A fé escavada nas rochas sagradas da Etiópia

 A fé escava montanhas nas terras do Norte da Etiópia.

Texto Bernadette Gilbertas   Fotografia Olivier Grunewald

Tendo a seus pés a paisagem árida do maciço de Gheralta, um monge dirige-se, através de uma estreita passagem, à entrada da igreja de Abuna Yemata Guh, escavada na rocha. 

 Segundo a tradição, Deus concedeu aos primeiros cristãos da Etiópia, refugiados nos planaltos elevados do Norte, a graça de revelar-lhes a Sua morada. E estes meteram mãos à obra, escavando no arenito vermelho dos desfiladeiros do maciço de Gheralta mais de 160 igrejas rupestres, esculpidas com paciência e magnificamente decoradas, nos lugares mais profundos das montanhas da fé.
Diz-se também que Deus apareceu um dia aos reis irmãos Abreha e Atsbeha, ordenando-lhes que acorressem às montanhas escarpadas da região do Tigré e desvendassem, perante os olhares dos fiéis devotos, uma igreja que ali se encontrava enterrada desde o princípio dos tempos.

Segundo a tradição, Deus concedeu aos primeiros cristãos da Etiópia, refugiados nos planaltos elevados do Norte, a graça de revelar-lhes a Sua morada.

Abreha e Atsbeha partiram do seu palácio, aventurando-se até às montanhas, e escalaram as cristas montanhosas de Korkor, mas os cumes cinzelados por mão divina revelaram-se inacessíveis. Rogaram a Deus que os auxiliasse, e Ele, com um simples gesto, partiu a montanha de alto a baixo, logo exigindo a Satanás que preenchesse a fenda com aquela rocha fundida que ferve nas entranhas do Inferno, dela fazendo uma escadaria. Ao solidificar, a lava negra conduziu os dois irmãos ao topo sagrado onde se ocultava a morada de Deus. Pedra a pedra, os monarcas escavaram ali uma das mais belas igrejas rupestres da Etiópia. 
Degrau a degrau, transpomos este caótico acesso natural que a rocha ígnea abriu no arenito vermelho. Como é possível que, já no século VI, aqueles monges soubessem que uma rocha surgida das profundezas, aproveitando os pontos fracos do terreno, cobrira a rota de acesso à montanha de Korkor? 

Esta pergunta intriga-me, enquanto nos vamos infiltrando no coração da lenda de Abreha e Atsbeha. Durante uma hora e meia, caminhamos através dos picos e fachadas vertiginosas do maciço de Gheralta, que se ergue no coração da região do Tigré Oriental, no extremo setentrional da Etiópia e com uma paisagem digna do Faroeste norte-americano. 
Alcançamos um patamar planáltico que domina, do alto dos seus duzentos metros de altitude, a árida savana salpicada de acácias. Numa saliência coberta de figueiras-da-índia, um monge de hábito amarelo e o seu discípulo lêem em voz alta os textos sagrados, escritos num missal forrado a pele de cabra. Por trás, vê-se uma parede caiada, a única construção visível em todo o penhasco, e uma porta. Descalçamo-nos, por respeito à montanha sagrada. Com um sorriso nos lábios, o monge retira a chave que traz ao pescoço e abre-nos a porta.
Primeiro, acomete-nos uma sensação de frescura. De seguida, vão emergindo pouco a pouco da escuridão enormes pilares, arcos e cúpulas decoradas. Acedemos à intimidade de um espaço de culto conquistado à rocha, uma basílica com três naves que se revela diante dos nossos olhos graças a clarabóias estreitas. Doze pilares com as suas pilastras, arcos, abóbadas e cúpulas! 

Segundo a tradição, foi um sacerdote chamado Yemata que, aproximadamente no século V, escavou a igreja com o seu nome. Numa das paredes, surge a figura do religioso a cavalo, junto de outros santos e apóstolos.

E, embora o entalhe da pedra se mostre algo tosco, as dimensões (16 metros de comprimento por 10 de largura e 6 de altura) são monumentais para uma igreja totalmente escavada em pedra. Entre os simples e expressivos frescos da época bizantina, pintados na própria rocha, pode apreciar-se a figura da Virgem Maria sentada num trono, uma parelha de gazelas, camelos com rosto humano e postura heráldica, os Reis Magos, bandos de aves, entre tantas outras figuras.
Maryam Korkor é uma das 160 igrejas rupestres escavadas nas maiores profundezas da rocha, nos cumes abruptos dessas montanhas recônditas. As comunidades do Tigré conhecem a sua existência desde tempos imemoriais, mas o resto do mundo descobriu-as no início da década de 1960, graças ao labor de um missionário católico etíope, Abba Tewoldemedhin Yosef, e dos seus compatriotas ortodoxos. Estes estudiosos identificaram mais de 120 igrejas e, com o apoio do Instituto de Arqueologia da Etiópia, fizeram os primeiros estudos do vasto inventário arquitectónico, mais tarde cartografado com rigor. 

Celebrações da Páscoa em Maryam Korkor. Devido às suas dimensões (16 metros de comprimento por 10 de largura e 6 de altura), trata-se de uma das maiores igrejas rupestres e com uma estrutura arquitectónica mais complexa.

Apesar da altitude, a ascensão até Maryam Korkor pareceu-nos fácil: com uma semana acumulada a descer gargantas profundas, a escalar precipícios e a avançar descalços com enorme cuidado por estreitas saliências suspensas sobre o vazio, talvez já estejamos vacinados contra as vertigens. 
Não muito longe dali, a exígua entrada para a capela da ermida de Abba Daniel abre-se sobre uma grande saliência que se ergue trezentos metros acima de uma quebrada a pique. Os pontos de apoio talhados nas fachadas verticais de arenito pela passagem milenar dos peregrinos e uma saliência inclinada conduzem-nos até Guh, outra jóia arquitectónica, ao mesmo tempo vertiginosa e magnificamente decorada.
E Debre Damo é uma autêntica encruzilhada de caminhos religiosos da região: diz-se que esta cidadela monástica, localizada nos confins de Gheralta, foi fundada no século VI. Para ali chegarem, os homens são içados por meio de sólidas cordas de couro entrançado, semelhantes às que segura um monge risonho: a mim, porém, é proibido o acesso. Ali ficam também Abuna Gebre Mikael, a chamada “igreja azul” devido aos impressionantes matizes dos seus frescos e abóbadas, Debre Tsion (igualmente denominada Abuna Abraham, que se ergue na sua atalaia), e muitas outras mais. 

Descubra uma nova visão do mundo!

Assine a National Geographic.

Pesquisar