamento. No último ano, as facções começaram a atacar-se entre si, obrigando setenta mil pessoas a fugir.
Eu e o fotógrafo Marcus Bleasdale resolvemos investigar de que maneira estes recursos se transformaram na seiva que dá vida às próprias forças causadoras da sua divisão. Decidimos visitar Bambari, a segunda maior cidade centro-africana depois de Bangui e vanguarda do território controlado pelos antigos chefes da Seleka. 


 

ESTADO DE AGITAÇÃO - Nos últimos quatro anos, um conflito brutal lançou a minoria muçulmana contra a maioria cristã na República Centro-Africana, um país do tamanho de França, mas com apenas cinco milhões de cidadãos. Dominado pelos muçulmanos, o Norte há muito que se sentia ignorado pelos dirigentes em Bangui, a capital. A sua rebelião desencadeou a violência. Anti-Balaka - As milícias anti-Balaka foram organizadas para expulsar a Seleka das zonas cristãs. Ambas foram acusadas de crimes de guerra. Fuga do conflito - Um quinto dos centro-africanos fugiram. Mais de 450 mil refugiaram-se noutros países. No fim de 2015, mais de 430 mil estavam instalados em acampamentos temporários no interior do país. Seleka - Em 2012, grupos de rebeldes predominantemente muçulmanos aliaram-se para formar a Seleka e abriram caminho até Bangui. Sob pressão internacional, a coligação foi desfeita em 2013. Os rebeldes retiraram-se, mas ainda controlam parcelas do Centro e do Norte. Gráfico Damien Saunder. Fontes: Serviço Internacional de Informação de Paz; Gabinete da ONU para a Coordenação dos Assuntos Humanitários; ACNUR; Observatório da Complexidade Económica; Base de Dados Mundiais sobre Áreas Protegidas; Road Data © Openstreetmap Contributors, Disponível em regime de licença de base de dados aberta: openstreetmap.org/copyright.

Demorámos um dia a sair de Bangui num veículo de tracção às quatro rodas, percorrendo uma rota que atravessa a floresta densa e passa por várias aldeias brutalmente atacadas pela Seleka no seu caminho até à capital. Quando as forças de manutenção da paz da ONU a patrulham, a estrada é geralmente segura. Noutras ocasiões, há bandidos à espreita. 
Grande parte da estrada não tem asfalto e está sulcada por rastos de pneus que obrigam os condutores a avançar quase à velocidade de caminhada, gerando oportunidades para emboscadas ou, como viemos a descobrir, venda de artigos. Quando o nosso condutor navegava por um troço particularmente difícil, emergiu da floresta um homem a acenar com duas grandes tartarugas na mão. De seguida, rapazes sorridentes apresentaram-nos duas fieiras de peixes que ainda mexiam. Quando nos detivemos para inspeccionar o peixe, uma rapariga saltou para a nossa frente, com frascos cheios de mel silvestre. 

Elefantes agrupam-se na Reserva Especial de Dzanga-Sangha, um santuário natural. No ano em que o governo foi derrubado, os caçadores furtivos mataram 26 elefantes nesta reserva. Com os vigilantes da natureza de volta, o parque está de novo seguro. Os elefantes e os turistas vão regressando lentamente. 

O homem com quem eu e Marcus nos queríamos encontrar em Bambari chamava-se Ali Darassa, um antigo general da Seleka que controla a cidade. Carcaças negras de casas incendiadas são tudo o que resta do maior bairro cristão. Actualmente, dezenas de milhares de cristãos vivem num acampamento nos limites da cidade.
Os soldados de Darassa atravessam a cidade rugindo, a bordo de carrinhas de caixa aberta com metralhadoras montadas, ignorando desafiadoramente as forças de manutenção da paz da ONU, que pouco mais parecem fazer do que namoriscar as raparigas. Os combatentes de Darassa cobram uma taxa de 46 euros por cada cabeça de gado, aplicada às centenas de vacas que se encaminham para os mercados de Bangui todas as semanas. Extorquem dinheiro aos lojistas a título de protecção, cobram portagens aos veículos e impostos sobre as transacções locais de café. Mas a jóia da coroa da carteira de Darassa é uma mina de ouro a sessenta quilómetros de distância. 
Tentei várias vezes entrevistar Darassa e os seus homens escusaram-se sempre. Disseram--me em contrapartida que ele não se importava que visitássemos a mina, razão pela qual um dia, de manhã, eu e Marcus nos encontrámos à beira de um desfiladeiro rasgado por socalcos que fora escavado por um pequeno exército de homens. 


 

Cristãos rezam numa igreja de Bambari, onde os muçulmanos incendiaram centenas de casas. Em muitas cidades, as igrejas serviram de refúgio a cristãos e muçulmanos em fuga. Diz um pastor: “O povo de Deus ofereceu a sua ajuda quando os soldados e os políticos fugiram.”

Um dos capatazes, baixo e forte com mãos duras como bigornas, contou-me que trabalhava na mina desde a sua inauguração três anos antes. Antes da Crise, uma empresa canadiana fizera prospecções no local, mas partiu quando a violência eclodiu, juntamente com dezenas de outras empresas estrangeiras que ali exploravam petróleo, abatiam árvores e faziam obras em estradas e barragens. Muito poucas regressaram ao país. 
O ouro é extraído do cascalho retirado do fundo da mina, como me explicou. Cerca de trezentos homens e rapazes ágeis e musculados encontravam-se organizados em filas verticais que subiam dos socalcos aplanados até ao rebordo superior. Observei os homens posicionados no fundo a atirarem pazadas de terra por cima dos ombros para os homens que estavam no socalco acima deles. Estes, por sua vez, atiravam pazadas para o nível situado acima e assim sucessivamente, como se fosse um elevador de terra. 
Cada homem, explicou o capataz, ganha cerca de oito euros por dia. Alguns combatentes de Darassa passaram por nós. O capataz parou de falar, mas, depois de estes prosseguirem o seu caminho, calculou que a mina produz cerca de 3,7 milhões de euros por ano. Contou-me que Darassa fica com 6% do ouro “como garantia”.

Passámos várias horas na mina e no bairro de lata construído para alojar os homens. Restaurantes vendiam carne de vaca grelhada, mandioca cozida e cerveja Mocaf trazida de Bangui.

Passámos várias horas na mina e no bairro de lata construído para alojar os homens. Restaurantes vendiam carne de vaca grelhada, mandioca cozida e cerveja Mocaf trazida de Bangui. Uma sala de cinema projectava filmes em DVD com Vin Diesel e Sylvester Stallone e lojas vendiam escovas de dentes, sabão e cópias de camisolas de equipas europeias de futebol. O capataz explicou que todos os lojistas aceitam ouro como divisa de pagamento. Vimos mulheres e crianças a ajudar os homens a peneirar o cascalho. “Ali”, disse um jovem, com um riso rasgado e apontando para uma estilha minúscula. “Aquilo é ouro.”
Como estrangeiro, fui frequentemente abordado por pessoas que queriam contar-me coisas sucedidas durante a Crise. Da primeira vez, um homem veio procurar-me ao hotel em Bangui e pediu para falar com o americano. “Quero contar--te o que aconteceu ao meu sobrinho”, disse.
Fomos de moto até sua casa, onde me encontrei com Paul Koli-Miki. Contou-me que, dois dias antes, fora raptado por apoiantes da Seleka enquanto trabalhava perto de um bairro muçulmano chamado PK5. Espancaram-no com um martelo e serviram-se de um alicate para arrancar-lhe três dentes. A voz ainda estava abafada pelo algodão ensanguentado encaixado junto das gengivas. Tinha os olhos esbugalhados do choque. Apresentara queixa num tribunal da cidade, em Bangui. “Não sei se me farão justiça”, comentou. 
Eis um lamento que poderíamos ouvir a milhares de centro-africanos. A Crise estilhaçou o que restava do decrépito sistema judicial e da confiança do público no Estado de direito. Existe polícia e alguns tribunais funcionam, mas, na sua maioria, estão mal preparados para lidar com crimes graves. O que obriga à pergunta: conseguirá o país recuperar, se nunca se fizer justiça?

Alunos começam o dia numa escola de Bangui encerrada durante dois anos devido aos combates. Os rebeldes destruíram escolas em todo o país, afectando 425 mil crianças. Já havia escassez de professores antes dos combates (cerca de 1 para 89 alunos) e muitos dos que fugiram do conflito não regressaram. 

Devido a este vazio, as pessoas voltam-se para os estrangeiros para reportar as suas queixas. Certa vez, um homem muçulmano magro, vestido com um barrete tricotado, aproximou-se de mim numa mesquita da cidade de Berbérati. 
“Os anti-Balaka mataram todas as minhas vacas. Cortaram-me as árvores de fruto. E mataram o meu filho.” Ficou com a voz embargada e agarrou--me a mão. “Tenho 76 anos. O que posso eu fazer? O que podes tu fazer?” E começou a chorar. 
Um dos encontros mais perturbantes aconteceu quando conheci uma jovem que afirmava ter sofrido abusos sexuais por parte de um membro francês da força da ONU. A mãe de rapariga explicou que quando a Seleka se aproximou mais do seu bairro em Bangui, ela fugiu com a filha para o aeroporto, então protegido por tropas francesas.
A rapariga ouvia em silêncio enquanto a mãe falava. Tinha metro e meio de altura e completara recentemente 17 anos. Trazia o cabelo puxado para trás em tranças finas. Manteve os olhos fixos no chão enquanto descrevia a maneira como travou conhecimento com um soldado francês alto, de bigode, ao passar pelo seu posto de controlo, um pequeno recinto montado com sacas empilhadas de areia. “Deu-me bolachas e doces”, disse. Começou a dizer-lhe coisas em francês que ela não percebia e, por isso, serviu-se de linguagem gestual para explicar que queria ter relações sexuais, mostrando o pénis. Respirou profundamente e a voz tornou-se ainda mais suave. “O homem mostrou-me comida. E disse: ‘Se chorares, bato-te. Se não chorares, dou-te comida todos os dias.’ Por isso, concordei em ter relações sexuais.”

Um dos encontros mais perturbantes aconteceu quando conheci uma jovem que afirmava ter sofrido abusos sexuais por parte de um membro francês da força da ONU.

Disse ter feito sexo com o soldado mais uma vez e que ele lhe deu algum arroz. Agora estava grávida de cinco meses. “Há muitas outras raparigas que também receberam comida dos franceses a troco de sexo, mas nunca contaram a história.” Realizou-se uma investigação, “mas sem resultados”. Em Janeiro, os juízes franceses decidiram não pronunciar judicialmente soldados acusados de abuso sexual contra crianças ou adolescentes na República Centro-Africana.
Num lote de terreno desocupado em Bangui, um homem esguio vestido com um pólo joga futebol com um grupo de rapazes enérgicos. Move-se com elegância poderosa. A bola parece seguir-lhe os pés como se ele a tivesse treinado para obedecer-lhe. 
Tenta ensinar aos rapazes uma jogada e demonstra-a, fazendo um passe para um rapaz e, de imediato, deslocando-se para receber a bola mais à frente. A lição contraria a forma como os rapazes jogam futebol de rua, chutando à baliza de cada vez que tocam na bola. Ouvem-no com atenção, quase com reverência, porque o homem que fala com eles é um herói nacional, Ibrahim Bohari, conhecido por toda a gente como I.B. É o antigo capitão da selecção nacional de futebol. Logo a seguir à memória de Boganda, a equipa Wild Beasts talvez seja a força mais unificadora de todo o país. O plantel integra jogadores muçulmanos e cristãos e é uma das poucas instituições sobre a qual ninguém valoriza a religião ou origem étnica dos componentes. 


 

Para escapar aos combates, dezenas de milhares de moradores de Bangui refugiaram-se em destroços de aviões e pistas de aterragem de um aeródromo protegido pelas forças da ONU. Em Dezembro, o governo atribuiu subsídios aos refugiados para se reinstalarem. 

 I.B., que é muçulmano, jogou futebol em equipas profissionais na Bélgica e na Turquia e, quando a Crise começou a eclodir, decidiu regressar a casa. “Não era capaz de ouvir o que se estava a passar e ficar parado”, disse-me. 
Ao regressar a Bangui, constatou que os seus colegas muçulmanos tinham sido expulsos do seu bairro. Em contrapartida, quando encontrava combatentes da anti-Balaka, eles davam-lhe as boas-vindas. “Perguntei-lhes por que não me atacavam. Eles responderam: ‘Nunca seríamos capazes de te matar, I.B., adoramos-te.’” Abana a cabeça sem compreender este absurdo. 
Resolveu tentar descobrir formas de contribuir para pacificar o seu país e, um dia, reparou num grupo de rapazes que jogava futebol com uma bola de trapos. Contaram-lhe que eram todos filhos de pais cristãos mortos ou exilados. 
I.B. fez uma parceria com a So.Sui.Ben, uma organização suíça sem fins lucrativos e arrendou um complexo habitacional para alojar uma dezena dos rapazes mais novos. Duas vezes por semana, depois de terminadas as aulas na escola, ele dirige os treinos. O orfanato não é o projecto mais ambicioso de I.B., que tem organizado “jogos da paz”, jogos de futebol entre equipas formadas com antigos combatentes cristãos e muçulmanos em alguns dos bairros mais conflituosos de Bangui. 

Depois de um ano num campo, Richard Dohou comemorou o regresso a casa decorando-a com papel dourado. O seu bairro em Bangui foi esvaziado por matanças brutais. Os cristãos, como Richard, estão a regressar, mas os muçulmanos não. “Poderemos perdoar-nos uns aos outros um dia, mas ainda não”, diz um morador.

“Precisamos de concentrar-nos nos homens jovens”, diz I.B., observando que parte do problema reside no facto de tantos não terem emprego e de terem as cabeças repletas de filmes e música que glorificam a violência. “Quando alguém os convida para um grupo rebelde, acham que podem concretizar essa fantasia.”
Os jogos de futebol exigem semanas de preparação e diligências diplomáticas delicadas, pois é essencial convencer as autoridades religiosas a apoiá-los, recrutar jogadores, garantir a segurança com as forças de manutenção da paz da ONU e pedir donativos às empresas. “Não é só o jogo que está em causa”, explica I.B. “Trata-se de transmitir à comunidade uma imagem de muçulmanos e cristãos convivendo e trabalhando juntos.”
Em Bangui, ainda há naturalmente cépticos. “Um jogo de futebol não pode ressuscitar os mortos”, disse um imã. “Não cria postos de trabalho. Não muda os corações das pessoas.”
Antes de deixar o país, assisto a um jogo em que participa uma equipa do bairro muçulmano onde arrancaram os dentes a Paul Koli-Miki. Uma multidão amontoa-se nas bancadas. Vive-se um ambiente festivo. Mulheres jovens com vestidos coloridos distribuem refrigerantes. Um comentador descreve o jogo e diz piadas, substituindo os nomes dos jogadores pelos de superestrelas europeias. “Messi recebe a bola de Ronaldo e passa a Zidane”, diz ao microfone. As pessoas riem, o sol brilha e os jovens correm. Não é o trabalho de equipa que I.B. ensina, mas vejo-o junto da linha lateral, sorrindo e aplaudindo. Todos aplaudem.
É um belo momento, ainda que frágil, como se fosse um quadro feito com asas de borboleta. 

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