Evolução humana: o futuro pertence aos ciborgues

Como qualquer outra espécie, somos o produto de milhões de anos de evolução. A partir de agora, tomamos o controlo.

Texto D. T. Max   Ilustrações Owen Freeman

FUTURO PRÓXIMO: A ficção científica torna-se realidade - Há mais de 50 anos, dois cientistas cunharam o termo “ciborgue” para descrever um organismo imaginário – parte humano, parte máquina. Parecia ficção científica, mas hoje cerca de vinte mil pessoas têm implantes capazes de destrancar portas. Neil Harbisson só consegue distinguir cores se as transformar em sons audíveis através de uma antena implantada na sua cabeça. Ele vislumbra um futuro melhorado pelo aperfeiçoamento dos nossos sentidos com este tipo de tecnologia. “A visão nocturna dar-nos--ia a capacidade para nos adaptarmos ao ambiente”, diz. “Formatarmo-nos a nós próprios em vez de formatarmos o planeta. Formatar o planeta faz-lhe mal.”

Quando conheci o ciborgue Neil Harbisson, em Barcelona, pareceu-me um hipster, à excepção da antena que saía da parte de trás do seu crânio, desenhando um arco sobre o cabelo louro.

Estávamos em Dezembro e Neil, de 34 anos, vestia uma camisa cinzenta com fecho de correr, um casaco de marinheiro preto e calças cinzentas de corte justo. Nascido em Belfast e criado em Espanha, Neil padece de uma doença rara conhecida por acromatopsia: não consegue distinguir cores.
A sua antena, com um sensor de fibra óptica na extremidade que paira mesmo diante dos seus olhos, mudou essa limitação.
O sensor de fibra óptica capta as cores que vê diante de si e um microchip implantado no crânio converte as frequências em vibrações na parte de trás da cabeça.

Neil nunca pensou que a vida num mundo a preto e branco fosse uma deficiência. “Vejo até mais longe. Também memorizo formas com mais facilidade porque a cor não me distrai”, disse.

Neil, porém, tinha imensa curiosidade sobre o aspecto dos objectos a cores. Como lhe fora dada formação musical, no final da adolescência testou a possibilidade de descobrir a cor através do som. Após algumas falsas partidas, conheceu um cirurgião (que permanece anónimo) disposto a implantar-lhe um aperfeiçoamento cibernético na sua pessoa biológica.
O sensor de fibra óptica capta as cores que vê diante de si e um microchip implantado no crânio converte as frequências em vibrações na parte de trás da cabeça. Estas, por sua vez, convertem-se em frequências sonoras, transformando o crânio numa espécie de terceiro ouvido. Neil identificou correctamente a cor azul do meu casaco e, apontando a antena para a sua amiga Moon Ribas, disse que o seu casaco era amarelo. 
Quando perguntei a Neil de que maneira o médico fixara o dispositivo, ele separa alegremente o cabelo da parte de trás da cabeça para me mostrar o ponto de entrada da antena. A carne estava pressionada para baixo por uma placa rectangular com duas âncoras. Um implante ligado à placa segurava o microchip vibratório e o outro implante era um centro de comunicação Bluetooth, para que os amigos pudessem enviar-lhes cores através do telefone.

HÁ 12.500 ANOS: Evolução para viver em altitudes elevadas - Até há pouco tempo, pensava-se que a nossa espécie parara de evoluir num passado distante. A capacidade de espreitar o interior do genoma humano mostrou-nos que a biologia humana continua a mudar, adequando-se a determinados ambientes. A maioria das pessoas sente-se sem fôlego em montanhas altas porque os pulmões têm de esforçar-se mais para captar o reduzido teor de oxigénio ali existente. No entanto, os andinos possuem uma característica geneticamente determinada que permite à sua hemoglobina fixar mais oxigénio. As populações tibetanas e etíopes adaptaram-se de forma independente às suas altitudes elevadas, demonstrando que a selecção natural pode seguir vias diferentes para alcançar o mesmo objectivo: a sobrevivência. 

A antena tem sido uma revelação para Neil. Com o tempo, o estímulo deixou de se parecer com visão ou audição, assemelhando-se a um sexto sentido. Na verdade, a antena dota Neil com uma capacidade que mais nenhum de nós possui. Olhou para os candeeiros do terraço e sentiu que as luzes infravermelhas que os activam estavam desligadas. Passou os olhos sobre os canteiros e conseguiu “ver” as marcas ultravioletas que indicam a localização do néctar no centro das flores. Não se limitou a adquirir as capacidades normais dos humanos: superou-as. 
Neil representa um primeiro passo em direcção ao derradeiro objectivo dos visionários futuristas. A sua visão do futuro prende-se mais com a natureza do que com o silício. No entanto, a partir do momento em que se tornou o primeiro ciborgue oficial do mundo (conseguiu convencer o governo britânico a deixá-lo usar a antena na fotografia do passaporte, argumentando que não era um dispositivo, mas uma extensão do seu cérebro), também se tornou um proselitista. Moon Ribas não tardou a segui-lo naquilo que, por vezes, se apelida de transumanismo, ligando um monitor sísmico instalado no seu telefone a um íman vibratório implantado no braço. Moon recebe relatórios sobre sismos em tempo real, que lhe permitem sentir-se ligada aos movimentos da Terra e interpretá-los através da dança. “Acho que me senti invejosa”, afirma.
A antena de Neil Harbisson é claramente apenas um começo. Estaremos em vias de redefinir a forma como evoluímos? Será que a evolução implica agora não apenas a marcha lenta da evolução natural, disseminando genes úteis, mas também tudo o que pudermos fazer para aumentar os nossos poderes e os poderes das coisas que fazemos – uma combinação de genes, cultura e tecnologia? E, se sim, para onde nos conduz?

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