Coração de África dilacerado pelo conflito

A República Centro-Africana é um dos mais belos países do continente. Como foi possível a transformação num Estado falhado?

Texto Peter Gwin   Fotografia Marcus Bleasdale

 

Num bairro da capital, Bangui, ergue-se o fumo de um incêndio. Em 2014, as milícias chefiadas por cristãos atacaram os rebeldes predominantemente muçulmanos que tinham derrubado o governo. As duas religiões tinham coexistido numa paz relativa, mas nos últimos quatro anos o caos tem reinado no país. 

 Para chegar à casa do artista das borboletas, é preciso percorrer um labirinto de casas em tijolos de adobe, junto do rio Oubangui, de águas acastanhadas. Há quatro anos, rebeldes muçulmanos e milícias cristãs devastaram esta zona, combatendo pelo controlo de Bangui, a capital da República Centro-Africana. Actualmente, crianças jogam futebol aqui e escutam-se os pregões dos vendedores. Por baixo desta camada de normalidade, a cidade continua atormentada pela violência e os seus habitantes não baixam a guarda, atentos ao som dos disparos ou ao voo de helicópteros militares. 
Philippe Andé mantém-se indiferente a tudo. Este homem esguio debruça-se sobre uma mesa de trabalho coberta de asas de borboleta, numa constelação de cores eléctricas, formas extravagantes e padrões exóticos. Há 597 espécies identificadas na República Centro-Africana e é frequente caminhar rodeado por uma nuvem destas criaturas silenciosas e esvoaçantes. Philippe é agricultor. Captura-as nos campos e encarrega os rapazes de apanhá-las nas colinas e junto do rio. 

De pinças, lâmina e cola em punho, dispõe laboriosamente as finíssimas asas de maneira a compor cenas deslumbrantes da vida centro-africana.

De pinças, lâmina e cola em punho, dispõe laboriosamente as finíssimas asas de maneira a compor cenas deslumbrantes da vida centro-africana. Cada recriação faz lembrar uma janela de vitrais em miniatura. Um homem captura peixes pintalgados de verde num rio azul-turquesa. Mulheres de vestidos cor de laranja, com bebés adormecidos presos às costas, trituram mandioca e transformam-na em farinha. Um rapaz trepa a uma árvore para colher cocos. Vêem-se campos de algodão, retratos de elefantes, gorilas, papagaios, antílopes. Até há um diamante facetado, a exportação mais famosa do país. 
Esta é a República Centro-Africana que Philippe prefere lembrar quando cerra os olhos: o país anterior a 2013, ano em que a Seleka — uma aliança maioritariamente constituída por grupos muçulmanos rebeldes — assolou o território, pilhando, violando, matando e incendiando os sítios por onde passava. Derrubou o governo corrupto dominado por cristãos e desencadeou uma guerra civil brutal, ainda hoje latente, responsável pela morte de milhares de pessoas e pela deslocação de um milhão de pessoas, gerando escassez de alimentos. 
Para falar com franqueza, os quadros encantadores de Philippe representam algumas das minhas próprias impressões idealizadas da República Centro-Africana. O país despertou-me a atenção quando o vi representado num mapa de conservacionistas: uma ilha de verde aproximadamente com a área de França. Soube então que vastas extensões de terra e as suas florestas permaneciam desabitadas por humanos e nelas pululavam os animais selvagens. Sob esta abundância, jaz uma imensidão de recursos, incluindo diamantes, ouro, urânio e, possivelmente, petróleo. Seria razoável esperar que um país tão escassamente povoado (somente cinco milhões de habitantes) estivesse a prosperar. Mas estava a fracassar. Porquê? Essa pergunta tem-me atormentado nos últimos três anos, durante as minhas reportagens sobre aquilo a que os centro-africanos chamam a Crise, o termo que escolheram para designar a guerra e o caos que se seguiu. 

Uma rapariga cristã chora a morte da irmã, abatida em 2014 durante combates de rua perto de sua casa em Bangui. Apesar das forças de manutenção da paz da ONU, muçulmanos e cristãos continuam a lutar. Há também grupos rivais de rebeldes muçulmanos. 

 Na minha primeira visita a Bangui, em 2014, fiz essa pergunta a um oficial do exército francês, sentado a meu lado num voo da Air France prestes a descolar de Paris. O assunto pode ser delicado para os franceses, que colonizaram o país no decurso da corrida europeia a África, no século XIX. A República Centro-Africana conquistou a independência em 1960, mas os franceses mantiveram-se profundamente envolvidos nos assuntos desta nação. Actualmente, os centro-africanos ainda dependem da petrolífera francesa Total para obter grande parte do combustível que consomem e a divisa utilizada no país é suportada pelo Tesouro francês. 
O oficial, homem de ombros largos, partia para a sua segunda missão de paz no país. “A logística é um enorme problema”, disse, abanando a cabeça. Descreveu a maneira como, durante a estação das chuvas, entre Maio e Outubro, as aldeias do Nordeste pantanoso ficam isoladas, cortando as rotas comerciais. “No Norte, a economia não consegue crescer e as pessoas estão zangadas”, afirmou. “Foi lá que a Seleka nasceu.”
Nesse momento, fomos interrompidos pelos gritos de uma mulher prestes a ser deportada. Fora escoltada por dois agentes da polícia e algemada ao banco. Estrebuchava para libertar-se das algemas e gritava. Os outros passageiros eram um misto de centro-africanos de regresso ao seu país, elementos da força de manutenção da paz, trabalhadores da ajuda humanitária e diplomatas.

Nesse momento, fomos interrompidos pelos gritos de uma mulher prestes a ser deportada. Fora escoltada por dois agentes da polícia e algemada ao banco.

As palavras da mulher inquietaram os centro-africanos. “Ela é uma feiticeira”, queixou-se um homem. “Está a rogar uma praga ao avião”, disse outro. Os assistentes de bordo esforçaram-se por acalmar os passageiros, mas pouco depois vários deles tentavam retirar as malas das bagageiras e pediam para desembarcar. Após um atraso de uma hora, o piloto ordenou aos agentes da polícia que retirassem a mulher do avião. Anunciou que, devido ao atraso, teríamos de pernoitar nos Camarões. “Não se pode aterrar em Bangui de noite porque as luzes do aeroporto não funcionam”, explicou. O oficial inclinou-se e disse: “E também por não ser seguro viajar pela estrada do aeroporto à cidade, durante a noite.” E fazendo um esgar de descontentamento: “É assim que as coisas funcionam na República Centro-Africana.”
Num dos meus primeiros dias em Bangui, o guia conduziu-me a uma praça com seis estátuas pintadas de dourado. Explicou-me que ali se ilustrava toda a história que eu precisava de conhecer. A praça presta homenagem aos seis homens que lideraram o país desde o movimento pela independência até ao início da Crise. 
As estátuas apresentavam-se lascadas e viam--se cabras a mordiscar ervas que cresciam nas fendas do pavimento em redor. “Este é Barthélémy Boganda”, começou, apontando para a primeira estátua, como professor numa sala de aula. “Ele está para os centro-africanos como George Washington e Martin Luther King, Jr. para os norte-americanos.”

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