Coração de África dilacerado pelo conflito

 

ESTADO DE AGITAÇÃO - Nos últimos quatro anos, um conflito brutal lançou a minoria muçulmana contra a maioria cristã na República Centro-Africana, um país do tamanho de França, mas com apenas cinco milhões de cidadãos. Dominado pelos muçulmanos, o Norte há muito que se sentia ignorado pelos dirigentes em Bangui, a capital. A sua rebelião desencadeou a violência. Anti-Balaka - As milícias anti-Balaka foram organizadas para expulsar a Seleka das zonas cristãs. Ambas foram acusadas de crimes de guerra. Fuga do conflito - Um quinto dos centro-africanos fugiram. Mais de 450 mil refugiaram-se noutros países. No fim de 2015, mais de 430 mil estavam instalados em acampamentos temporários no interior do país. Seleka - Em 2012, grupos de rebeldes predominantemente muçulmanos aliaram-se para formar a Seleka e abriram caminho até Bangui. Sob pressão internacional, a coligação foi desfeita em 2013. Os rebeldes retiraram-se, mas ainda controlam parcelas do Centro e do Norte. Gráfico Damien Saunder. Fontes: Serviço Internacional de Informação de Paz; Gabinete da ONU para a Coordenação dos Assuntos Humanitários; ACNUR; Observatório da Complexidade Económica; Base de Dados Mundiais sobre Áreas Protegidas; Road Data © Openstreetmap Contributors, Disponível em regime de licença de base de dados aberta: openstreetmap.org/copyright.

Demorámos um dia a sair de Bangui num veículo de tracção às quatro rodas, percorrendo uma rota que atravessa a floresta densa e passa por várias aldeias brutalmente atacadas pela Seleka no seu caminho até à capital. Quando as forças de manutenção da paz da ONU a patrulham, a estrada é geralmente segura. Noutras ocasiões, há bandidos à espreita. 
Grande parte da estrada não tem asfalto e está sulcada por rastos de pneus que obrigam os condutores a avançar quase à velocidade de caminhada, gerando oportunidades para emboscadas ou, como viemos a descobrir, venda de artigos. Quando o nosso condutor navegava por um troço particularmente difícil, emergiu da floresta um homem a acenar com duas grandes tartarugas na mão. De seguida, rapazes sorridentes apresentaram-nos duas fieiras de peixes que ainda mexiam. Quando nos detivemos para inspeccionar o peixe, uma rapariga saltou para a nossa frente, com frascos cheios de mel silvestre. 

Elefantes agrupam-se na Reserva Especial de Dzanga-Sangha, um santuário natural. No ano em que o governo foi derrubado, os caçadores furtivos mataram 26 elefantes nesta reserva. Com os vigilantes da natureza de volta, o parque está de novo seguro. Os elefantes e os turistas vão regressando lentamente. 

O homem com quem eu e Marcus nos queríamos encontrar em Bambari chamava-se Ali Darassa, um antigo general da Seleka que controla a cidade. Carcaças negras de casas incendiadas são tudo o que resta do maior bairro cristão. Actualmente, dezenas de milhares de cristãos vivem num acampamento nos limites da cidade.
Os soldados de Darassa atravessam a cidade rugindo, a bordo de carrinhas de caixa aberta com metralhadoras montadas, ignorando desafiadoramente as forças de manutenção da paz da ONU, que pouco mais parecem fazer do que namoriscar as raparigas. Os combatentes de Darassa cobram uma taxa de 46 euros por cada cabeça de gado, aplicada às centenas de vacas que se encaminham para os mercados de Bangui todas as semanas. Extorquem dinheiro aos lojistas a título de protecção, cobram portagens aos veículos e impostos sobre as transacções locais de café. Mas a jóia da coroa da carteira de Darassa é uma mina de ouro a sessenta quilómetros de distância. 
Tentei várias vezes entrevistar Darassa e os seus homens escusaram-se sempre. Disseram--me em contrapartida que ele não se importava que visitássemos a mina, razão pela qual um dia, de manhã, eu e Marcus nos encontrámos à beira de um desfiladeiro rasgado por socalcos que fora escavado por um pequeno exército de homens. 

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