Coração de África dilacerado pelo conflito

 

A mesquita de Berbérati foi saqueada e abandonada depois de as milícias forçarem os muçulmanos a partir. Antes do conflito, estes representavam um quarto da população e dirigiam estabelecimentos comerciais. “São importantes para esta comunidade”, afirma o autarca, Albert Eustache Nakombo. “Queremos que regressem.” 

 Nas minhas leituras aprendi a história de Boganda, auto-retratado como filho de um canibal, famoso por ter negociado a independência do país com Charles de Gaulle. Não interrompi o guia. Parecia enlevado ao falar sobre o líder que todos os centro-africanos tratam com carinho. Nasceu naquela que então era a colónia francesa de Oubangui-Chari, cujo nome provinha dos dois rios que delimitavam as fronteiras meridional e setentrional. A colónia era impunemente governada pelas empresas privadas e qualquer noção de justiça era deixada ao critério dos seus administradores. No Dia da Tomada da Bastilha, em 1903, um oficial francês em Kaga Bandoro autorizou os seus homens a executarem um prisioneiro africano introduzindo-lhe um pau de dinamite no ânus e acendendo-o.

A vida de Boganda é narrada como se de um profeta do Antigo Testamento se tratasse.

A vida de Boganda é narrada como se de um profeta do Antigo Testamento se tratasse. Antes do seu nascimento, em 1910, as forças francesas mataram-lhe o pai, num ataque lançado contra a sua aldeia. Guardas da empresa mataram a mãe à paulada quando ela se recusou a colher borracha selvagem. Órfão, Boganda foi acolhido por um padre da Igreja Católica e chegou a ser ordenado padre, tornando-se o primeiro sacerdote nativo de Oubangui-Chari. Mais tarde, prestou serviço como primeiro representante nativo na Assembleia Nacional Francesa, transformando-se num crítico feroz da administração francesa. Com a independência iminente, Boganda era claramente o preferido do povo para ser eleito chefe. 

Um rebelde muçulmano mantém-se de guarda, enquanto homens e rapazes escavam numa mina perto de Bambari. Os rebeldes ficam com uma percentagem de ouro como “garantia”. Há abundância deste metal  na República Centro-Africana, mas a corrupção e a instabilidade política impedem que os lucros beneficiem o povo. 

 Deu ao país o nome de República Centro-Africana, projectou a bandeira e escolheu o lema nacional: “Igualdade para todos”. Porém, no dia 29 de Março de 1959, antes das primeiras eleições, o avião que transportava Boganda explodiu em pleno voo. Numerosos compatriotas acreditam que os franceses foram responsáveis pela sua morte, apesar de França o negar desde então. O incidente condicionou as relações entre os dois países. 
“Pode citar-me, mas por favor não diga o meu nome”, pediu o guia, vigilante da natureza. 
Os franceses ainda acham que somos uma colónia deles.” Apontou para as estátuas dos outros cinco homens, que prestaram serviço como presidentes. “Sempre que cada um destes homens decidiu agir contra os franceses, foi substituído pelo seguinte.”
Os chefes que se seguiram a Boganda tinham pecados próprios a confessar. Percorrendo a pé a fila de estátuas, descreveu a maneira como dilapidaram a riqueza nacional, privilegiando os grupos étnicos mais numerosos e gerando um ressentimento profundo entre os 15% da população muçulmana (os restantes são praticantes do cristianismo e de crenças animistas). Imobilizou--se junto da última estátua, do homem que muitos centro-africanos acusam de ter dado início à Crise, François Bozizé, um oficial do exército que tomou o poder em 2003. “Prometeu aos muçulmanos que os incluiria no governo se o ajudassem a conquistar o poder. Depois, traiu-os e foi assim que a Seleka se instalou”, explicou o guia.

Percorrendo a pé a fila de estátuas, descreveu a maneira como dilapidaram a riqueza nacional, privilegiando os grupos étnicos mais numerosos e gerando um ressentimento profundo entre os 15% da população muçulmana.

Os combatentes da Seleka cumpriram o objectivo de derrubar Bozizé, mas não faziam a menor ideia de como governar. Controlaram Bangui durante menos de um ano até a ONU enviar para o país uma força de manutenção da paz. 
A Seleka retirou-se para as regiões dominadas pelos muçulmanos e, pouco depois, a aliança desmoronou-se. Grupos de rebeldes dividiram o território em feudos, cada qual controlado por um antigo líder da Seleka que explorava os recursos locais.
Angariava assim recursos para pagar aos combatentes e adquirir armamento. No último ano, as facções começaram a atacar-se entre si, obrigando setenta mil pessoas a fugir.
Eu e o fotógrafo Marcus Bleasdale resolvemos investigar de que maneira estes recursos se transformaram na seiva que dá vida às próprias forças causadoras da sua divisão. Decidimos visitar Bambari, a segunda maior cidade centro-africana depois de Bangui e vanguarda do território controlado pelos antigos chefes da Seleka. 

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