A histórica linha do Mondego e a defesa de Portugal

 Moçárabe e governador, D. Sesnando defendeu Coimbra medieval com uma linha de castelos.  A história da reconquista cristã e da fundação da nacionalidade foi aqui escrita na pedra.

Texto de Paulo Rolão   Fotografia António Luís Campos

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Arouce - Erguido na escarpa de um vale verdejante, o castelo da Lousã era, no século XI, designado por castelo de Arouce, tal como a região envolvente. Só quatro séculos depois é que esta atalaia de vigia adquiriu o nome actual, por extensão do topónimo da vila próxima.

Hoje em dia, não é fácil adivinhar que este cenário foi palco de batalhas. Não se ouve o tilintar das espadas e cimitarras, não se adivinha o tropel dos cavalos, não há gritos, nem se calcula o sangue derramado. Pelo contrário, o que se vê é a vegetação luxuriante e o que se ouve é o chilrear da passarada e o som deslizante das águas da ribeira de São João.

“Em tempos idos, esta região era designada por Arouce e há referências de que alguém mandou povoar Arouce e Penela."

O pequeno Castelo da Lousã está erguido numa escarpa e encaixado num vale, o que contraria o denominador comum das fortalezas erigidas no topo de montes ou colinas. Na verdade, este castelo não era propriamente um reduto defensivo, como explica o historiador Vítor Maia e Costa, empoleirado numa das muralhas: “O que temos aqui é mais uma atalaia de vigia e marca de posição no território, assegurando a autoridade sobre estas terras.” Relembre-se que, à data da edificação do castelo – século X – já estava em curso o início da reconquista cristã da Península Ibérica, sendo esta uma área de fronteira inconstante, de avanços e recuos, entre os dois contendores. “Em tempos idos, esta região era designada por Arouce e há referências de que alguém mandou povoar Arouce e Penela. E esse alguém é uma figura um pouco à margem dos compêndios escolares, mas que foi de enorme importância não só na história local, mas também em todo o processo da reconquista”, sublinha o historiador.

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Apesar da reduzida dimensão, o que faz supor que não seria mais do que um posto de vigia da zona serrana, o castelo da Lousã é talvez o mais pitoresco da Rede de Castelos e Muralhas do Mondego pela sua localização, pois encontra-se inserido numa das mais belas serras do país.

D. Sesnando Davides é um homem de interpretação controversa e pouco consensual. Há quem a ele se refira como “vira-casacas”, que escolheu os aliados consoante os ventos corriam de feição, mas que também conseguiu reunir um rol de louvores: bom estadista e governador, sábio e inteligente e, sobretudo, porque soube inserir-se no contexto muito específico da época, gerindo com sapiência as diferenças culturais e religiosas que se digladiavam no território. Certo, certo, é que ele existiu mesmo, pois isso testemunham diversos documentos, entre os quais o seu testamento, e que entra de rompante na história após a conquista de Coimbra por Fernando I de Leão e Castela, em 1064, quando o soberano leonês o nomeia governador.

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O túmulo de D. Sesnando, que governou Coimbra durante 30 anos, está depositado numa ala do claustro da Sé Velha.

O seu passado, no entanto, ainda está coberto por um manto de neblina. Moçárabe (cristão que sob hegemonia muçulmana continuava a professar a sua fé desde que pagasse por isso tributo), Sesnando viveria na região de Tentúgal, onde os seus pais tinham propriedades. Ainda criança, foi levado para Sevilha, ao serviço do emir Abbad II al-Mutadid, em cuja cultura foi educado. Sesnando progrediu na corte local, tornando-se, inclusivamente, conselheiro íntimo do emir. Contudo, num golpe de asa – ou perspicácia diplomática –, passou a oferecer os seus serviços a Fernando Magno (Fernando I de Leão e Castela), aconselhando-o a libertar Coimbra. Após seis meses de cerco, a urbe é finalmente conquistada e, depois da sua tomada, o soberano leonês, como recompensa pelos serviços prestados, oferece a Sesnando a governação da cidade e o senhorio do território adjacente, com a missão de o defender e repovoar.

O Mondego era a linha fronteiriça mais a sul no processo da reconquista. Coimbra era então a grande cidade da região.

Assim, criou ou povoou localidades, ergueu ou reconstruiu atalaias, castelos e igrejas. Sobretudo D. Sesnando tinha a perfeita noção da época que se vivia e o bom senso de saber gerir devidamente o cargo, enveredando por um clima de pacificação e de bom relacionamento institucional com os muçulmanos – ou não fosse ele moçárabe. Embora, com isto, não descurasse a missão de defensor dos territórios cristãos. Recorde-se que, à data da sua governação, o Mondego era a linha fronteiriça mais a sul no processo da reconquista. Coimbra era então a grande cidade da região, cuja importância estratégica (servindo, mais tarde, de base a D. Afonso Henriques para se lançar à conquista de Lisboa) justificava reforçar as suas defesas.

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