Coração de África dilacerado pelo conflito

 

Para escapar aos combates, dezenas de milhares de moradores de Bangui refugiaram-se em destroços de aviões e pistas de aterragem de um aeródromo protegido pelas forças da ONU. Em Dezembro, o governo atribuiu subsídios aos refugiados para se reinstalarem. 

 I.B., que é muçulmano, jogou futebol em equipas profissionais na Bélgica e na Turquia e, quando a Crise começou a eclodir, decidiu regressar a casa. “Não era capaz de ouvir o que se estava a passar e ficar parado”, disse-me. 
Ao regressar a Bangui, constatou que os seus colegas muçulmanos tinham sido expulsos do seu bairro. Em contrapartida, quando encontrava combatentes da anti-Balaka, eles davam-lhe as boas-vindas. “Perguntei-lhes por que não me atacavam. Eles responderam: ‘Nunca seríamos capazes de te matar, I.B., adoramos-te.’” Abana a cabeça sem compreender este absurdo. 
Resolveu tentar descobrir formas de contribuir para pacificar o seu país e, um dia, reparou num grupo de rapazes que jogava futebol com uma bola de trapos. Contaram-lhe que eram todos filhos de pais cristãos mortos ou exilados. 
I.B. fez uma parceria com a So.Sui.Ben, uma organização suíça sem fins lucrativos e arrendou um complexo habitacional para alojar uma dezena dos rapazes mais novos. Duas vezes por semana, depois de terminadas as aulas na escola, ele dirige os treinos. O orfanato não é o projecto mais ambicioso de I.B., que tem organizado “jogos da paz”, jogos de futebol entre equipas formadas com antigos combatentes cristãos e muçulmanos em alguns dos bairros mais conflituosos de Bangui. 

Depois de um ano num campo, Richard Dohou comemorou o regresso a casa decorando-a com papel dourado. O seu bairro em Bangui foi esvaziado por matanças brutais. Os cristãos, como Richard, estão a regressar, mas os muçulmanos não. “Poderemos perdoar-nos uns aos outros um dia, mas ainda não”, diz um morador.

“Precisamos de concentrar-nos nos homens jovens”, diz I.B., observando que parte do problema reside no facto de tantos não terem emprego e de terem as cabeças repletas de filmes e música que glorificam a violência. “Quando alguém os convida para um grupo rebelde, acham que podem concretizar essa fantasia.”
Os jogos de futebol exigem semanas de preparação e diligências diplomáticas delicadas, pois é essencial convencer as autoridades religiosas a apoiá-los, recrutar jogadores, garantir a segurança com as forças de manutenção da paz da ONU e pedir donativos às empresas. “Não é só o jogo que está em causa”, explica I.B. “Trata-se de transmitir à comunidade uma imagem de muçulmanos e cristãos convivendo e trabalhando juntos.”
Em Bangui, ainda há naturalmente cépticos. “Um jogo de futebol não pode ressuscitar os mortos”, disse um imã. “Não cria postos de trabalho. Não muda os corações das pessoas.”
Antes de deixar o país, assisto a um jogo em que participa uma equipa do bairro muçulmano onde arrancaram os dentes a Paul Koli-Miki. Uma multidão amontoa-se nas bancadas. Vive-se um ambiente festivo. Mulheres jovens com vestidos coloridos distribuem refrigerantes. Um comentador descreve o jogo e diz piadas, substituindo os nomes dos jogadores pelos de superestrelas europeias. “Messi recebe a bola de Ronaldo e passa a Zidane”, diz ao microfone. As pessoas riem, o sol brilha e os jovens correm. Não é o trabalho de equipa que I.B. ensina, mas vejo-o junto da linha lateral, sorrindo e aplaudindo. Todos aplaudem.
É um belo momento, ainda que frágil, como se fosse um quadro feito com asas de borboleta. 

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