Sim, eram brutais. Mas também escolhiam mulheres como líderes, cobiçavam riquezas e conheceram mais de cinquenta culturas. 

Texto Heather Pringle   Fotografia Robert Clark e David Guttenfelder

Usando um capacete adornado com penas, mais inspirado em fantasias do que em factos, um habitante das Shetland comemora o seu legado viking no festival de fogo anual Up Helly Aa. A festa inclui a queima da réplica de um drakkar. Fotografia Elliot Ross.

Uma chuva gélida cai sobre nós e trememos de frio nas ruas, aguardando o aparecimento do nobre viking e do seu grupo de salteadores. É uma noite desagradável de Janeiro na antiga cidade de Lerwick, nas ilhas Shetland, mas sente-se euforia no ar. 
Diante de mim, um homem com duas crianças pequenas ri-se ao vislumbrar uma névoa de fumo subindo pelo céu atrás do edifício da câmara municipal. “Parece que atearam fogo ao edifício inteiro”, grita. Foi o fogo que nos trouxe aqui. Hoje comemora-se o Up Helly Aa, a grande festa incendiária do passado viking nas Shetland. Como todas as outras pessoas presentes, vim aqui para ver um navio viking em chamas.

Os vikings desembarcaram pela primeira vez nestas costas rochosas do Norte do continente escocês há cerca de 1200 anos.

Enquanto o grupo armado do nobre e dezenas de outras pessoas irrompem rua afora, centenas de tochas ardem. A multidão solta um grito de deleite ao ver o elegante drakkar rebocado pelos salteadores. Os vikings desembarcaram pela primeira vez nestas costas rochosas do Norte do continente escocês há cerca de 1200 anos, esmagando a resistência local e apossando-se das terras. Durante quase sete séculos, nobres noruegueses governaram as Shetland até entregarem as ilhas a um rei escocês. Actualmente, o antigo dialecto norso (o norn) está quase esquecido nas Shetland, mas os ilhéus conservam um orgulho profundo no seu passado viking. Todos os anos, preparam obsessivamente o Up Helly Aa, montando, prancha a prancha, uma réplica de um navio viking.

Armados com lanças e espadas, participantes de uma reconstituição histórica confrontam-se numa batalha simulada durante uma festa em Wolin, na Polónia. Os pequenos grupos do início da época viking cresceram, transformando-se em exércitos que conquistaram vastas regiões da Europa. Ilustração David Guttenfelder.

Agora, enquanto os espectadores cantam músicas antigas sobre reis do mar e drakkars, os portadores de tochas rebocam o navio até um campo murado. Dado o sinal, uma saraivada de tochas incendeia o navio. O fogo sobe pelo mastro acima e fagulhas voam pelo céu nocturno.
Mais tarde, já de noite, começam os divertimentos a sério nas festividades e eu maravilho-me com o fascínio ainda exercido pelos vikings sobre a nossa imaginação. Mortos e desaparecidos há muitos séculos, estes navegadores medievais perduram nos mundos inventados de cineastas, novelistas e artistas de banda desenhada. 
Hoje em dia, a maioria das pessoas consegue enumerar pormenores imaginados sobre estes vikings – os seus combates e banquetes, como viviam e como morriam. Mas quanto sabemos, de facto, sobre os vikings? 
Actualmente, graças a formas avançadas de tecnologia – desde imagens recolhidas por satélite a estudos de DNA e análises de isótopos – há arqueólogos e outros cientistas a encontrar novas e surpreendentes respostas. Na Estónia, os cientistas estão a examinar cuidadosamente dois navios enterrados com guerreiros mortos, lançando nova luz sobre a violenta origem dos vikings.

Partindo das costas dos seus lares escandinavos, os vikings em busca de fortuna subiram ao palco mundial em meados do século VIII.

Investigadores na Suécia estudam os restos de uma mulher comandante viking. E, na Rússia, arqueólogos e historiadores estão a reconstruir as rotas dos comerciantes escandinavos de escravos, revelando a importância da escravatura na economia viking. Para os arqueólogos, começam a abrir-se portas para um mundo muito mais complexo e fascinante do que pensávamos. “Vivemos momentos excitantes na investigação viking”, afirma Jimmy Moncrieff, historiador do Shetland Amenity Trust, em Lerwick.
Os estudos mais recentes revelam uma nova imagem das ambições e do impacte cultural destes destemidos navegadores. Partindo das costas dos seus lares escandinavos, os vikings em busca de fortuna subiram ao palco mundial em meados do século VIII, explorando grande parte da Europa nos 300 anos seguintes e viajando mais longe do que os primeiros investigadores suspeitaram. Com navios elegantes e conhecimentos especializados dos rios e dos mares, visitaram territórios vastíssimos. Pelo caminho, contactaram com mais de cinquenta culturas e foram negociantes ávidos de bens de luxo. Vestiram cafetãs euro-asiáticos e seda chinesa e carregaram moedas islâmicas nos bolsos. Construíram cidades prósperas em York e Kiev, colonizaram grandes parcelas da Grã-Bretanha, Islândia e França e fundaram postos avançados na Gronelândia e talvez na América do Norte. Nenhuns outros navegadores europeus da sua época se afastaram tanto da sua terra natal. “Foram os únicos povos da Escandinávia a fazê-lo”, afirma o historiador Neil Price.

Descobertas recentes revelam que a guerra não era domínio exclusivo dos homens. A espada foi sepultada ao lado de uma mulher comandante. Fotografia Gabriel Hildebrand, Museu da História Sueca/CC.

No entanto, a exploração e o comércio não foram os seus únicos caminhos para a riqueza. 
Os vikings rondaram as costas da Bretanha e da Europa, atacando com brutalidade repentina e chocante. No Norte de França, navegaram pelo Sena e outros rios, lançando ataques e enchendo os navios com o fruto das suas pilhagens. Espalhando o terror por toda a parte, extorquiram quase 14% da economia do Império Carolíngio da Europa Ocidental em troca de promessas vãs de paz. Do outro lado do canal, em Inglaterra, incursões esporádicas deram lugar à guerra total, com um exército viking a invadir e conquistar três reinos anglo-saxões, deixando cadáveres a apodrecer nos campos.
Segundo Neil Price, a época viking “não é para corações fracos”. Mas como começou todo este caos? Que razões levaram os agricultores medievais da Escandinávia a transformarem-se na praga que afligiu o continente europeu? 

Um capacete equipado com cota de malha protegia um nobre da época viking, quando a Escandinávia foi devastada por conflitos. Fotografia Robert Clark, Fotografada em Gustavianum, Museu da Universidade de Uppsala.

Nos quase três séculos anteriores ao início dos ataques a costas estrangeiras, cerca de 750 d.C., a Escandinávia foi devassada por tumultos. Mais de três dezenas de reinos insignificantes surgiram neste período, erigindo rapidamente fortificações em colinas e competindo entre si. Uma enorme nuvem de poeira, possivelmente lançada na atmosfera por uma combinação de cataclismos – cometas ou meteoritos que embateram contra a Terra, bem como a erupção de pelo menos um vulcão de grandes dimensões – obscureceu o Sol a partir de 536 d.C., fazendo descer as temperaturas de Verão no hemisfério norte durante os 14 anos seguintes.

O frio e a escuridão prolongados trouxeram morte e ruína à Escandinávia, terra situada no extremo setentrional da agricultura medieval.

O frio e a escuridão prolongados trouxeram morte e ruína à Escandinávia, terra situada no extremo setentrional da agricultura medieval. Na região sueca de Uppland, por exemplo, quase 75% das aldeias foram abandonadas e os habitantes sucumbiram à fome e aos combates.
Este desastre assumiu proporções tão calamitosas que parece ter dado origem a um dos mais sombrios mitos mundiais – a lenda nórdica do Ragnarök, o fim da criação e a batalha final, em que morrem todos os deuses, todos os seres humanos e outras criaturas vivas. Dizia-se que o Ragnarök começaria com o Fimbulwinter, um período mortífero em que o Sol escurecia e o clima se tornaria desagradável – acontecimentos que se assemelham de forma sinistra ao véu de poeira que se abateu sobre a região em 536, afirma Neil Price.

Intérpretes históricos recriam vida numa casa longa reconstituída no Centro Viking de Ribe, na Dinamarca. A comida era confeccionada sobre o fogo da lareira e a gastronomia viking incluía arenque salgado, papas de cevada e cabeças de carneiro cozidas. Fotografia David Guttenfelder.

Quando o Verão regressou ao Norte, as populações recuperaram, a sociedade escandinava assumiu um novo molde, mais truculento. Os líderes fizeram-se rodear por grupos de guerreiros fortemente armados e começaram a conquistar e a defender territórios abandonados. Neste cenário, surgiu uma sociedade militarizada. Na ilha sueca de Gotland, onde os arqueólogos encontraram várias sepulturas intactas deste período, “quase metade dos homens pareciam estar sepultados com as armas”, comentou John Ljungkvist, arqueólogo da Universidade de Uppsala.
À medida que esta sociedade armada tomava forma, uma nova tecnologia começou a revolucionar a navegação escandinava no século VII – a vela. Carpinteiros habilidosos começaram a construir embarcações elegantes capazes de transportar grupos de guerreiros armados mais longe e mais depressa do que anteriormente. A bordo destes navios, os senhores do Norte e os seus seguidores irrequietos podiam viajar pelo Báltico e pelo mar do Norte, explorando novas terras, saqueando vilas e aldeias e escravizando habitantes. E os homens com poucas probabilidades de contrair matrimónio na sua terra natal podiam casar-se com mulheres cativas, recorrendo à persuasão ou à força.

À medida que esta sociedade armada tomava forma, uma nova tecnologia começou a revolucionar a navegação escandinava no século VII – a vela.

A soma de todos estes factores – séculos de ambição desmedida, uma aparente abundância de jovens guerreiros solteiros e um novo tipo de embarcação – gerou a tempestade perfeita. Estava montado o palco para os vikings saírem em massa do Norte, incendiando grande parte da Europa com o seu tipo particular de violência.
Por volta do ano 750, um dos primeiros grupos de vikings arrastou dois navios para um promontório arenoso na ilha de Saaremaa, na Estónia. Longe das suas casas nas florestas junto de Uppsala, na Suécia, os homens eram os sobreviventes ensanguentados de um ataque costeiro. Dentro dos navios, estavam os cadáveres amontoados de mais de quarenta vikings, incluindo um que poderia ter sido rei. Estavam todos no auge da vida – altos, musculados, robustos – e muitos tinham assistido a combates ferozes. Uns tinham sido esfaqueados ou golpeados até à morte, outros decapitados.

Navios de madeira elegantes como o Gokstad foram essenciais para o sucesso de mercadores e salteadores. Escavado em 1880 num túmulo, o navio do século IX deslocava-se com recurso a velas e 32 remadores. Fotografia Robert Clark, fotografado no Museu das Embarcações Viking, Museu de História Cultural, Universidade de Oslo.

Os sobreviventes deram início à abominável tarefa de recolher as várias partes dos corpos e recompor a maioria dos cadáveres sobre o casco do navio maior. Depois, cobriram os corpos com panos e improvisaram um monte funerário colocando os seus escudos de combate de ferro e madeira sobre os camaradas mortos.
Em 2008, uma equipa de operários que instalava um cabo eléctrico descobriu ossos humanos e pedaços de uma espada corroída e as autoridades chamaram os arqueólogos. “É a primeira vez que os arqueólogos conseguiram escavar algo claramente identificável como um ataque viking”, afirma Neil. E os guerreiros sepultados em Salme, na Estónia, morreram quase 50 anos antes de os escandinavos terem chegado ao mosteiro inglês de Lindisfarne em 793, há muito considerado o primeiro ataque viking.

As ruínas de uma casa viking nas ilhas Shetland recordam um passado glorioso. Depois de derrotarem os pictos, o povo local, os vikings reclamaram as melhores terras das Shetland. Trouxeram consigo as leis norsas e governaram durante quase setecentos anos até um rei escocês conquistar o arquipélago. Fotografia Robert Clark.

Os navios-túmulo de Salme criaram agitação entre os especialistas. “O aspecto que mais me impressionou foi a aglomeração de espadas”, diz Neil. A maioria dos investigadores presume que os primeiros grupos de ataque viking eram compostos por um punhado de guerreiros de elite armados com espadas e outro equipamento de guerra dispendioso e dezenas de agricultores pobres equipados com lanças baratas ou arcos longos. Mas não era assim em Salme. As sepulturas continham mais espadas do que homens, confirmando que, pelo menos, algumas expedições iniciais eram formadas por vários guerreiros de estatuto elevado.
Numa manhã de Janeiro num parque industrial sossegado a sul da cidade escocesa de Edimburgo, investigadores lideram o caminho abrindo as portas trancadas de um pequeno laboratório de conservação. Há mais de um ano que estes cientistas desempacotam as riquezas que um líder viking acumulou em ataques e saques a terras estrangeiras. Sepultado há cerca de 1.100 anos no Sudoeste da Escócia, o tesouro de Galloway é uma colecção de peças estranhas e maravilhosas, desde um lingote de ouro maciço a pedaços de brocado de seda trazidos do mundo bizantino ou islâmico. Olwyn Owen, uma arqueóloga especializada na época viking, comentou: “É uma descoberta extraordinária. Simplesmente incrível.”

Estas pregadeiras anglo-saxónicas (em cima) e este alfinete de ouro em forma de pássaro (em baixo) foram descobertos num tesouro enterrado por um viking rico na Escócia. Fotografia Robert Clark, com permissão da Autoridade Histórica e Ambiental da Escócia.

Um conservador expõe algumas raridades do tesouro. Vejo um alfinete fino de ouro com a forma de um pássaro. Parece um aestel, um pequeno ponteiro usado em tempos por membros do clero na leitura de textos sagrados. Ao lado está um pendente de filigrana de ouro, possivelmente concebido para segurar a pequena relíquia de um santo. Olwyn olha para nove jóias de prata, algumas com gavinhas rodopiantes e criaturas míticas, outras com estranhos rostos humanóides. Todas menos uma foram desenhadas para os anglo-saxões. “Por outras palavras, algum mosteiro ou povoação anglo-saxónica teve um dia muito mau”, resume  o especialista.
O líder viking que arrecadou estes tesouros tinha um fraquinho por coisas bonitas. Em vez de derreter o saque para fazer lingotes, este nobre viking reservou várias peças para a sua colecção pessoal de arte estrangeira e exótica. Os vikings, diz o arqueólogo Steve Ashby, da Universidade de York, apreciavam objectos requintados e algumas elites tinham gosto em possuir e usar estes símbolos de estatuto. “Os homens da classe alta eram muito vaidosos”, diz o arqueólogo. “Era uma sociedade que valorizava o consumo ostensivo.”

Sabe-se também que os líderes pintavam os olhos, usavam roupa com cores garridas e jóias grandes – torques, pregadeiras, braceletes e anéis.

Sabe-se também que os líderes pintavam os olhos, usavam roupa com cores garridas e jóias grandes – torques, pregadeiras, braceletes e anéis. Mas esta forma excessiva de se apresentarem tinha um objectivo concreto: cada objecto contava a história de uma aventura no estrangeiro, de actos de temeridade e coragem recompensados. Ao mostrar-se ornamentado com despojos da guerra, um viking era um anúncio de recrutamento em carne e osso para a vida como saqueador, atraindo os jovens a fazerem juramentos de fidelidade em troca de um quinhão do saque. “Se quisessem manter uma base de apoio, os líderes não podiam ser acanhados em relação às suas conquistas “, diz Steve Ashby.
No início da era viking, estes salteadores visavam sobretudo mosteiros situados em orlas costeiras ou ilhas. Dispunham, ao que parece, de informação obtida antecipadamente. Os comerciantes escandinavos já visitavam as costas da Bretanha e da Europa e não tardaram a descobrir que os mercados se localizavam habitualmente junto dos mosteiros. Passando pelas bancas, alguns podem ter vislumbrado os cálices de prata e ornamentos de ouro. “Não acho que seja preciso dar um grande salto mental até alguém pensar numa investida com más intenções”, diz Neil Price.

Equipados até aos dentes com armas de ferro, os salteadores atacavam rapidamente e matavam depressa, largando vela antes de os autóctones conseguirem organizar uma defesa.

Os primeiros grupos planearam os ataques para os meses de Verão e eram frequentemente compostos por um par de navios e talvez cem guerreiros. Equipados até aos dentes com armas de ferro, os salteadores atacavam rapidamente e matavam depressa, largando vela antes de os autóctones conseguirem organizar uma defesa. Em França, só no século IX, os vikings atacaram mais de 120 povoações, despojando igrejas dos seus tesouros e escravizando os sobreviventes. “Quem vivia no Noroeste de França no final do século IX, deve ter pensado que o mundo ia acabar”, afirma Neil Price.
Enquanto rios de metais preciosos fluíam até à Escandinávia, homens jovens acorriam aos salões dos líderes viking, ansiosos por jurar-lhes fidelidade. Aquilo que começou como pequenas incursões de saque com dois ou três navios evoluiu gradualmente para frotas com 30 embarcações e, posteriormente, muitas mais. Segundo a Crónica Anglo-Saxónica, centenas de navios chegaram à costa oriental de Inglaterra em 865, transportando uma corte voraz a que os cronistas chamaram micel here, o grande exército viking. Avançando para o interior, os invasores começaram a destruir reinos anglo-saxónicos e a apossar-se de grandes parcelas de terra para colonizar. 

Os guerreiros lutaram com espadas como esta, descoberta em Gnezdovo (Rússia). Os guerreiros cortavam os metais preciosos saqueados em pedaços que pudessem ser usados como moeda em transacções. No entanto, alguns vikings valorizavam os tesouros que roubavam pela sua beleza e como símbolos cobiçados de estatuto. Fotografia Robert Clark, peça fotografada no Museu Histórico Nacional, Moscovo.

Nos arredores da actual cidade de Lincoln, o arqueólogo Julian D. Richards, da Universidade de York, está a estudar um dos acampamentos de Inverno do grande exército. O acampamento, conhecido como Torksey, era suficientemente grande para alojar quatro mil pessoas, mas descobertas feitas no local indicam que o grande exército era mais do que uma força de combate. Os ferreiros derretiam o saque e os mercadores faziam negócios. As crianças corriam pelos campos enlameados e as mulheres tratavam das suas tarefas – que até podem ter incluído liderar homens em combate em algumas partes do mundo viking.
Um texto irlandês antigo relata como uma mulher viking apelidada de Inghen Ruaidh (ou Rapariga Ruiva, devido à cor do seu cabelo), liderou uma frota de navios até à Irlanda no século X. A arqueóloga Anna Kjellström, da Universidade de Estocolmo, reanalisou recentemente os restos osteológicos de um guerreiro viking descobertos no antigo centro mercantil de Birka, na Suécia. Os enlutados decoraram a sepultura com um arsenal de armas mortíferas e há décadas que os arqueólogos presumiam que o guerreiro fosse um homem. Ao estudar os ossos pélvicos e mandíbula, Anna concluiu que o homem era, afinal, uma mulher.

Ainda de pé, mil anos depois de ter sido erguida, a pedra rúnica de Anundshög, na Suécia, celebra o amor de um pai viking pelo seu filho, Heden. O destino do rapaz é desconhecido, mas à semelhança de muitos jovens do seu tempo, pode ter emigrado para uma colónia viking na Europa Ocidental ou Oriental. Fotografia Robert Clark.

Esta viking sem nome parece ter conquistado o respeito de muitos guerreiros. “Tinha peças de jogo sobre o colo”, comenta a arqueóloga Charlotte Hedenstierna-Jonson, da Universidade de Uppsala. “Isto sugere que era ela quem planeava as tácticas e que era uma chefe.”
As frotas que espalharam a morte e a destruição pela Europa Ocidental também transportaram escravos e mercadorias até zonas comerciais desde a Turquia à Rússia ocidental e possivelmente ao Irão. Funcionários medievais árabes e bizantinos descreveram comboios de traficantes de escravos e mercadores da Escandinávia armados conhecidos como rus que viajavam regularmente ao longo das rotas fluviais até ao mar Negro e mar Cáspio. “Nunca tinha visto corpos mais perfeitos do que os seus”, observou Ahmad Ibn Fadlan, soldado e diplomata árabe do século X de Bagdade. “Cada um carrega um machado, uma espada e um punhal.”

Os primeiros guerreiros atacaram com frequência mosteiros repletos de tesouros como este pendente de ouro, descoberto na Escócia. Fotografia Robert Clark, com permissão da Autoridade Histórica e Ambiental da Escócia.

Para obter mais esclarecimentos sobre este comércio meridional, os arqueólogos estão agora a escavar sítios junto das rotas de viagem para os mundos bizantino e muçulmano. Numa manhã de finais de Junho, cerca de 370 quilómetros a sudoeste de Moscovo, Veronika Murasheva, arqueóloga do Museu Histórico Nacional de Moscovo, caminha ao longo da margem do rio Dniepre, num local previamente ocupado por uma pequena cidade medieval. Fundada por vikings há mais de 1.100 anos, Gnezdovo situava-se junto de duas rotas comerciais importantes – o Dniepre, que desagua no mar Negro e uma meada de ribeiros que confluem no rio Volga, cujas águas desaguam no mar Cáspio. Gnezdovo beneficiava claramente desta geografia, crescendo e acabando por ocupar mais de trinta hectares.

Todos os anos, após o degelo primaveril, vikings partiam de Gnezdovo em navios carregados com bens de luxo – peles, mel, cera de abelha, pedaços de âmbar e marfim de morsa – e escravos.

Actualmente, Gnezdovo encontra-se coberta por floresta e pradarias, mas no último século e meio, arqueólogos russos têm escavado fortificações construídas sobre colinas, tesouros, provisões, oficinas, um porto e quase 1.200 túmulos onde foram descobertos artefactos valiosos. Descobriram assim que Gnezdovo foi o lar de uma elite viking rica que cobrava tributo à população eslava local e, provavelmente, geria alguns aspectos do comércio meridional. Todos os anos, após o degelo primaveril, vikings partiam de Gnezdovo em navios carregados com bens de luxo – peles, mel, cera de abelha, pedaços de âmbar e marfim de morsa – e escravos. Muitos deles, segundo Veronika Murasheva, dirigiam-se ao mar Negro e a Constantinopla, a capital do Império Bizantino e uma cidade com mais de 800 mil habitantes na época. Comerciantes vikings percorriam os mercados, vendendo as suas mercadorias e comprando bens preciosos: ânforas cheias de vinho e azeite, peças requintadas de vidro, pratos vidrados coloridos, amostras de seda e outros têxteis raros.
Outros mercadores aventuraram-se mais a leste de Gnezdovo, seguindo por ribeiros que atravessavam a Rússia ocidental até chegarem ao Volga. Em bazares situados junto do rio e à volta do mar Cáspio, compradores muçulmanos pagavam somas avultadas por escravos estrangeiros, pois o Alcorão proíbe os crentes de serem donos de muçulmanos nascidos livres. Os compradores orientais pagavam as suas contas com moedas de prata, conhecidas como dirhams, uma fonte de riqueza essencial no mundo viking.

Com ornamentos de prata e contas de vidro da Escandinávia e do Império Bizantino, este colar mostra o longo alcance do comércio viking. Foi encontrado num túmulo de Gnezdovo, um núcleo comercial viking junto do rio Dniepre, na Rússia. Fotografia Robert Clark, fotografado no Museu Histórico Nacional, Moscovo.

Ao pesquisar relatórios arqueológicos e bases de dados, Marek Jankowiak, historiador medieval da Universidade de Oxford, descobriu referências a mais de mil tesouros de dirhams enterrados por mercadores e outros vikings pela Europa. Com base numa análise inicial, Marek calcula que, só no século X, vikings traficantes de escravos poderão ter vendido dezenas de milhares de prisioneiros da Europa de Leste, sobretudo eslavos, ganhando milhões de dirhams de prata – uma fortuna colossal na época. No mundo viking, onde os senhores recompensavam regularmente os seus guerreiros com prata, a rota para sul era o caminho para o poder.
Nos salões dos senhores norsos, os contadores de histórias também descreviam as primeiras viagens para ocidente. Contavam a história de um mercador, Bjarni Herjólfsson, que se perdeu no nevoeiro enquanto navegava entre a Islândia e a Gronelândia. Quando as brumas finalmente se dissiparam, Herjólfsson e os seus homens avistaram uma terra nova pouco parecida com a Gronelândia. Estava coberta de floresta, mas Bjarni Herjólfsson não tinha interesse em explorá-la, por isso voltou a fazer-se ao mar. O viking perdido chegara por acidente ao Novo Mundo — sendo, ao que tudo indica, o primeiro europeu a fazê-lo. Foi o início das expedições dos vikings à América do Norte.

O viking perdido chegara por acidente ao Novo Mundo — sendo, ao que tudo indica, o primeiro europeu a fazê-lo. Foi o início das expedições dos vikings à América do Norte.

Actualmente, poucas proezas destes navegadores estão tão envoltas em mistério e polémica como a sua exploração do Novo Mundo. Segundo as sagas norsas, os vikings navegaram para oeste a partir da Gronelândia em quatro expedições principais. Batendo a costa nordeste do Canadá numa data tão recuada como 985, terão invernado em pequenos acampamentos, num local a que chamaram Vinland, tiveram filhos e negociaram e combateram com os indígenas.
Em 1960, um explorador norueguês famoso, Helge Ingstad, partiu em busca destes acampamentos viking. Na extremidade setentrional da Terra Nova, num sítio conhecido como L’Anse aux Meadows, um proprietário local conduziu-o a vários montes cujos contornos se assemelhavam a casas longas. Nas vizinhanças, havia uma turfeira com ferro dos pântanos, uma fonte de minério de ferro explorada pelos vikings. Escavações revelaram três grandes salões, algumas cabanas, uma fornalha para processamento do ferro dos pântanos e nogueiras-brancas, uma espécie de árvore que cresce centenas de quilómetros mais a sul. Analisadas em conjunto, as descobertas e os textos das sagas fornecem indícios de que os vikings poderão ter-se aventurado para sul.

Descoberto na sepultura de um homem da elite viking na Suécia, este fragmento do freio de um cavalo era de ferro e bronze dourado. Embora os vikings sejam mais conhecidos pelos seus drakkars, também possuíam cavalos preciosos. Fotografia Robert Clark, fotografado em Gustavianum, Museu da Universidade de Uppsala.

Mais recentemente, uma arqueóloga canadiana encontrou vestígios de vikings no Árctico canadiano. Patricia Sutherland, da Universidade Carleton, examinava colecções antigas no Museu Canadiano de História, quando descobriu pedaços de fio viking. Fiado por tecelões habilidosos, o fio provinha de locais habitados pelos dorset, um povo paleo-esquimó que viveu no Árctico até ao século XV. “Achei que era impossível”, contou então. Alargou a sua pesquisa no museu e descobriu um tesouro de artefactos dos vikings, desde pedras de amolar para afiar facas metálicas a varas de cálculo para monitorizar as transacções comerciais. 
A descoberta mais intrigante foi um pequeno recipiente de pedra que parecia um cadinho para derreter metal. Patricia Sutherland e uma pequena equipa examinaram-no em mais pormenor, recorrendo a um microscópio de varrimento electrónico. Junto da superfície interior, detectaram vestígios de bronze, bem como minúsculas esferas de vidro que se formam quando os minerais são fundidos a temperaturas elevadas – evidências tentadoras de metalurgia ao estilo viking. 

Continua a ser muito difícil descobrir as expedições mencionadas nas sagas. Para localizar potenciais sítios, os arqueólogos têm de examinar milhares de quilómetros de orlas costeiras.

Continua a ser muito difícil descobrir as expedições mencionadas nas sagas. Para localizar potenciais sítios, os arqueólogos têm de examinar milhares de quilómetros de orlas costeiras e até agora não se descobriu um único vestígio osteológico. Foi isso que levou a arqueóloga Sarah Parcak, da Universidade de Alabama, a experimentar uma nova abordagem.
Bolseira da National Geographic, especializou-se na utilização de imagens recolhidas por satélites para detectar potenciais sítios arqueológicos. Sarah e a sua equipa começaram a examinar imagens de satélite da costa atlântica do Canadá. No Oeste da Terra Nova, detectaram aglomerados do que pareciam ser paredes de turfa num promontório conhecido como Point Rosee. Com vista para o golfo de São Lourenço, Point Rosee situa-se junto de uma antiga rota marítima de acesso a terras de nogueiras-brancas e uvas silvestres. E, tal como L’Anse aux Meadows, fica ao lado de uma grande turfeira onde os vikings poderiam ter obtido minério de ferro.
Durante uma pequena escavação realizada em 2015, Sarah e os seus colegas descobriram aquilo que parecia uma parede de turfa, bem como um buraco grande onde aparentemente fora armazenado minério para ustulação — a primeira etapa da produção de ferro. Mas uma escavação maior realizada no Verão passado despertou sérias dúvidas quanto a essas interpretações, sugerindo que a parede de turfa e a acumulação de ferro dos pântanos resultavam de processos naturais. 
Sarah aguarda agora os resultados de ensaios suplementares para esclarecer a situação.

Criados por um ourives talentoso na ilha sueca de Gotland, estes delicados pendentes foram desenhados para mulheres ricas. Os vikings usavam sobretudo prata. As peças de ouro deviam ser raras e altamente valorizadas. Fotografia Robert Clark, fotografados no Museu da História Sueca.

A especialista acredita, contudo, que ela e a sua equipa estão a desenvolver uma forma cientificamente rigorosa de procurar sítios dos vikings na América do Norte. A sua colega Karen Milek, arqueóloga na Universidade de Aberdeen, concorda. “Procurar os norsos aqui é como procurar uma agulha num palheiro”, afirma. A análise de imagens de satélite é uma das melhores maneiras de consegui-lo “e Sarah está a definir a melhor abordagem”, diz. 
Num tempestuoso dia de Inverno, viajo num táxi a partir do aeroporto de Sumburgh, nas ilhas Shetland. É a manhã a seguir ao Up Helly Aa e alguns autóctones ainda estão acordados após uma longa noite de festança. As espadas e os capacetes são guardados e as crianças dormem, sonhando com reis do mar. O navio de madeira está reduzido a cinzas.
O ideal dos vikings, o romantismo destes intrépidos homens do Norte que construíram grandes navios e atravessaram mares gelados e navegaram por rios serpenteantes até aos bazares orientais nunca envelhece, nunca esmorece. Continua a viver aqui e noutras paragens do seu reino setentrional: o espírito duradouro de uma época. 

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