O Grand Tour - No século XVIII, um percurso pela Europa – com Itália como destino prioritário – constituía uma viagem essencial ao coração da história através do património cultural e artístico.

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"Retrato do poeta Thomas Penrose", Louis Gauffier (1798).

Em Setembro de 1786, Goethe empreendeu uma viagem a Itália que duraria um ano e meio. O seu objectivo era conhecer as origens e a essência da cultura greco-latina e procurar uma experiência de introspecção. No entanto, o indivíduo que partiu para aquela viagem não foi o mesmo que regressou. Depois de duas longas permanências em Roma e de uma visita a Veneza, Florença, Nápoles e à Sicília, Goethe deixaria para trás a sua etapa de escritor romântico. Três décadas mais tarde, publicou o seu célebre “Viagem a Itália”. Segundo ele, essa fora a etapa mais estimulante e feliz da sua vida.

Popularizada pelas classes média e alta de Inglaterra, o Grand Tour era quase um ritual de passagem para a idade adulta e para o matrimónio.

Embora o livro tenha sido uma inovação e uma forte influência sobre os viajantes seguintes, há mais de um século antes de Goethe que essa viagem introspectiva tinha lugar na Europa. Existia até um nome francês para a designar: o Grand Tour. Fora popularizada pelas classes média e alta de Inglaterra e consistia em enviar os jovens para o continente numa viagem de estudo e esclarecimento, promovida quase como um ritual de passagem para a idade adulta e para o matrimónio.
O Grand Tour podia durar meses ou anos, em função dos meios e das circunstâncias. Em certas ocasiões, um adulto acompanhava o jovem como tutor. Os conhecimentos de arte clássica e renascentista, bem como a assimilação dos costumes da sociedade europeia, eram considerados elementos valiosos para a educação de um jovem aristocrata.

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"Goethe na paisagem romana", Johann Heinrich Wilhelm Tischbein (1787)

O itinerário podia variar, mas tinha de começar em Paris. De seguida, descia até Lyon e entrava em Itália através dos Alpes ou da Provença. Turim, Milão e Veneza constituíam os grandes destinos do Norte de Itália. O trajecto prosseguia até Florença com o objectivo de contemplar as jóias do Renascimento. Roma era um enclave essencial. E Nápoles, a maior cidade de Itália na época, permitia admirar Pompeia.
Esta rota através de Itália com intuito de aumentar a formação artística era habitual, tanto para os jovens como para os especialistas. Em 1629, o pintor Diego Velázquez passou um ano e meio no país numa viagem de estudo apoiada por Filipe IV (Filipe III de Portugal). Vinte anos depois, teve de interromper relutantemente nova visita quando o rei lhe pediu para regressar.

Goethe e Stendhal, são apenas dois dos grandes autores clássicos que realizaram o Grand Tour.

As classes abastadas da Alemanha e da Holanda também adoptaram o costume do Grand Tour e, a partir de 1730, esta prática passou a ser moda na Europa. A revalorização da arte clássica em detrimento do barroco também contribuiu para isso. Na década de 1760, era comum os viajantes ingleses passarem por Génova para visitar Voltaire na sua casa de Ferney.
Os itinerários por Itália deviam muito a Johann Joachim Winckelmann (1717-1768), o pai da história de arte e da arqueologia como ciência e um homem que exerceu poderosa influência sobre Goethe. Winckelmann reivindicava o ideal grego da kalokagathia, mas não o fazia para defender uma atitude cavalheiresca num contexto militar – a sua função original –, mas sim para propagar uma educação baseada no culto da beleza (kalos) e da virtude (agathon), que ele via materializados na arte clássica.

Em 1817, quando Stendhal disse sentir-se esmagado em Florença pelo que denominou “síndrome da beleza”, inundado pela presença de tantas obras de arte no mesmo local, talvez estivesse a reinterpretar literalmente as ideias de Winckelmann.

Emil Brack

"Planear o Grand Tour", Emil Brack.

Também se empreenderam longas e dispendiosas viagens para contemplar o património artístico de Itália que influenciaram, por sua vez, a visão dos artistas locais. Os tesouros de Veneza, Florença ou Roma transformaram-se assim num motivo pictórico. Os quadros de Canaletto e Giovanni Paoli Panini ou as gravuras das ruínas romanas a cargo de Piranesi, por exemplo, ganharam enorme valor. Muitos foram adquiridos e transportados de regresso ao país de origem para mostrar às sociedades locais uma recordação do que fora visto.
Durante o século XIX, os meios de transporte sofreram um grande avanço. Foram criadas novas redes marítimas, abriram-se túneis que cruzavam montanhas e prolongaram-se as redes férreas e o transporte a vapor, tornando mais acessíveis os trajectos do Grand Tour. Quase em simultâneo, em 1828, surgiram os primeiros guias de viagens, redigidos por Karl Baedeker, repletos de pormenores e valorizando as atracções específicas de cada destino. Todos estes factores contribuíram para fazer do Grand Tour um fenómeno transversal para uma parte da sociedade.

Os tesouros de Veneza, Florença ou Roma transformaram-se em motivos pictóricos de numerosas peças de pintura clássicas.

Passaram quatro séculos e as pessoas continuam a viajar para Itália, com a diferença de que agora vêm dos cinco continentes, com câmaras ou telefones  em riste. O seu objectivo, porém, ainda é parecido: procuram os vestígios de uma época em que a arte e o conhecimento conseguiram criar obras que comovem o ser humano. O peregrino moderno talvez não professe uma fé religiosa, mas aprecia a beleza e a arte mediterrânica de viver. Nesses dois campos, a Itália tem muito para mostrar. E quem sabe, de regresso a casa talvez a vida se torne diferente, como aconteceu a tantos daqueles jovens e artistas depois de participarem no Grand Tour.
Esta e outras reportagens integram a nova Edição Especial da National Geographic dedicada exclusivamente a Itália e aos magníficos tesouros artísticos e paisagísticos do país.

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