Um tesouro no Funchal que não precisa de mapa secreto

No passado, para encontrar tesouros, era necessário desencantar de um baú um mapa secreto, amarelecido pelos anos, onde o local estaria marcado por um X. Na Madeira, é mais simples. Basta perguntar pela Sé.

Texto e Fotografia António Luís Campos

Cerca de quinhentos anos depois da sua concepção, as pinturas do retábulo da Sé do Funchal voltam a ganhar vivacidade e redescobrem-se pormenores perdidos, encobertos pelo fumo das velas, pela maresia e pela passagem do tempo. A equipa de conservação e restauro espera encontrar pistas sobre a autoria das principais pinturas desta obra de arte flamenga, instalada em pleno oceano Atlântico.

Uma das mais espectaculares pinturas do retábulo-mor da Sé do Funchal é a Descida da Cruz, mas, naquele dia, os historiadores e os especialistas em conservação e restauro não estavam ali para admirar a produção artística. Algo naquele quadro não batia certo. Na Bíblia, são famosas as Três Marias, que acompanharam Maria de Nazaré, mãe de Cristo, quando este foi retirado da cruz. No entanto, na pintura flamenga que durante quatrocentos anos esteve à frente dos olhos dos crentes funchalenses, Maria de Nazaré não estava representada. Havia outros indicadores de anormalidade. Após a abertura de uma janela de limpeza, uma das Marias estava estranhamente pintada. A escala, a tonalidade e o estilo de pintura eram diferentes das outras duas.

Uma das mais espectaculares pinturas do retábulo-mor da Sé do Funchal é a Descida da Cruz.

Com recurso a radiografia de raios X e a um sistema que implicou a colocação de placas fotossensíveis no verso da estrutura do retábulo, atrás deste quadro, foi possível identificar uma primeira pintura, a original, debaixo do borrão preto que existe agora. Nessa representação, criada por um ou mais artistas flamengos desconhecidos, Maria surgia prostrada e uma das mulheres ajoelhadas amparava-a. Porque teria esta figuração desaparecido na pintura?
A história fornece pistas, forçando-nos a recuar ao século XVI. A Sé foi oferecida por Dom Manuel I (1469-1521) ao Funchal na década de 1490. Projecto demorado, foi concluído em 1514, seis anos depois da elevação da vila a cidade. O retábulo-mor data de 1510 a 1515 e a figuração religiosa revelada pela análise científica remonta a este período. Três décadas depois, porém, a Igreja Católica organizou um dos mais importantes debates ecuménicos da sua história, marcando posição sobre a emergência do protestantismo. No Concílio de Trento, de 1545 a 1563, entre outras doutrinas, foi decidido que a mãe de Cristo não deveria voltar a ser representada deitada, mas sim de pé, na arte religiosa. Alguém no Funchal, terá levado a recomendação à letra, e repintou o óleo original, “apagando” Maria deitada. Mas isso levantava um problema: a outra mulher não podia amparar um vulto inexistente. Logo, foi também ela repintada, em pé. O artista não era, infelizmente, tão talentoso quanto o original, razão pela qual as suspeitas se levantaram e confirmaram. Quem diria que um projecto de restauro poderia ter um enredo digno de um episódio de “CSI”?

Da varanda do edifício do Museu de Arte Sacra do Funchal, vê-se a torre da Sé, sobranceira à baixa da cidade. 

Aqui, bem no centro do Funchal, até há pouco tempo à vista dos olhares do público mas paradoxalmente escondido há centenas de anos, o tesouro artístico está a ser lentamente desenterrado, na forma de uma das mais belas obras-primas da arte antiga portuguesa: o impressionante retábulo da Sé do Funchal, a primeira catedral atlântica e, à época, sede da Diocese da Madeira e de Goa.
Exemplo maior da pintura seiscentista, tudo nele é superlativo: a quantidade de painéis, o rendilhado dos baldaquinos, a dimensão e imponência da estrutura. Resultado de uma encomenda régia, representa a importância dada pelo rei à Madeira e ao seu poder económico conseguido pelos canaviais de açúcar no século XVI, que alimentaram uma profusão de obras de arte de tal forma numerosa que, ainda hoje, a colecção do Museu de Arte Sacra do Funchal rivaliza com as melhores do país. 

A produção do retábulo, nas famosas oficinas de arte da Flandres, demorou dois anos e o resultado foi uma arquitectura modular que conta com capitéis, púlpitos, pilares e colunas.

A produção do retábulo, nas famosas oficinas de arte da Flandres, demorou dois anos e o resultado foi uma arquitectura modular que conta com capitéis, púlpitos, pilares e colunas. A estrutura de suporte do retábulo foi criada em pinho da Madeira e as esculturas e talha em carvalho do Báltico. No entanto, nenhum madeirense vivo alguma vez a viu no seu esplendor. Séculos de fumo de velas e incenso, a proximidade do mar e a deposição de pó foram roubando a vivacidade das cores e depositando um manto escuro que privava o público do seu encanto. Até Abril deste ano. 
Uma equipa de cientistas e restauradores quer reverter o processo, com o objectivo de resgatar ao tempo o último grande retábulo flamengo in situ. António Candeias é um dos investigadores que procura levantar o véu sobre esta estrutura. Coordenador geral do projecto, ele é químico de formação e traz para o projecto interrogações invulgares numa pesquisa histórica: “O retábulo constitui um nó górdio da pintura flamenga.
Há muitas questões por responder: quem foram os seus autores, que alterações foram feitas às pinturas iniciais, que técnicas foram utilizadas.” As questões não serão necessariamente respondidas com este projecto, mas o investigador sublinha a importância dos trabalhos para a valorização do património do arquipélago: “O retábulo é como uma aparição. Ninguém o ‘vê’ há trezentos ou quatrocentos anos. Será um reencontro da população com as pinturas.” 

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