Este homem é o apóstolo contra o desperdício alimentar

Mais de metade dos alimentos do planeta são desperdiçados. Seriam suficientes para dois milhões de pessoas. Tristram Stuart é a face mais mediática do movimento de reaproveitamento de bens alimentares. No dia 25 de Maio vem a Lisboa falar no National Geographic Summit.

Texto Elizabeth Royte   Fotografias Brian Finke

Tristram Stuart é um activista e especialista em impactes ambientais e sociais do desperdício alimentar. A organização  ambiental que fundou, a Feedback, disseminou o seu trabalho por dezenas de países de todo o mundo, visando mudar a atitude da sociedade em relação ao desperdício de alimentos.

Tristram Stuart tem 24 horas para preparar uma refeição para 50 pessoas. Tem de planear uma ementa, comprar ingredientes e receber convidados numa cidade diferente da sua. Para complicar o que parece um desafio de reality show, tem de seguir uma regra singular: quase todos os ingredientes devem estar na iminência da rejeição por qualquer motivo.
Nesta altura, regressa à cidade de Nova Iorque depois de visitar uma exploração agrícola de New Jersey onde recolheu 30 quilogramas de curgete amarela considerada demasiado torta para venda pelos agricultores. Tristram sai do carro e irrompe como uma flecha numa padaria. Alto e louro, com um elegante sotaque britânico, inicia o seu discurso de dez segundos: “Dirijo uma organização que combate o desperdício de alimentos e estou a organizar um banquete amanhã, preparado com alimentos que não serão vendidos nem doados para caridade. Tem algum pão que possamos usar?” A padaria não tem, mas o funcionário dá-lhe duas bolachas de pepitas de chocolate partidas como prémio de consolação.

Milhares de toneladas de fruta e legumes frescos são rejeitados antes do fim da validade.Um movimento cívico internacional procura combater o desperdício alimentar.

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Tristram volta para o carro. Próxima paragem: o mercado de produtores locais de Union Square, onde avista um chefe de cozinha que embrulha peixe em quadrados de massa de brioche, aparando-os em meias luas. “Posso ficar com as pontas?”, pergunta Tristram, com um sorriso. O chefe não se comove e recusa. Vai usar os restos de massa. Inabalável, Tristram continua a caminhar, apresentando argumentos e acabando por conseguir folhas de beterraba, pedaços de trigo e maçãs.

O desperdício é considerado errado: afinal, quase 800 milhões de pessoas passam fome no mundo.

Dezoito horas mais tarde, um conjunto de chefes de cozinha e activistas discutem o assunto enquanto saboreiam a tempura de abóbora, os bolinhos de nabo e tofu e as massas de curgete em forma de espiral preparados pela chefe Celia Lam. Tristram cozinhou pouco, mas conseguiu, sem uma única reunião formal, encantar meia dúzia de pessoas, levando-as a conceber uma ementa, reunir ingredientes e depois preparar, confeccionar e servir uma refeição em troca de pouco mais do que a oportunidade de associação a uma das mais cativantes figuras do combate contra o desperdício de alimentos a nível internacional.
Em todas as culturas, o desperdício é considerado errado: afinal, quase 800 milhões de pessoas passam fome no mundo. Porém, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), desperdiçamos alimentos suficientes (cerca de 1.300 milhões de toneladas anuais) para alimentar mais do dobro dessas pessoas.

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