Os escravos do século XXI pela lente de Jodi Cobb

O título não é uma metáfora. Falamos mesmo de escravos. Não de seres humanos que vivem como escravos, trabalhando por um salário miserável. Não são também os escravos de há 200 anos. Falamos dos 27 milhões de pessoas que, em todo o mundo, incluindo Portugal, são compradas e vendidas, exploradas e brutalizadas para dar lucro. São os escravos do século XXI. As fotografias da reportagem resultam do trabalho desenvolvido por Jodi Cobb, durante o ano de 2003. A autora é uma das oradoras do National Geographic Summit no dia 25 de Maio, em Lisboa.

Texto Andrew Cockburn   Fotografia Jodi Cobb

cobb abertura

"O inferno na terra", foi a forma como Jodi Cobb descreveu esta fábrica de tijolos em Sadanandapur, na Índia. Os trabalhadores são escravos por dívidas que passam de pais para filhos e perpetuam-se no tempo. "Naquele local, o vento atirava-nos pó para a cara. Era a miséria absoluta. Eu sofri algumas horas, mas aquela gente sofre a vida inteira", diz Jodi.

O castelo de Sherwood, quartel-general de Milorad Milakovic, antigo funcionário dos caminhos-de-ferro da Bósnia que conquistou fama como traficante de escravos, ergue-se junto à estrada principal, mesmo à saída da cidade bósnia de Prijedor. Sob as muralhas de estuque, a entrada é guardada por musculosos jovens tatuados; ali perto, os animais de estimação de Milakovic - três tigres-da-sibéria - passeiam de um lado para outro dentro do seu recinto enjaulado.
Numa cinzenta manhã de Primavera, cheguei ao castelo - sozinho, porque nenhum guia local ou intérprete se atreveu a acompanhar-me. O robusto anfitrião, de 54 anos, aguardava-me junto de uma piscina coberta de vidro, cor de água-marinha, sentado à mesa já preparada para o almoço.
O senhor de Sherwood nunca escondeu o negócio a que se dedica. Certa vez, perguntou a uma audaz activista dos direitos humanos que divulgara em pormenor o seu historial como comprador de mulheres para os bordéis que possui em Prijedor: "É crime vender mulheres? Também se vendem jogadores de futebol, não é?"

cobb 2

O corpo de uma mulher pode ser vendido vezes sem conta. Os donos de bordéis israelitas, como este em Telavive, podem comprar jovens da Moldávia ou da Ucrânia por cerca de 3.500 euros. Mesmo um pequeno negócio com dez prostitutas pode render milhões de euros por ano. Fazendo-se passar por recrutadores de mão-de-obra, os traficantes vão buscar as vítimas às cidades pobres da Europa de Leste, atraindo-as com promessas de bons empregos. Quando as mulheres chegam, são entregues a compradores que, por norma, as espancam, violam ou aterrorizam para garantir obediência.

Milakovic ameaçou de morte a activista pela sua franqueza, mas comigo não foi tão agressivo. Enquanto comíamos uma salada de marisco acompanhada de bifes, junto à piscina, discutimos o fluxo de jovens mulheres que fogem à situação económica de penúria dos seus países de origem, no antigo bloco soviético. Milakovic declarou estar ansioso por promover um esquema de legalização da prostituição na Bósnia - "para parar com a venda de seres humanos, porque todas estas raparigas são filhas de alguém".
Uma dessas filhas é Victoria, loura míope e fumadora inveterada que, aos 20 anos, já se assume como veterana do comércio internacional de escravos. Durante três anos, foi mais uma dos cerca de 27 milhões de homens, mulheres e crianças escravizados em todo o mundo - confinados ou fisicamente restringidos e obrigados a trabalhar, controlados por meio da violência ou de alguma forma tratados como propriedade de alguém.

cobb 6

Estas mulheres vivem numa jaula com 2 metro por 1. Em Bombaim, na série  de bordéis que ladeiam a rua de Falkland, as raparigas mais jovens e bonitas são exibidas em jaulas ao nível da rua  para atrair clientes. Muitas mulheres são despejadas por traficantes nestas colmeias, mas muitas também são definitivamente vendidas pelos pais ou pelos maridos. Cerca de 50 mil mulheres - metade das quais são despachadas a partir do Nepal através da Índia,trabalham como prostitutas na cidade. A violência, as doenças, a subnutrição e a falta de cuidados médicos reduzem a sua esperança de vida para menos de 40 anos.

A odisseia de Victoria começou aos 17 anos, ao finalizar o liceu em Chisinau, a decadente capital da antiga república soviética da Moldávia. "Não havia trabalho nem dinheiro", explicou com franqueza. Por isso, quando um amigo - "pelo menos julguei que era amigo" - lhe propôs ajudá-la a arranjar um emprego numa fábrica da Turquia, ela agarrou-se à ideia e aceitou que ele a levasse de carro até lá, atravessando a Roménia. "Quando percebi que o carro ia para oeste, rumo à fronteira com a Sérvia, compreendi que algo estava errado."
Tarde de mais. Chegada à fronteira, foi entregue a um grupo de sérvios que lhe fabricaram um novo passaporte, onde se declarava ter 18 anos. Levaram-na para a Sérvia a pé e violaram-na, ameaçando-a de morte se resistisse. Depois, enviaram-na sob escolta para a Bósnia, a república balcânica que então estava a ser reconstruída com remessas maciças de ajuda internacional, após anos de guerra civil e genocídio.

Recita o nome de clubes e bares em várias cidades onde a obrigaram a dançar seminua, mostrar boa disposição e ter relações sexuais com qualquer cliente que a quisesse.

Victoria transformara-se num bem alienável e, nessa qualidade, foi comprada e vendida dez vezes por vários donos de bordéis ao longo dos dois anos que se seguiram, por um preço médio de 1.320 euros. Por fim, grávida de quatro meses e temendo que a obrigassem a abortar, fugiu. Encontrei-a escondida na cidade bósnia de Mostar, onde fora acolhida por um grupo de mulheres.
Num tom monótono e suave, Victoria recita o nome de clubes e bares em várias cidades onde a obrigaram a dançar seminua, mostrar boa disposição e ter relações sexuais com qualquer cliente que a quisesse, pelo preço de alguns maços de cigarros. "Os clubes eram todos horríveis, embora o Artemdia, em Banja Luka, fosse o pior - todos os clientes eram polícias", recorda.
Victoria tornou-se escrava por dívidas. O pagamento recebido pelos serviços prestados era integralmente entregue ao seu dono do momento para amortizar a "dívida" - a quantia que ele pagara ao proprietário anterior pela sua compra.

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar