Zenóbia, a rainha de Palmira que desafiou Roma

Culta, astuta e ambiciosa, Zenóbia conseguiu colocar em xeque durante um longo período a soberania de Roma e quase conseguiu transformar a cidade síria de Palmira, “a pérola do deserto”, na capital de um grande estado oriental.

Texto  David Hernández de La Fuente

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Deusas protectoras Os túmulos dos comerciantes ricos de Palmira estavam decorados com relevos mangníficos, como o da imagem, que representa as deusas Tique, de pé, e Istar, sentada (Museu Nacional de Damasco). Fotografia  Dagli Orti/DEA/Album

Os seus contemporâneos descreviam-na como uma beldade de pele morena e olhos penetrantes e de uma inteligência fina e cultivada, capaz de se entender com os filósofos em grego, com os juristas em latim e com os antigos sacerdotes em sírio e egípcio. Gabava-se de pertencer à linhagem dos reis helénicos do Egipto e que a sua família obtivera cidadania romana há uma geração. Tinha como conselheiro um eminente filósofo e literato grego, Cássio Longino. E era dotada de uma astúcia política e de uma capacidade de persuasão excepcionais. Assim era Zenóbia de Palmira, a rainha que colocou em cheque durante um longo período a soberania de Roma sobre o Oriente. A cidade de Zenóbia, no centro da actual Síria, erguia-se numa encruzilhada entre o Ocidente e o Oriente, entre o mundo mediterrânico regido por Roma e os grandes impérios asiáticos. Incorporada em Roma em meados do século I d.C., Palmira transformou-se numa cidade enriquecida graças ao comércio com o Próximo Oriente. A “pérola do deserto”, como era conhecida, era o ponto nevrálgico e paragem obrigatória da rota das caravanas que atravessava aquelas paragens.

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A cidade do deserto Neste perspectiva aérea de Palmira, pode ser apreciado um troço da via colunata que atravessava a cidade, flanqueada por diversos edifícios oficiais. Podem ser igualmente apreciadas as ruínas do teatro e o Tetrapilo, e, ao fundo, o vale dos túmulos. 
Fotografia Ed Kashi.

Fundada em redor de um oásis, a cidade dispunha de magníficas construções, entre as quais o templo de Bel ou o teatro. Muitas sobreviveram à passagem dos séculos e estão hoje mais ameaçadas do que nunca, às mãos de terroristas que perceberam o seu apelo civilizacional e usam-no como moeda de troca. A própria Zenóbia era um produto da miscigenação cultural que caracterizava a região. O seu pai fora governador romano da cidade, Júlio Aurélio Zenóbio, e ela casou com Odenato, um árabe romanizado, que também seria governador regional. Desde muito cedo, Odenato e Zenóbia participaram nos esforços de defesa do império na fronteira oriental.

Derrotado estrondosamente, Valeriano foi capturado, torturado e humilhado.

A persistente ameaça dos bárbaros junto do Eufrates obrigou o imperador Valeriano no ano de 260 a marchar encabeçando um exército contra os persas de Sapor I. Foi uma expedição catastrófica. Derrotado estrondosamente, Valeriano foi capturado, torturado e humilhado. Durante muitos anos, os persas exibiram como troféu a pele do imperador – o primeiro capturado pelos bárbaros – e, graças a esta vitória, asseguraram o controlo de amplas zonas do Oriente e de cidades estratégicas como Edessa. A reacção contra os persas foi encabeçada por Odenato de Palmira, que empreendeu uma vitoriosa campanha de vingança com o beneplácito do novo imperador de Roma, Galiano. Em duas ocasiões, Odenato conseguiu quebrar as forças de Sapor, que tiveram de se refugiar em território persa para escapar às campanhas do valente árabe. Inicialmente, Odenato proclamou que agia em nome de Roma, mas depressa ficou claro que tinha uma ambição pessoal: queria estabelecer-se como “monarca de todo o Oriente” e exercer o seu reinado a partir da sua faustosa capital.

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A ambição de uma rainha "Alcançámos nessa altura o culminar da vergonha: uma estrangeira chamada Zenóbia colocou o manto imperial e reinou durante longos anos", escreve um romano. Na imagem, um tetradracma com a efígie da rainha. Fotografia Bridgeman/ACI

A opulenta Palmira talvez estivesse fadada para se transformar numa capital de um novo império, uma espécie de Roma do deserto. As ambições de Odenato foram frustradas por uma intriga palaciana em 267. No regresso de uma campanha na Capadócia, o seu sobrinho Meónio, com o objectivo de se vingar de um castigo, assassinou-o no seu palácio juntamente com o seu filho, fruto de um matrimónio anterior a Zenóbia. Ela tivera um filho com Odenato, com o nome de Vabalato, mas este tinha somente 1 ano de idade, pelo que a rainha proclamou-se regente até à maioridade do filho. Sob seu controlo, ficavam Palmira e os territórios recém-conquistados no Oriente.

Zenóbia foi clarificando que o seu reino era totalmente independente do império.

Depois de executar rapidamente Meónio, Zenóbia apressou-se a acabar com a ficção da aparente submissão de Palmira e dos seus domínios ao imperador de Roma, Galiano. Pouco a pouco, em actos marcados por forte inteligência política e ao que tudo indica aconselhada pelo filósofo e sofista grego Longino, Zenóbia foi clarificando que o seu reino era totalmente independente do império. Desta forma, ao mesmo tempo que mantinha a distância face aos persas, agregou vários Estados vizinhos. Atreveu-se inclusivamente, a conquistar o Egipto, a província mais rica entre as que estavam submetidas a Roma, alegando que era herdeira da antiga dinastia dos Ptolemeus. Era uma proclamação que Cleópatra não desdenharia séculos antes – afinal, as duas rainhas são frequentemente equiparadas.

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