Mais de metade dos alimentos do planeta são desperdiçados. Seriam suficientes para dois milhões de pessoas. Tristram Stuart é a face mais mediática do movimento de reaproveitamento de bens alimentares. No dia 25 de Maio vem a Lisboa falar no National Geographic Summit.

Texto Elizabeth Royte   Fotografias Brian Finke

Tristram Stuart é um activista e especialista em impactes ambientais e sociais do desperdício alimentar. A organização  ambiental que fundou, a Feedback, disseminou o seu trabalho por dezenas de países de todo o mundo, visando mudar a atitude da sociedade em relação ao desperdício de alimentos.

Tristram Stuart tem 24 horas para preparar uma refeição para 50 pessoas. Tem de planear uma ementa, comprar ingredientes e receber convidados numa cidade diferente da sua. Para complicar o que parece um desafio de reality show, tem de seguir uma regra singular: quase todos os ingredientes devem estar na iminência da rejeição por qualquer motivo.
Nesta altura, regressa à cidade de Nova Iorque depois de visitar uma exploração agrícola de New Jersey onde recolheu 30 quilogramas de curgete amarela considerada demasiado torta para venda pelos agricultores. Tristram sai do carro e irrompe como uma flecha numa padaria. Alto e louro, com um elegante sotaque britânico, inicia o seu discurso de dez segundos: “Dirijo uma organização que combate o desperdício de alimentos e estou a organizar um banquete amanhã, preparado com alimentos que não serão vendidos nem doados para caridade. Tem algum pão que possamos usar?” A padaria não tem, mas o funcionário dá-lhe duas bolachas de pepitas de chocolate partidas como prémio de consolação.

Milhares de toneladas de fruta e legumes frescos são rejeitados antes do fim da validade.Um movimento cívico internacional procura combater o desperdício alimentar.

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Tristram volta para o carro. Próxima paragem: o mercado de produtores locais de Union Square, onde avista um chefe de cozinha que embrulha peixe em quadrados de massa de brioche, aparando-os em meias luas. “Posso ficar com as pontas?”, pergunta Tristram, com um sorriso. O chefe não se comove e recusa. Vai usar os restos de massa. Inabalável, Tristram continua a caminhar, apresentando argumentos e acabando por conseguir folhas de beterraba, pedaços de trigo e maçãs.

O desperdício é considerado errado: afinal, quase 800 milhões de pessoas passam fome no mundo.

Dezoito horas mais tarde, um conjunto de chefes de cozinha e activistas discutem o assunto enquanto saboreiam a tempura de abóbora, os bolinhos de nabo e tofu e as massas de curgete em forma de espiral preparados pela chefe Celia Lam. Tristram cozinhou pouco, mas conseguiu, sem uma única reunião formal, encantar meia dúzia de pessoas, levando-as a conceber uma ementa, reunir ingredientes e depois preparar, confeccionar e servir uma refeição em troca de pouco mais do que a oportunidade de associação a uma das mais cativantes figuras do combate contra o desperdício de alimentos a nível internacional.
Em todas as culturas, o desperdício é considerado errado: afinal, quase 800 milhões de pessoas passam fome no mundo. Porém, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), desperdiçamos alimentos suficientes (cerca de 1.300 milhões de toneladas anuais) para alimentar mais do dobro dessas pessoas.

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Nos arredores de Apartado (Colômbia), o activista Tristram Stuart examina bananas demasiado pequenas, compridas ou curvas para o mercado europeu. Os autóctones consomem bananas rejeitadas, mas os agricultores da região deitam fora todos os anos milhões de toneladas de fruta válida.

Para onde vai toda essa comida que corresponde a um terço da produção mundial? Nos países em desenvolvimento, grande parte perde-se após a colheita devido à falta de locais de armazenamento adequados, estradas em condições e refrigeração. Por outro lado, os países desenvolvidos desperdiçam mais alimentos no ponto mais avançado da cadeia de abastecimento, quando os comerciantes encomendam, servem ou apresentam alimentos em excesso e os consumidores deixam restos esquecidos no fundo do frigorífico ou deitam fora alimentos perecíveis antes de se estragarem.

A rejeição de produtos alimentares por razões estéticas deve-se frequentemente apenas à necessidade de mascarar previsões erradas ou a uma queda inesperada nas vendas.

O desperdício de alimentos também tem efeitos nocivos para o ambiente. A produção de alimentos que ninguém consome também desperdiça água, adubos, pesticidas, sementes, combustível e o solo necessário ao seu cultivo. As quantidades são relevantes: a nível global, um ano de produção de alimentos não consumidos gasta tanta água como o fluxo anual do Volga, o rio com maior caudal da Europa.
Estes números assustadores nem sequer incluem os desperdícios das explorações agrícolas, dos navios de pesca e dos matadouros. Se o desperdício alimentar fosse um país, seria o terceiro maior produtor de gases com efeitos de estufa do mundo, depois da China e dos EUA. Num planeta com recursos finitos, e que terá pelo menos mais dois mil milhões de residentes até 2050, esta extravagância é obscena, argumenta Tristram Stuart num livro recente.
Oitenta quilómetros a norte de Lima, no Peru, na vila agrícola de Huaral, Tristram saboreia um copo de sumo de satsuma acabado de espremer com Luis Garibaldi. O seu Fundo Maria Luisa é o maior produtor de tangerinas do país. Sentado à sombra de uma pérgula à beira da piscina, Tristram inclina-se para a frente e pergunta: que quantidade exporta? Quanto é rejeitado? Porquê? E o que acontece aos desperdícios?

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Trinta por cento da cultura de tangerinas de Huaral, no Peru, não satisfará os requisitos de exportação. A maioria dos produtos rejeitados será consumida localmente. A nível mundial, 46% da fruta e legumes não completa a viagem desde o produtor até à mesa.

Luis diz que 70% da colheita é exportada para a União Europeia e América do Norte, mas 30% não tem a dimensão, a cor ou a doçura adequadas, ou pode ter manchas, cicatrizes, arranhões, queimaduras solares, fungos ou aranhas. A maioria das peças de fruta rejeitadas vai para os mercados locais, onde Luis Garibaldi obtém apenas um terço do preço de exportação.
Na verdade, o Fundo Maria Luisa gera pouco desperdício, graças ao seu representante no Reino Unido, que inspecciona os carregamentos e negoceia com quaisquer compradores propensos a rejeitar a fruta por motivos estéticos. Segundo Luis Garibaldi, a rejeição de produtos alimentares por razões estéticas deve-se frequentemente apenas à necessidade de mascarar previsões erradas ou a uma queda inesperada nas vendas. De qualquer modo, espera-se que o produtor suporte o prejuízo.
Conduzimos 300 quilómetros para sul, passando por dunas de areia altas e cumeeiras erodidas pelo vento. Tudo é ocre e poeira até chegarmos a vales subitamente verdejantes com terras agrícolas irrigadas. São consequência de investimento estrangeiro, de acordos comerciais favoráveis, de mão-de-obra barata, de clima ameno e de um aquífero outrora generoso. Na região de Ica, Tristram entrevista um agricultor que abandona anualmente nos seus campos milhões de espargos demasiado finos ou demasiados curvos ou com pontas demasiado abertas para exportação. De seguida, um produtor diz-lhe que despeja anualmente mais de mil toneladas de tângeras da variedade Minneola com imperfeições ínfimas e cem toneladas de toranja num buraco tapado com areia situado atrás da sua unidade de embalagem.

PERDIDOS E DESCARTADOS: FRUTA E LEGUMES Todos os anos , cerca de 1.300 milhões de toneladas de alimentos não chegam a ser consumidos. Ao longo da cadeia de abastecimento, fruta e legumes perdem-se ou são desperdiçados. Estragando-se com facilidade e vulneráveis a oscilações de temperatura no seu trajecto do produtor até à mesa, também costumam ser os primeiros a ir para o lixo em casa.

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NA BARRICADA Os países industrializados perdem menos frutas e legumes na fase de produção, mas os seus consumidores desperdiçam mais. Nos países em desenvolvimento, perde-se mais durante a produção, mas os consumidores deitam menos comida fora. Gráfico Manuel Canales; Tony Schick. Fontes: FAO

As normas definidoras de categorias na indústria alimentar foram concebidas há muito tempo de modo a criar uma linguagem comum para a avaliação de produtos e mediação de conflitos entre produtores e consumidores. Também podem ajudar a reduzir o desperdício alimentar. Se os produtores forem capazes de separar os seus espargos ou tângeras em categorias definidas, têm mais possibilidades de encontrar mercados para os seus produtos “imperfeitos”. Os supermercados sempre tiveram liberdade de estabelecer as suas próprias normas, mas, nos últimos anos, as cadeias mais elegantes começaram a gerir os seus expositores como concursos de beleza, reagindo aos consumidores, dizem eles, que pretendem produtos platonicamente ideais: maçãs redondas e brilhantes, espargos direitos e de pontas bem apertadas.

“É tudo uma questão de qualidade e aparência”, explica Rick Stein. “E só a melhor aparência apela à carteira do consumidor.”

“É tudo uma questão de qualidade e aparência”, explica Rick Stein, vice-presidente do departamento de produtos frescos do Instituto de Marketing Alimentar. “E só a melhor aparência apela à carteira do consumidor.” Alguns dos produtos não apelativos serão doados a bancos alimentares, ou arranjados e utilizados nas refeições preparadas ou em saladas, mas a maioria dos alimentos em excesso do mercado grossista não é doada nem reciclada. Tristram aplaude algumas campanhas recentes de supermercados para a venda de produtos “feios” com desconto, mas prefere uma solução sistémica. “Seria muito melhor afrouxar as normas”, afirma, examinando um mar de citrinos peruanos abandonados para os quais não existe mercado secundário – feio ou qualquer outro.

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Em França um voluntário ajuda a salvar 500 quilogramas de batatas demasiado pequenas para a colheita mecânica. As batatas juntar-se-ão a cenouras, beringelas, e outros legumes na Praça da República, em Paris. Ali, os voluntários associados ao grupo Feedback de Tristram Stuart cortarão este tesouro, preparando uma refeição para 6.100 comensais. A organização Feedback já ajudou a organizar mais de trinta destes banquetes públicos em todo o mundo para aumentar a consciência pública em relação ao desperdício de alimentos e inspirar soluções locais.
A possibilidade desencadeia uma série de chamadas para os seus amigos mais recentes. “És mesmo fantástico”, diz-lhe um, de forma enfática. “Achas que conseguiríamos fazer?”

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Durante sete dias, Tristram deambula por quintas e unidades de embalagem, reunindo dados e amostras rejeitadas. Entre visitas, enfia-se, como um morcego, no banco traseiro de um carro e escreve febrilmente no computador. Trata dos aspectos logísticos da sua próxima viagem de investigação e, de seguida, aceita o convite do director-geral do Banco Alimentar do Peru para beber um copo. Segue-se uma reunião com outro salvador de alimentos acabado de chegar da cidade chilena de Santiago. Aparentemente, em todos os locais que Tristram visita, os seus interlocutores querem contar-lhe uma história odiosa de desperdício alimentar.
Com privação de sono e barba por fazer, Tristram permanece focado no seu objectivo. Entre a fumarada do trânsito, ele combina um encontro com um congressista peruano para anular leis fiscais que incentivam a eliminação dos alimentos em excesso em vez da sua doação. Enquanto descemos rapidamente por uma estrada serpenteante, ele escreve revisões a uma proposta de lei sobre redução de desperdício alimentar para o parlamento do Reino Unido e uma carta de apoio à expansão da autoridade de um organismo regulador no mesmo país.
De seguida, propõe a colegas a ideia de uma “sopa disco” em Lima, uma refeição comunitária preparada com ingredientes rejeitados, semelhante ao banquete de Nova Iorque, com a duração de quatro dias e capacidade para 50 a 100 pessoas.

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A associação Re-Food 4 Good existe em Portugal desde 2010 e coordena centenas de voluntários que procuram resgatar toneladas de comida para redistribuição nas respectivas comunidades com um baixo custo de operação. Há 24 centros de distribuição no país, directamente ligados aos parceiros do projecto. Os excessos alimentares de restaurantes, cantinas e outros serviços são recolhidos por voluntários e distribuídos nos centros ou noutros pontos de distribuição. As famílias com menor mobilidade recebem refeições no próprio domicílio.

É escandaloso perguntar-lhe isto, mas qual o objectivo da “sopa disco”, além de salvar alimentos? Tristram pretende promover a consciencialização e desenvolver uma noção de comunidade. Estes eventos funcionam. Enquanto recolhem, cortam e jantam, chefes de cozinha de Lima a Londres associam-se a organizações com fins de caridade desejosas dos seus restos. Em Portugal, a Cooperativa Fruta Feia, iniciada em 2013 na região de Lisboa e Vale do Tejo, salva todas as semanas quatro toneladas de fruta com formatos invulgares que seriam,  em princípio, rejeitadas pelos supermercados – este ano, há intenção de expandir o projecto para o Grande Porto. Empresários da Califórnia inventaram esquemas para salvar apenas fruta de aspecto singular. Grupos da sociedade civil fomentaram planos para uma rede de salvamento de alimentos no Quénia. Um cervejeiro belga foi encorajado a converter pão velho em cerveja comercializável.

Em Portugal, a Cooperativa Fruta Feia, iniciada em 2013 na região de Lisboa e Vale do Tejo, salva todas as semanas quatro toneladas de fruta com formatos invulgares que seriam,  em princípio, rejeitadas pelos supermercados

A organização de uma "sopa disco" em Lima parece um absurdo, uma vez que Tristram se encontra a cinco horas da cidade, tem uma reunião marcada para breve numa plantação de bananas colombiana, não dispõe de uma sala de jantar nem de uma cozinha e não tem orçamento nem comida. Mas os exemplos anteriores sugerem que ele terá sucesso.

Tristram Stuart nasceu em Londres há 38 anos e foi o mais novo de três rapazes. Vivia na cidade, mas aos 14 anos passou a residir permanentemente com o pai na região rural de East Sussex. Do outro lado do vale ficava a herdade que fora em tempos dos seus avós, uma propriedade enorme que, durante a Segunda Guerra Mundial, empregou uma legião de agricultores. Simon, o pai de Tristram, crescera no local e as suas histórias sobre a fertilidade dos terrenos fascinavam o filho mais novo.
Simon Stuart era um talentoso professor de inglês e um extraordinário naturalista. “Nunca conseguiríamos aprender tudo o que ele sabia”, recorda Tristram. “Por isso, eu e os meus irmãos separámo-nos. Um dedicou-se às aves, outro às libélulas e eu aos cogumelos.”
Ao viver muito longe da cidade mais próxima, mas psicologicamente perto da quinta auto-suficiente dos seus avós, Tristram foi definido por essa experiência rural. O pai tratava de uma horta de grandes dimensões e ele tratava de porcos e galinhas. Em troca de estrume, o pai dava-lhe as suas aparas de legumes. “Portanto, eu tinha ovos e carne e saía com os meus furões para caçar coelhos e veados”, conta. A despensa estava quase completa. Tristram começou a vender carne de porco e ovos aos pais dos colegas de escola, mas rapidamente percebeu que o custo da ração para os animais o levaria à falência. Estabeleceu uma rota regular: recolhendo batatas de aspecto esquisito e bolos velhos de lojas locais e da cozinha da sua escola. Em breve, descobriu quantos alimentos comestíveis a sua comunidade rejeitava diariamente.

O resgate de alimentos tornou-se uma questão de urgência internacional.

A consciência ambiental ia-se expandindo. Aos 12 anos, escreveu um ensaio comparando o uso de combustíveis fósseis ao consumo de cigarros – ambos autodestrutivos e viciantes. Depois de passar parte de um ano numa exploração francesa de gado, entrou para a Universidade de Cambridge, onde estudou literatura inglesa e sofreu a cruel experiência de sentir-se arrancado ao seu paraíso agro-ecológico. Na universidade, a comida era preparada “sem qualquer atenção por critérios sustentáveis”, afirma. Como forma de reacção, juntou-se a outros activistas da cidade universitária que jantavam alimentos recolhidos nos caixotes do lixo dos supermercados. Também bebia sidra obtida através da prensagem de maçãs oferecidas, partilhava partes menos cativantes de carne de porco e apanhava caracóis nos jardins dos amigos.

REDUZIR O DESPERDÍCIO: COMO AJUDAR Os países desenvolvidos são responsáveis pela maioria dos alimentos não consumidos que ficam nas prateleiras, nos restaurantes e nos frigoríficos domésticos. No gráfico, algumas opções para reduzir a pegada alimentar.

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A - Tome decisões ponderadas sobre produtos e quantidades. • Compre em lojas com produtos feios a preços reduzidos • Compre refeições preparadas, pois estas permitem aos supermercados utilizar produtos imperfeitos • Compre ingredientes congelados, que sofrem menos perdas entre a terra e o supermercado • Faça compras com frequência. Adquira produtos suficientes para poucos dias de cada vez  • Compre alimentos frescos em mercados de produtores locais.
B - Prescinda do tabuleiro da cantina. Com tabuleiro, desperdiça-se em média 32% mais do que levando o prato na mão. • Leve os restos para casa • Partilhe acompanhamentos para manter o tamanho das doses controlado • Peça a um funcionário que não lhe traga extras como pão e manteiga que não planeia comer • Incentive os restaurantes e as empresas alimentares a doarem os restos.
C - Pequenas alterações na cozinha podem reduzir a quantidade de comida que deita fora em casa. • Não acumule provisões em excesso e não cozinhe mais alimentos do que os necessários • Escolha uma noite por semana para comer restos • Não desista dos alimentos não consumidos. Congele ou enlate os restos. Use a fruta amachucada para fazer batidos • Tente não desperdiçar alimentos que consomem muita água, como a carne.
D - Empresas, escolas e governos podem encontrar formas de descartar menos alimentos. Há cursos de culinária só com esse fim. • Solicite à sua empresa ou ao seu estabelecimento de ensino medidas para reduzir o desperdício alimentar • Separe lixos e pressione o poder local para que um serviço de recolha de restos alimentares possa ser implementado, como já existe em vários concelhos portugueses • Consulte as sugestões do movimento Re-Food (www.re-food.org) e integre-se nas equipas de voluntários. Gráfico Manuel Canales.

Não me surpreende saber que Tristram se aventurou em tempos pelo teatro. “Gostava mesmo daquilo”, comenta, embora tal tenha acabado por “interferir no trabalho realmente importante de salvar o planeta”. Tinha discernimento suficiente para perceber o enorme potencial de persuasão existente nos alunos privilegiados que andavam a recolher embalagens de ricota por abrir nos caixotes do lixo. Nessa época, diz Stuart, nem os supermercados nem os organismos governamentais tinham políticas explícitas sobre o desperdício de alimentos. Isso estava prestes a mudar.

No livro  “Waste”, Tristram investigou as causas e os efeitos ambientais do desperdício alimentar em todo o mundo.

Em 2002, a recolha de produtos alimentares em caixotes do lixo praticada por Tristram atraíra atenção suficiente e ele produziu um documentário sobre desperdício alimentar transmitido pela BBC. Activistas de todo o mundo contactaram-no depois disso para criar parcerias visando o resgate de alimentos. Tristram apercebeu-se de que dispondo de dados suficientes sobre onde e por que razão ao certo se perdiam tantos alimentos ao longo da cadeia alimentar, poderia fazer algo em relação a isso. E assim foram semeadas as sementes do seu livro “Waste”, no qual investigou as causas e os efeitos ambientais do desperdício alimentar em todo o mundo.

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Um funcionário do Aria Resort and Casino, em Las Vegas, separa os ingredientes comestíveis dos não-comestíveis. A utilização de restos para alimentar animais não-ruminantes, como os porcos, permite reciclar nutrientes e eliminar algum metano que a comida geraria num aterro.

A obra foi aplaudida pelos críticos, mas Tristram sabia que o seu livro  repleto de estatísticas não seria lido por milhões de pessoas e ele queria desesperadamente o apoio de milhões de pessoas. Um dia, leu a instrução de Jesus no Evangelho de São João (6:12): “Alimentai os cinco mil e recolhei os bocados que sobraram, para que nada se perca”, entoa.
Iniciado em 2009, o projecto “Alimentar os 5.000” tornar-se-ia o evento de marca de Stuart – um banquete público gratuito inteiramente preparado com alimentos rejeitados. Estes encontros já foram reproduzidos em mais de trinta cidades. Milhares de pessoas participam nas refeições, os media adoram os eventos e os protestos públicos face ao desperdício aumentam exponencialmente. Tristram passou a ser convidado como orador, tecendo críticas duras aos actores mais poderosos da indústria.

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Na RC Farms, localizada a escassos 15 quilómetros da avenida principal de Las Vegas, porcos convertem excedentes de batata de uma fábrica local de processamento de alimentos em proteína que poderá chegar aos nossos pratos.

De onde provém a sua formidável autoconfiança? Nem sabemos por onde começar. Tristram é ambicioso, agressivo e narcisista. Mas também é eloquente, divertido e superiormente conhecedor do seu projecto. “Quando ele fala, queremos juntar-nos a ele”, diz Dana Gunders, especialista em desperdício alimentar do Conselho de Defesa dos Recursos Naturais. “É muito bom, não só a despertar a paixão nos outros, como a mantê-la, contribuindo para o exército de pessoas apaixonadas que querem fazer algo em relação ao desperdício alimentar.”
Tristram aproveita todas as oportunidades para consumir alimentos menos desejáveis, de modo a tentar manter os produtos não cobiçados longe dos caixotes do lixo e a incentivar comportamentos positivos. Na sua primeira manhã no Peru, comeu sangue de galinha solidificado ao pequeno-almoço. “Nunca tinha provado”, afirma satisfeito. Ao almoço, delicia-se com um porquinho-da-índia. No segundo dia, pede tripa de vaca e, no terceiro, língua. O seu carnivorismo machão é de tal ordem que quando Tristram me diz que comeu “bolas fritas” num almoço apressado no aeroporto, presumo que esteja a falar em testículos. Acabei mais tarde por saber que tratava de uma espécie de pastéis de batata.
Todas as reuniões que promove com a indústria traduzem-se em unidades: quilogramas, toneladas, contentores, paletes, percentagens rejeitadas, produtos recuperados, descartados. O seu apetite por estas minudências é grande. “Quero conseguir dizer aos europeus que a sua preferência por espargos de pontas fechadas equivale a X milhões de hectares de terra, X milhões de litros de água e X milhões de quilogramas de adubo desperdiçado.” Respira fundo. “Preciso de chegar às notícias, de dizer às pessoas, de forma concisa, que as suas escolhas são importantes.”

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Chocado por saber que os EUA desperdiçam 30 a 40% dos seus alimentos enquanto uma em sete pessoas sofre de insuficiência alimentar, Doug Rauch, antigo presidente do Trader Joe's abriu um supermercado sem fins lucrativos em Dorchester, no estado e Massachusetts. O Daily Table vende, a preços reduzidos, fruta e legumes prestes a serem descartados por estarem demasiado perto do fim do seu apogeu de frescura. O supermercado também vende produtos excedentes a preços acessíveis e prepara refeições saudáveis. "A fome e os alimentos desperdiçados são dois problemas que podem ter a mesma solução", resume Doug.

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E são mesmo. Com os governos preocupados com a maneira como irão alimentar mais de nove mil milhões de pessoas até 2050, uma narrativa dominante exige um aumento da produção de alimentos de 70 a 100% a nível global. No entanto, a agricultura já representa uma das maiores ameaças à saúde do planeta. É responsável por 70% do consumo de água doce do planeta, 80% da desflorestação tropical e subtropical a nível mundial e 30 a 35% das emissões de gases com efeito de estufa geradas pelos seres humanos.

Tristram conheceu um agricultor obrigado a rejeitar semanalmente 40 toneladas de feijão-verde, brócolos, ervilha-torta e feijoca – alimentos suficientes para alimentar 250 mil pessoas

À medida que a população cresce e as economias emergentes desenvolvem gosto por carne e lacticínios, com consequências gigantescas no consumo de cereais e outros recursos em troca de pouco aporte calórico, estes valores agravar-se-ão. No entanto, segundo alguns peritos, pode não ser necessário converter mais terras bravias em campos de cultivo. Se reduzirmos o desperdício, se mudarmos a nossa dieta de modo a ingerirmos menos carne e lacticínios, se convertermos menos culturas alimentares em biocombustíveis e se aumentarmos as colheitas em terrenos com menor rendimento, poderemos conseguir fornecer uma alimentação saudável a mais de nove mil milhões de pessoas sem destruir mais florestas tropicais, revirarmos mais pradarias ou eliminarmos mais regiões pantanosas.
Tristram nunca perde de vista este cenário mais abrangente, mas sabe que as mudanças de paradigma são morosas. É por isso que se encontra no deserto, nas traseiras de uma unidade de embalagem da Ica, bombardeando com perguntas Luis Torres, o director-geral da Shuman Produce Peru. Na ausência de mercado local para os produtos que não consegue exportar, Torres elimina anualmente 1,5 milhões de quilogramas de cebolas pequenas ou não perfeitamente esféricas. Contudo, sente relutância em culpar os consumidores pelo prejuízo.
“Se eu me queixar, o supermercado arranja outro agricultor”, diz, encolhendo os ombros. “Sou uma pessoa prática. Não posso fazer nada para mudar as regras." De pés afastados e braços cruzados, Tristram responde: “Mas eu posso.”

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COMIDA FEIA Todos os anos cerca de 2.500 milhões de quilogramas de fruta e legumes norte-americanos ficam por colher ou não são vendidos, por razões estéticas. A Imperfect, uma empresa sediada na Califórnia, compra produtos feios aos agricultores e fornece-os, a baixo custo, a mais de mil subscritores dos seus serviços na região de São Francisco. As cadeias retalhistas dos EUA e da Europa também têm tido sucesso na venda de fruta e legumes de aspecto diferente a preços reduzidos. “Estamos a redefinir a beleza”, afirma Ron Clark, um dos fundadores da Imperfect.

Há três anos, Tristram passou uma semana na região rural do Quénia, em busca de ingredientes para um jantar formal em Nairobi, no qual o Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP) iria sublinhar o problema do desperdício de alimentos. A cento e cinquenta quilómetros da capital, Tristram conheceu um agricultor obrigado a rejeitar semanalmente 40 toneladas de feijão-verde, brócolos, ervilha-torta e feijoca – alimentos suficientes para alimentar 250 mil pessoas. Um ano mais tarde, Tristram e uma equipa de filmagens regressaram ao Quénia e descobriram que os agricultores estavam a rejeitar quase metade das suas colheitas nos campos e nas unidades de empacotamento. No cultivo de feijão-verde, perdia-se ainda mais produto devido à apara de ambas as extremidades de cada feijão sobrevivente. Os supermercados também cancelavam encomendas à última hora sem indemnizar os agricultores. Depois de a organização Feed-back divulgar publicamente as imagens dos feijões rejeitados e acusar as grandes cadeias de supermercados de transferirem os seus custos para agricultores destituídos de poder, os grossistas britânicos dispuseram-se a conversar. Acabaram por aceitar que suportariam os custos das encomendas canceladas e aumentariam o comprimento das embalagens de venda, possibilitando que o feijão-verde fosse cortado apenas numa das extremidades. Não só seriam desperdiçados menos alimentos e recursos, como os agricultores poderiam igualmente plantar menos hectares.

Cenouras e beringelas com duas pernas cantam: "Não ao desperdício de legumes!"

O relatório apresentado em 2015 pela Feedback sobre os feijões-verdes quenianos foi apenas um marco num ano de viragem. Em Setembro de 2015, a ONU comprometeu-se a reduzir o desperdício alimentar para metade até 2030 e, em Dezembro, a União Europeia publicou uma proposta de directiva ao abrigo da qual cada Estado-membro terá de tomar medidas para promover a prevenção do desperdício em linha com a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável. Os mecanismos exactos destes objectivos ambiciosos não foram divulgados, mas já há países e empresas a conceber e a adoptar sistemas de medição normalizados para quantificar o desperdício. Se o objectivo for cumprido, será poupada comida suficiente para alimentar pelo menos mil milhões de pessoas.
Numa tarde nublada de uma quinta-feira de Setembro, Tristram passeia num campo lamacento do Norte de França. Enfia as mãos no solo e retira várias batatas de pele fina, que, por serem do tamanho de berlindes, escaparam à máquina de colheita. Na próxima hora e meia, ele e uma equipa de respigadores vasculharão o solo. O objectivo é recolher 500 quilogramas de batatas para o evento “Alimentar os 5.000” de domingo, a realizar no ponto-chave do activismo cívico de Paris, a imponente Praça da República.
No dia seguinte, Tristram e outra equipa de voluntários lavam a enorme colheita no edifício abandonado que lhes serve de instalações no 12.º bairro da cidade. De tronco nu numa sala desarrumada tresandando a suor e a produtos hortícolas, Tristram repreende uma mulher por desperdiçar tempo lavando as batatas duas vezes. Sentindo-se maltratada, ela solta um insulto de duas palavras. Tristram responde: “É o que todos me dizem!”

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No centro comunitário de Benning Park, em Washington, o aluno do terceiro ano Kevin Boyd come um jantar pós-escolar servido pela DC Central Kitchen, uma organização sem fins lucrativos que treina chefes de cozinha e fornece diariamente onze mil refeições a populações cadenciadas. Quase metade destas refeições é confeccionada com alimentos que teriam de outra forma sido desperdiçadas. No centro, os alunos fazem os trabalhos de casa e aprendem como preparar refeições saudáveis. "Digo-lhe sempre: Não digas que não gostas antes de experimentares", conta a mãe de Kevin, Antoinette Boyd. 

No sábado, é altura de cortar. Reunindo-se no meio da praça, centenas de voluntários andam para trás e para diante ao longo de quatro horas, cortando aos pedaços cerca de 1.800 quilogramas de batatas, beringelas, cenouras e pimentos vermelhos – alguns recolhidos em explorações agrícolas, outros doados pelo mercado de venda grossista de Rungis. Os ajudantes transferem a refeição para taças de plástico gigantes e depois para sacos de plástico azuis. Às 5 horas da manhã de domingo, o chefe Peter O’Grady despeja o conteúdo dos sacos azuis em tanques de metal pela altura do peito colocados sobre bicos de fogão a gás.
Quando o meio-dia se aproxima, o parque fica repleto. Músicos actuam em palco e cenouras e beringelas com duas pernas desfilam e cantam: "Não ao desperdício de legumes!" Tristam não está. A sua presença é supérflua. Quando os 6.100 comensais começam a formar uma fila, os voluntários que irão servi-los equipam-se com luvas, chapéus e aventais. Ao meio-dia, o activista materializa-se. Sobe ao palco e pega no microfone. Agradece a todos os que tornaram o banquete possível, diz que o desperdício de alimentos é um escândalo, estabelece brevemente as ligações entre a agricultura e as alterações climáticas e depois retira-se do palco. Antes de terminar, grita: "Bon appétit". 

Veja o vídeo sobre desperdício alimentar no nosso canal Youtube

Reportagem originalmente publicação na edição de Março de 2016 (nº 180)

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