Em campos por toda a África, sacos de plástico, roupas velhas e pneus rasgados transformam-se em mágicas bolas de futebol. 

Texto Jeremy Berlin   Fotografia Jessica Hilltout

Em Chicome (Moçambique), a bola de Orlando é feita com sacos de plástico atados com casca de árvore. 

Os campos de jogo são áridos, irregulares, cheios de ervas daninhas, arenosos. Qualquer espaço plano é adequado. As balizas podem ser construídas com qualquer material. Alguns meninos jogam descalços, outros com botas, sandálias e ténis quase gastos. 
E mesmo assim as crianças pontapeiam e perseguem bolas artesanais e abauladas com destreza e entrega, competindo por brio, por alegria e pelo simples prazer de jogar. 
Alguma vez o “belo jogo” foi mais encantador? 

Um jogo no qual a paixão faz esquecer a pobreza e uma bola pode trazer a felicidade a uma aldeia inteira.

Jessica Hilltout acha que não. Em 2010, quando o Campeonato Mundial se disputou pela primeira vez em África, a fotógrafa residente na Bélgica decidiu partir em busca do que era o futebol longe dos estádios. Depois de sete meses, dez países visitados e mais de vinte mil quilómetros percorridos, descobriu um jogo no qual a paixão faz esquecer a pobreza e uma bola pode “trazer a felicidade a uma aldeia inteira”, diz.

Atados com corda, os sacos de plástico transformam-se numa bola em Bibiani, no Gana. 

Nas cerca de três dezenas de localidades que visitou, da África do Sul à Costa do Marfim, tudo serve para fazer uma bola: trapos ou peúgas, pneus ou casca de árvore, sacos ou preservativos insuflados. Podem durar dias ou meses num campo de gravilha ou de terra batida. Onde quer que fosse, Jessica Hilltout trocava bolas compradas em lojas por estas “pequenas jóias de engenho”, a maioria das quais feitas por crianças. 
O futebol tem um longo historial em África, diz Peter Alegi, escritor e professor de história. Em 1862, um ano antes de as regras internacionais do jogo serem definidas em Londres, já se disputavam partidas na Cidade do Cabo e em Port Elizabeth. 

 

Antes de começar o dia de escola em Gondola (Moçambique), Isaac, de 13 anos, demonstra a sua técnica de fabrico de bolas. Servindo-se de fio, trapos e um preservativo insuflado, faz uma bola de futebol em trinta minutos. 

O jogo propagou-se pelo continente através do colonialismo europeu, difundido por soldados e comerciantes, linhas férreas e escolas de missionários. Os habitantes locais adoptaram-no bem cedo, dando-lhe o cunho próprio de regras desportivas regionais autónomas. A partir de então, o futebol floresceu. “Se alguma coisa se pode salvar do encontro duro e desigual entre as culturas ocidentais e africanas, nessa lista deve incluir-se a chegada do futebol”, escreve David Goldblatt, historiador do futebol.
No último século, os jogadores africanos mudaram a face do jogo.

Em Kumasi, no Gana, as bolas de fabrico industrial abundam. Michael Sarkodie segura uma no campo do clube Anokye Stars, fundado por Sani Pollux em 1956.

À medida que os países declaravam independência, foram aderindo à Federação Internacional de Futebol (FIFA) e competindo no Campeonato do Mundo. Actualmente, milhares de “academias” de futebol africanas recrutam rapazes nas cidades, vilas e lugares distantes, onde as condições de jogo geram dureza, arrojo, controlo de bola e poder de improvisação. Um pequeno punhado consegue jogar na Europa ou integrar as selecções nacionais, mas a enorme maioria não atinge o escalão profissional.

Um troféu de plástico dourado é orgulhosamente exibido numa casa em Lomé, no Togo.

Esse, porém, não é o objectivo do “jogo em bruto” praticado nas zonas rurais, diz Abubakari Abdul-Ganiyu, técnico de clubes de jovens em Tamale, no Gana. “O futebol é a paixão colectiva neste país”, diz. “No decorrer de uma partida, pomos de lado as nossas zangas.” E acrescenta: “Fazemos o melhor para moldar os jovens e torná-los responsáveis na sociedade. Para nós, o futebol é um instrumento de esperança.” 
Jessica Hilltout concorda: “O futebol é o desporto mais democrático do mundo”, diz. “É acessível a todos. As pessoas que encontrei conseguem fazer tanto com tão poucos recursos. É fácil olhar para uma bola esfarrapada e sentirmo-nos tristes. O meu objectivo foi fazer-vos olhar para a bola e transmitir entusiasmo.” 

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Diários manuscritos ajudaram Jessica Hilltout a documentar o seu projecto. No início desta entrada, lê-se a promessa de regressar a África com bolas e equipamento novos. Um ano mais tarde, cumpriu.

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