Rota do Românico: viagem pela história com as paisagens como pano de fundo

 

Doze concelhos do Norte de Portugal uniram esforços para preservar um tesouro que vem desde os alvores da nacionalidade. Este tesouro é de pedra. Pedra que conta histórias.

Texto Paulo Rolão

No Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa, em Penafiel, conserva-se o túmulo de Egas Moniz. É um dos monumentos mais singulares da arquitectura e escultura românicas. Fotografia Vítor Ribeiro.

O rio Douro está coberto por uma neblina que se adensa à medida que a chuva miudinha de Maio cai de um céu forrado de cinzentos. Alheia às indecisões do clima, emerge a Igreja de São Martinho de Mouros, no concelho de Resende, com a sua imponente torre-fachada que imprime um ar medievo a tudo o que a rodeia. Dona Dulce é a zeladora do templo, a guardiã dos segredos medievais. O padre Excelso Carlos Ferreira aguarda-nos junto à capela-mor. No interior, escondido de todas as marcas do presente, longe dos postes telefónicos, dos automóveis ou do asfalto, o relógio do tempo começa a recuar. 

Há documentação sobre a Igreja de São Martinho de Mouros, em Resende, desde o século XIII, e uma inscrição na face exterior da capela-mor regista o ano de 1217. Fotografia Digisfera/Rota do Românico.

De súbito, irrompe pela porta semiaberta um grupo de crianças que, tolhidas pela surpresa de ver visitas, refreiam o entusiasmo por segundos. Com bonomia, o padre sorri e explica que são jovens das redondezas que ali vão à catequese. Elsa Marques da Silva, historiadora de arte e membro do Serviço Educativo da Rota do Românico, aborda um dos jovens que se detém diante das pinturas já carcomidas pela idade num dos recantos da nave central: “Sabes quantos anos tem esta igreja?”, pergunta desta vez, como fará muitas mais vezes ao longo da visita às igrejas, castelos, mosteiros, torres ou ermidas. 

O Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa encarna a génese da fundação da nacionalidade.

Ouço o rapaz balbuciar, a medo: “Muitos.” Elsa confirma com infinita paciência: “Sim, muitos. Quase oitocentos anos.” O jovem mostra-se surpreso, quando é confrontado por nova pergunta da minha guia: “E sabes quem foi o primeiro rei de Portugal?” A resposta sai de chofre: “Foi Dom Afonso Henriques!” O padre continuava a sorrir e Dona Dulce mantinha os adolescentes debaixo de olho, enquanto compunha os ramos de flores nos altares laterais. Pela mente dos adolescentes passa talvez a figura do rei caminhando entre aquelas quatro paredes. A pedra, já verão, tem esse poder: evoca histórias.Damos outro salto no tempo e no espaço. Recuamos cerca de um século e avançamos 75 quilómetros até ao Mosteiro do Salvador de Paço de Sousa, no concelho de Penafiel. Como outros territórios em redor, Paço de Sousa encarna a génese da fundação da nacionalidade. O templo é, juntamente com os mosteiros de Pombeiro e de Travanca, um dos maiores representantes da arquitectura românica da região e é com respeito que se desfila pela igreja de três naves e com admiração que se repara na bela rosácea acima do pórtico. Todavia, é num canto mais esconso que se encontra o foco de atracção dos visitantes que acorrem aqui: um túmulo funerário ricamente trabalhado em pedra. É um documentário perene, finamente burilado. O guião, aliás, é identificado pela maioria dos visitantes, pois aquelas figuras são sucessivamente reproduzidas nos manuais de História de Portugal. A lenda, essa, é conhecida de cor.

 

O Mosteiro de Santa Maria de Pombeiro é um dos monumentos beneditinos mais significativos da região. As comunidades monásticas procuravam as melhores terras agrícolas, com abundância de água e terrenos férteis. Fotografia António Cruz. 

Dom Afonso Henriques, conde de Portucale, tinha como tutor Egas Moniz, um homem cuja linhagem se perfilava entre as mais importantes famílias da região do Entre-Douro-e-Minho, então dependente do reino de Leão. Quando Dom Afonso VII cercou Guimarães e exigiu que o jovem rebelde lhe prestasse vassalagem, Egas Moniz dirigiu-se ao rei leonês e prometeu-lhe a submissão de Afonso Henriques. 
O futuro rei, porém, invadiu a Galiza e venceu a batalha de Cerneja. Fiel à sua palavra, Egas Moniz dirigiu-se com a família à presença de Dom Afonso VII, descalços e com cordas ao pescoço, dispondo as suas vidas pelo incumprimento da promessa. O rei leonês comoveu-se, perdoou-o e ordenou-lhe que regressasse em paz. Como todas as lendas, a realidade foi construída com sucessivas camadas ideológicas, mas a história… ficou para a História. E cruza-se hoje, indelevelmente, com a Rota do Românico.

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