Coração de África dilacerado pelo conflito

 

Cristãos rezam numa igreja de Bambari, onde os muçulmanos incendiaram centenas de casas. Em muitas cidades, as igrejas serviram de refúgio a cristãos e muçulmanos em fuga. Diz um pastor: “O povo de Deus ofereceu a sua ajuda quando os soldados e os políticos fugiram.”

Um dos capatazes, baixo e forte com mãos duras como bigornas, contou-me que trabalhava na mina desde a sua inauguração três anos antes. Antes da Crise, uma empresa canadiana fizera prospecções no local, mas partiu quando a violência eclodiu, juntamente com dezenas de outras empresas estrangeiras que ali exploravam petróleo, abatiam árvores e faziam obras em estradas e barragens. Muito poucas regressaram ao país. 
O ouro é extraído do cascalho retirado do fundo da mina, como me explicou. Cerca de trezentos homens e rapazes ágeis e musculados encontravam-se organizados em filas verticais que subiam dos socalcos aplanados até ao rebordo superior. Observei os homens posicionados no fundo a atirarem pazadas de terra por cima dos ombros para os homens que estavam no socalco acima deles. Estes, por sua vez, atiravam pazadas para o nível situado acima e assim sucessivamente, como se fosse um elevador de terra. 
Cada homem, explicou o capataz, ganha cerca de oito euros por dia. Alguns combatentes de Darassa passaram por nós. O capataz parou de falar, mas, depois de estes prosseguirem o seu caminho, calculou que a mina produz cerca de 3,7 milhões de euros por ano. Contou-me que Darassa fica com 6% do ouro “como garantia”.

Passámos várias horas na mina e no bairro de lata construído para alojar os homens. Restaurantes vendiam carne de vaca grelhada, mandioca cozida e cerveja Mocaf trazida de Bangui.

Passámos várias horas na mina e no bairro de lata construído para alojar os homens. Restaurantes vendiam carne de vaca grelhada, mandioca cozida e cerveja Mocaf trazida de Bangui. Uma sala de cinema projectava filmes em DVD com Vin Diesel e Sylvester Stallone e lojas vendiam escovas de dentes, sabão e cópias de camisolas de equipas europeias de futebol. O capataz explicou que todos os lojistas aceitam ouro como divisa de pagamento. Vimos mulheres e crianças a ajudar os homens a peneirar o cascalho. “Ali”, disse um jovem, com um riso rasgado e apontando para uma estilha minúscula. “Aquilo é ouro.”
Como estrangeiro, fui frequentemente abordado por pessoas que queriam contar-me coisas sucedidas durante a Crise. Da primeira vez, um homem veio procurar-me ao hotel em Bangui e pediu para falar com o americano. “Quero contar--te o que aconteceu ao meu sobrinho”, disse.
Fomos de moto até sua casa, onde me encontrei com Paul Koli-Miki. Contou-me que, dois dias antes, fora raptado por apoiantes da Seleka enquanto trabalhava perto de um bairro muçulmano chamado PK5. Espancaram-no com um martelo e serviram-se de um alicate para arrancar-lhe três dentes. A voz ainda estava abafada pelo algodão ensanguentado encaixado junto das gengivas. Tinha os olhos esbugalhados do choque. Apresentara queixa num tribunal da cidade, em Bangui. “Não sei se me farão justiça”, comentou. 
Eis um lamento que poderíamos ouvir a milhares de centro-africanos. A Crise estilhaçou o que restava do decrépito sistema judicial e da confiança do público no Estado de direito. Existe polícia e alguns tribunais funcionam, mas, na sua maioria, estão mal preparados para lidar com crimes graves. O que obriga à pergunta: conseguirá o país recuperar, se nunca se fizer justiça?

Alunos começam o dia numa escola de Bangui encerrada durante dois anos devido aos combates. Os rebeldes destruíram escolas em todo o país, afectando 425 mil crianças. Já havia escassez de professores antes dos combates (cerca de 1 para 89 alunos) e muitos dos que fugiram do conflito não regressaram. 

Devido a este vazio, as pessoas voltam-se para os estrangeiros para reportar as suas queixas. Certa vez, um homem muçulmano magro, vestido com um barrete tricotado, aproximou-se de mim numa mesquita da cidade de Berbérati. 
“Os anti-Balaka mataram todas as minhas vacas. Cortaram-me as árvores de fruto. E mataram o meu filho.” Ficou com a voz embargada e agarrou--me a mão. “Tenho 76 anos. O que posso eu fazer? O que podes tu fazer?” E começou a chorar. 
Um dos encontros mais perturbantes aconteceu quando conheci uma jovem que afirmava ter sofrido abusos sexuais por parte de um membro francês da força da ONU. A mãe de rapariga explicou que quando a Seleka se aproximou mais do seu bairro em Bangui, ela fugiu com a filha para o aeroporto, então protegido por tropas francesas.
A rapariga ouvia em silêncio enquanto a mãe falava. Tinha metro e meio de altura e completara recentemente 17 anos. Trazia o cabelo puxado para trás em tranças finas. Manteve os olhos fixos no chão enquanto descrevia a maneira como travou conhecimento com um soldado francês alto, de bigode, ao passar pelo seu posto de controlo, um pequeno recinto montado com sacas empilhadas de areia. “Deu-me bolachas e doces”, disse. Começou a dizer-lhe coisas em francês que ela não percebia e, por isso, serviu-se de linguagem gestual para explicar que queria ter relações sexuais, mostrando o pénis. Respirou profundamente e a voz tornou-se ainda mais suave. “O homem mostrou-me comida. E disse: ‘Se chorares, bato-te. Se não chorares, dou-te comida todos os dias.’ Por isso, concordei em ter relações sexuais.”

Um dos encontros mais perturbantes aconteceu quando conheci uma jovem que afirmava ter sofrido abusos sexuais por parte de um membro francês da força da ONU.

Disse ter feito sexo com o soldado mais uma vez e que ele lhe deu algum arroz. Agora estava grávida de cinco meses. “Há muitas outras raparigas que também receberam comida dos franceses a troco de sexo, mas nunca contaram a história.” Realizou-se uma investigação, “mas sem resultados”. Em Janeiro, os juízes franceses decidiram não pronunciar judicialmente soldados acusados de abuso sexual contra crianças ou adolescentes na República Centro-Africana.
Num lote de terreno desocupado em Bangui, um homem esguio vestido com um pólo joga futebol com um grupo de rapazes enérgicos. Move-se com elegância poderosa. A bola parece seguir-lhe os pés como se ele a tivesse treinado para obedecer-lhe. 
Tenta ensinar aos rapazes uma jogada e demonstra-a, fazendo um passe para um rapaz e, de imediato, deslocando-se para receber a bola mais à frente. A lição contraria a forma como os rapazes jogam futebol de rua, chutando à baliza de cada vez que tocam na bola. Ouvem-no com atenção, quase com reverência, porque o homem que fala com eles é um herói nacional, Ibrahim Bohari, conhecido por toda a gente como I.B. É o antigo capitão da selecção nacional de futebol. Logo a seguir à memória de Boganda, a equipa Wild Beasts talvez seja a força mais unificadora de todo o país. O plantel integra jogadores muçulmanos e cristãos e é uma das poucas instituições sobre a qual ninguém valoriza a religião ou origem étnica dos componentes. 

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar