A ingrata vida das viúvas em algumas regiões do globo

Em algumas culturas, a viuvez significa exílio, vulnerabilidade e abuso. As mulheres enlutadas começam agora a lutar por um novo estatuto.

Texto Cynthia Gorney   Fotografia Amy Toensing

ÍNDIA - Num abrigo de Vrindavan, conhecida como “cidade das viúvas”, Lalita (à direita) ostenta o cabelo cortado curto e o xaile branco, um antigo costume obrigatório. A gestora do abrigo Ranjana, uma viúva muito mais jovem, está menos constrangida pelos costumes tradicionais.

1. REGRESSO À VIDA, Vrindavan, Índia
Muito antes do nascer do Sol, as viúvas de Vrindavan apressam-se, através dos becos escuros e não pavimentados, tentando evitar as poças de lama e os dejectos de vaca. Há uma determinada calçada onde, todas as manhãs, voluntários instalam um grande fogão portátil e aquecem uma panela de chá. As viúvas sabem que têm de chegar lá bem cedo, sentar-se em esteiras de pano, levantar a bainha dos saris para não tocar na sujidade e descansar os cotovelos sobre os joelhos enquanto esperam. Se chegarem demasiado tarde, o chá já pode ter desaparecido. Ou o arroz branco já pode ter acabado no ponto de apoio seguinte, muitas vielas depois. “Não consigo andar depressa de manhã, não estou bem”, queixa-se uma delas. “Mas temos de ser rápidas. Não sabemos o que podemos perder.”

Algumas viúvas envolveram-se em saris coloridos, mas a maioria vestiu-se de branco. Na Índia, essa é a cor mais comum entre as mulheres que perderam maridos, recentemente ou há décadas.

Eram cinco horas e meia de uma madrugada fresca, sob o tom prateado da Lua. Algumas viúvas envolveram-se em saris coloridos, mas a maioria vestiu-se de branco. Na Índia, essa é a cor mais comum entre as mulheres que perderam maridos, recentemente ou há décadas. Na penumbra, moviam-se como cardumes, apressando-se em conjunto, inundando as esquinas – uma dúzia aqui, duas dúzias além.
Não há dados exactos sobre o número de viúvas em Vrindavan. Alguns relatórios calculam que sejam duas ou três centenas; outros referem dez mil ou mais. A cidade e as cidades dos arredores são um centro espiritual, repleto de templos dedicados ao deus hindu Krishna e ashrams, onde bhajans, as cantigas votivas, são entoadas durante o dia pelas viúvas empobrecidas que se agrupam lado a lado no solo. A santidade das bhajan dos ashrams é sustentada pelo canto constante e, embora esta seja nominalmente uma tarefa de peregrinos e sacerdotes, as viúvas obtêm refeições quentes, e talvez um tapete para dormir à noite, se entoarem os cânticos repetidamente, por vezes três ou quatro horas sem parar. 

BÓSNIA E HERZEGOVINA  - No 20.º aniversário do massacre de milhares de muçulmanos bósnios em Srebrenica, Advija Zukić, protegida do sol por sombrinhas, assiste ao funeral do marido Alaga. Peritos forenses trabalham ainda na identificação das vítimas.

Também vivem em abrigos, em quartos alugados partilhados e sob lonas à beira da estrada quando não são admitidas em instituições de apoio. Chegam aqui viúvas oriundas de toda a Índia, particularmente do estado de Bengala Ocidental, onde a fidelidade a Krishna é forte. Por vezes, chegam acompanhadas dos gurus nos quais confiam. Noutras ocasiões, são trazidas pelos parentes que depositam a viúva num ashram ou num canto da rua e depois partem.
O papel desempenhado pela mulher enviuvada na família termina. Uma viúva na Índia carrega para sempre o fardo de ter sobrevivido ao marido, está “fisicamente viva, mas socialmente morta”, nas palavras da psicóloga Vasantha Patri, de Deli, que escreveu sobre a situação difícil das viúvas da Índia. Como Vrindavan é conhecida por ser a “cidade das viúvas”, uma possível fonte de refeições quentes, de companheirismo e de razão de vida, há gerações que elas também chegam aqui sozinhas, em autocarros ou comboios. “Nenhuma de nós quer voltar para as nossas famílias”, declarou uma mulher chamada Kanaklata Adhikari, falando da sua cama no quarto que partilha com outras sete mulheres no abrigo. “Nunca falamos com as nossas famílias. Nós somos a nossa família.”

Na Índia, rapar o cabelo a uma viúva foi em tempos uma prática comum, uma forma de mostrar o fim da sua feminilidade.

Estava sentada por cima dos lençóis, com as pernas cruzadas à frente apesar de estarem contorcidas pela idade e pela doença e de apenas ser capaz de caminhar quase dobrada ao meio. O seu sari branco cobria frouxamente a área superior da cabeça. Na Índia, rapar o cabelo a uma viúva foi em tempos uma prática comum, uma forma de mostrar o fim da sua feminilidade. O cabelo da viúva Adhikari parecia ter sido rapado recentemente. “Mantenho-o assim porque o meu cabelo era dele”, diz, franzindo os olhos para os convidados, a estrangeira e o jovem intérprete, como que surpreendida pela pergunta. “Vem cá um barbeiro e corta-mo. A maior beleza de uma mulher está nos seus cabelos e nas suas roupas. O meu marido já não está entre nós. O que faria eu com ele?”
Quantos anos tem agora?, pergunto.
“96.”
E quantos tinha quando morreu o seu marido? 
“70.”
Estava em Vrindavan porque a fotógrafa Amy Toesing e eu visitámos, ao longo de um ano, extraordinárias comunidades de viúvas em três locais diferentes do planeta. Não queríamos explorar o luto privado, mas sim a forma como as sociedades podem forçar as mulheres a adoptar uma nova identidade após a morte do marido: passam a párias, exiladas, empecilhos, mártires e presas.

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