Como os vikings conquistaram o mundo

Sim, eram brutais. Mas também escolhiam mulheres como líderes, cobiçavam riquezas e conheceram mais de cinquenta culturas. 

Texto Heather Pringle   Fotografia Robert Clark e David Guttenfelder

Usando um capacete adornado com penas, mais inspirado em fantasias do que em factos, um habitante das Shetland comemora o seu legado viking no festival de fogo anual Up Helly Aa. A festa inclui a queima da réplica de um drakkar. Fotografia Elliot Ross.

Uma chuva gélida cai sobre nós e trememos de frio nas ruas, aguardando o aparecimento do nobre viking e do seu grupo de salteadores. É uma noite desagradável de Janeiro na antiga cidade de Lerwick, nas ilhas Shetland, mas sente-se euforia no ar. 
Diante de mim, um homem com duas crianças pequenas ri-se ao vislumbrar uma névoa de fumo subindo pelo céu atrás do edifício da câmara municipal. “Parece que atearam fogo ao edifício inteiro”, grita. Foi o fogo que nos trouxe aqui. Hoje comemora-se o Up Helly Aa, a grande festa incendiária do passado viking nas Shetland. Como todas as outras pessoas presentes, vim aqui para ver um navio viking em chamas.

Os vikings desembarcaram pela primeira vez nestas costas rochosas do Norte do continente escocês há cerca de 1200 anos.

Enquanto o grupo armado do nobre e dezenas de outras pessoas irrompem rua afora, centenas de tochas ardem. A multidão solta um grito de deleite ao ver o elegante drakkar rebocado pelos salteadores. Os vikings desembarcaram pela primeira vez nestas costas rochosas do Norte do continente escocês há cerca de 1200 anos, esmagando a resistência local e apossando-se das terras. Durante quase sete séculos, nobres noruegueses governaram as Shetland até entregarem as ilhas a um rei escocês. Actualmente, o antigo dialecto norso (o norn) está quase esquecido nas Shetland, mas os ilhéus conservam um orgulho profundo no seu passado viking. Todos os anos, preparam obsessivamente o Up Helly Aa, montando, prancha a prancha, uma réplica de um navio viking.

Armados com lanças e espadas, participantes de uma reconstituição histórica confrontam-se numa batalha simulada durante uma festa em Wolin, na Polónia. Os pequenos grupos do início da época viking cresceram, transformando-se em exércitos que conquistaram vastas regiões da Europa. Ilustração David Guttenfelder.

Agora, enquanto os espectadores cantam músicas antigas sobre reis do mar e drakkars, os portadores de tochas rebocam o navio até um campo murado. Dado o sinal, uma saraivada de tochas incendeia o navio. O fogo sobe pelo mastro acima e fagulhas voam pelo céu nocturno.
Mais tarde, já de noite, começam os divertimentos a sério nas festividades e eu maravilho-me com o fascínio ainda exercido pelos vikings sobre a nossa imaginação. Mortos e desaparecidos há muitos séculos, estes navegadores medievais perduram nos mundos inventados de cineastas, novelistas e artistas de banda desenhada. 
Hoje em dia, a maioria das pessoas consegue enumerar pormenores imaginados sobre estes vikings – os seus combates e banquetes, como viviam e como morriam. Mas quanto sabemos, de facto, sobre os vikings? 
Actualmente, graças a formas avançadas de tecnologia – desde imagens recolhidas por satélite a estudos de DNA e análises de isótopos – há arqueólogos e outros cientistas a encontrar novas e surpreendentes respostas. Na Estónia, os cientistas estão a examinar cuidadosamente dois navios enterrados com guerreiros mortos, lançando nova luz sobre a violenta origem dos vikings.

Partindo das costas dos seus lares escandinavos, os vikings em busca de fortuna subiram ao palco mundial em meados do século VIII.

Investigadores na Suécia estudam os restos de uma mulher comandante viking. E, na Rússia, arqueólogos e historiadores estão a reconstruir as rotas dos comerciantes escandinavos de escravos, revelando a importância da escravatura na economia viking. Para os arqueólogos, começam a abrir-se portas para um mundo muito mais complexo e fascinante do que pensávamos. “Vivemos momentos excitantes na investigação viking”, afirma Jimmy Moncrieff, historiador do Shetland Amenity Trust, em Lerwick.
Os estudos mais recentes revelam uma nova imagem das ambições e do impacte cultural destes destemidos navegadores. Partindo das costas dos seus lares escandinavos, os vikings em busca de fortuna subiram ao palco mundial em meados do século VIII, explorando grande parte da Europa nos 300 anos seguintes e viajando mais longe do que os primeiros investigadores suspeitaram. Com navios elegantes e conhecimentos especializados dos rios e dos mares, visitaram territórios vastíssimos. Pelo caminho, contactaram com mais de cinquenta culturas e foram negociantes ávidos de bens de luxo. Vestiram cafetãs euro-asiáticos e seda chinesa e carregaram moedas islâmicas nos bolsos. Construíram cidades prósperas em York e Kiev, colonizaram grandes parcelas da Grã-Bretanha, Islândia e França e fundaram postos avançados na Gronelândia e talvez na América do Norte. Nenhuns outros navegadores europeus da sua época se afastaram tanto da sua terra natal. “Foram os únicos povos da Escandinávia a fazê-lo”, afirma o historiador Neil Price.

Descobertas recentes revelam que a guerra não era domínio exclusivo dos homens. A espada foi sepultada ao lado de uma mulher comandante. Fotografia Gabriel Hildebrand, Museu da História Sueca/CC.

No entanto, a exploração e o comércio não foram os seus únicos caminhos para a riqueza. 
Os vikings rondaram as costas da Bretanha e da Europa, atacando com brutalidade repentina e chocante. No Norte de França, navegaram pelo Sena e outros rios, lançando ataques e enchendo os navios com o fruto das suas pilhagens. Espalhando o terror por toda a parte, extorquiram quase 14% da economia do Império Carolíngio da Europa Ocidental em troca de promessas vãs de paz. Do outro lado do canal, em Inglaterra, incursões esporádicas deram lugar à guerra total, com um exército viking a invadir e conquistar três reinos anglo-saxões, deixando cadáveres a apodrecer nos campos.
Segundo Neil Price, a época viking “não é para corações fracos”. Mas como começou todo este caos? Que razões levaram os agricultores medievais da Escandinávia a transformarem-se na praga que afligiu o continente europeu? 

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar