Um passeio inesquecível pela Rede das Aldeias Históricas de Portugal

 São doze aldeias do Centro de Portugal. Partilham história, identidade e ansiedades. Estão unidas numa rede há quase duas décadas.

Texto Gonçalo Pereira Rosa e António Luís Campos   Fotografia António Luís Campos e Nuno Correia (retratos)

Integradas no ambiente granítico ou xístico que lhes dá alma, as aldeias esforçam-se por encontrar o seu espaço no século XXI, enquanto destino turístico e proposta de sustentabilidade económica. Casos como Linhares da Beira são laboratórios em tempo real do que queremos da nossa ruralidade e do que ela será.

Purificação Almeida e Dinis Pinto talvez nunca venham a encontrar-se. Vivem a pouco mais de sessenta quilómetros de distância entre si, na vertente oriental da serra da Estrela e residem a curta distância de duas aldeias emblemáticas – Sortelha e Linhares da Beira – embora não habitem intramuros. Dinis tem 8 anos. Frequenta o terceiro ano de escolaridade em Lajeosa do Mondego e tem o sorriso maroto de todas as crianças desta idade. Na Primavera, chamou a atenção dos coordenadores do projecto Histórias Criativas, organizado pela Rede de Aldeias Históricas de Portugal, com uma narrativa divertida e bem ilustrada sobre Linhares e a sua história. Foi lê-la ao Canal Panda, como vários outros colegas disseminados por escolas das restantes aldeias. Não se atrapalhou com as câmaras. Aliás, Dinis está na idade em que não há obstáculos intransponíveis. 

ALMEIDA - Fotografada do único ângulo em que a riqueza da sua estrutura defensiva é absoluta, Almeida é uma das jóias das Aldeias Históricas. Existe intenção local de candidatar brevemente todo este território a Património Mundial, pois os baluartes defensivos estão entre os melhores exemplos europeus de fortificações militares intactas.

Purificação Almeida ri-se quando lhe perguntam a idade e desvia o assunto. Tem seguramente mais de 60 anos e vive entre penedos graníticos quase à saída de Sortelha. No rosto expressivo, estão vincadas as rugas de uma vida de trabalho. Purificação caminha com alguma dificuldade por força de uma operação à anca que lhe tolheu os movimentos, mas não a determinação. Fala com simplicidade e desembaraço e ri-se com gosto dos seus próprios gracejos. Recusa valorizar o motivo que nos leva a sua casa numa manhã chuvosa de Outono. E, no entanto, Purificação é quase uma espécie em extinção: é uma das duas últimas pessoas que ainda dominam a tecelagem com baracejo, uma planta local que cresce nos barrocos e tem espantosa flexibilidade. Enquanto fala, as suas mãos movem-se sem cessar, tecendo e entretecendo o caule amarelecido. O dedo calejado dispensa dedal. E a descrição desenvolta da técnica parece renegar a complexidade do gesto,

PIÓDÃO - Primeiro, foi o isolamento. A coesão arquitectónica do Piódão deve muito ao isolamento a que a aldeia esteve votada até as novas redes viárias abrirem novos horizontes. Utilizava-se o xisto abundante e construía-se com os materiais e técnicas disponíveis. Hoje, a coesão urbana desta aldeia é a sua riqueza principal, e a sua preservação nos mesmos moldes tornou-se prioritária.

Dinis e Purificação são aquilo que os técnicos de desenvolvimento regional chamam exemplos nos dois extremos da escala. À sua maneira, integram-se ambos na narrativa da ruralidade do Centro de Portugal – uma narrativa socialmente construída, é certo, frequentemente adocicada nos gabinetes urbanos, mas que esteve na génese do projecto Aldeias Históricas, iniciado há quase duas décadas, em 1994, e que integrou na mesma rede Almeida, Belmonte, Castelo Mendo, Castelo Novo, Castelo Rodrigo, Idanha-a-Velha, Linhares da Beira, Marialva, Monsanto, Piódão, Sortelha e Trancoso, num total de quase onze mil habitantes, de acordo com o último Censo. Há um século, porém, no primeiro Censo da República (1911), vivia aqui praticamente o mesmo número de pessoas: 12.131. E isso é um problema.

MONSANTO - Desafiando a gravidade e parecendo na iminência de se despenharem sobre as construções humanas, os boulders graníticos de Monsanto encantam os visitantes desde tempos imemoriais. Monsanto é uma marca decisiva do eterno confronto entre o ser humano e o território e da resistência humana aos limites impostos pela natureza.

Por paradoxal que pareça, para encontrar o fio à meada do projecto, é fundamental começar por Coimbra. É ali, a várias dezenas de quilómetros da aldeia histórica mais próxima, que se joga muito do futuro destes núcleos populacionais e onde os nomes e as histórias de Dinis ou Purificação se tornam estatísticas. Em rigor, foi ali também que tudo começou. No penúltimo ano do último governo de Cavaco Silva, face aos indicadores desastrosos de desertificação da zona raiana do Centro, os governantes Isabel Mota e Alexandre Relvas propuseram uma nova abordagem – a concepção de uma rede de dez aldeias (às quais depois, já no século XXI, se juntaram mais duas), com evidente património histórico, identidade e coesão territorial, onde se pudesse tirar partido das oportunidades do turismo cultural, das necessidades comuns e da criação de uma marca reconhecível. A candidatura do projecto-piloto a fundos comunitários foi bem sucedida, mas a bola de neve da desertificação já ganhara velocidade montanha abaixo, ameaçando engolir todo o investimento para a deter.

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