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Apreciada agora do Obelisco da Memória, a cidade espraia--se sob a sombra do monte Brasil. Fortemente abalada por sismos em 1755 e em 1980, entre outras catástrofes, Angra do Heroísmo soube sempre reconstruir-se e reinventar-se, respeitando a traça original.

 Quando as derrocadas cessaram e o chão parou de tremer, tudo se processou rapidamente. Havia que abrigar os desalojados, urgia reconstruir os edifícios, era premente reerguer o testemunho histórico. E, no espaço de 15 dias, estabeleceram-se as primeiras medidas. 
A recuperação de Angra do Heroísmo obedeceu aos mesmos critérios da sua fundação: manter a malha urbana que ainda se mostrava actual, preservar a traça arquitectónica e dotar as casas com sistemas de segurança face ao futuro. Ainda um pouco dormente, começou a conjecturar-se a possibilidade de, com o restauro da cidade, poder avançar-se com o projecto de candidatura à UNESCO.       
Em termos práticos, a cidade foi-se compondo de forma ordenada: definiram-se os edifícios mais emblemáticos a recuperar e, a cada um deles, estava adstrito um raio entre 50 e 100 metros, pelo que, ao restaurar-se esse edifício-chave, também se reabilitava tudo o que estava nesse raio de acção. Passo a passo, quarteirão a quarteirão, a cidade reergueu-se das cinzas.

Também ouve entraves, além dos obviamente inerentes à recuperação de uma cidade quase inteira e que entroncam directamente nas razões humanas.

Também ouve entraves, além dos obviamente inerentes à recuperação de uma cidade quase inteira e que entroncam directamente nas razões humanas. Francisco Maduro-Dias, historiador e presidente do Instituto Histórico, adianta que “antes, as pessoas que viviam na cidade procuravam um refúgio campestre, e aproveitaram a destruição para construírem casas ‘lá em cima’, nas zonas verdes. Por sua vez, as que viviam no campo sempre se sentiram seduzidas pela vida de cidade, pelo que aproveitaram a oportunidade e mudaram-se para aqui. Mas faltava o resto – o afecto”. Por outras palavras, “as pessoas habituaram-se a nascer, crescer e viver na mesma casa, sempre com as mesmas referências: a varanda, a janela onde espreitavam a rua, as cores do quarto, a mobília, a mesa onde comiam… Só que, agora, estavam num espaço que não era o seu de sempre. É essa uma das grandes diferenças para com outros patrimónios portugueses – as coisas sempre lá estiveram; aqui, reconstruíram-se coisas, mas também se movimentaram pessoas. E isso, por vezes, altera tudo”.

Velhos e novos partilham o entusiasmo pela cidade. A população do concelho não flutuou muito desde o início do século XX, com um pico nos anos 1960, quando viviam aqui 40 mil almas. Em 2004, a população era de 35 mil.

 O certo é que, muito por acção de Álvaro Monjardino, Angra avançou com a candidatura. Ao contrário do que muitos pensam, não o fez meramente pela recuperação arquitectónica, mas também pelo passado histórico e cultural da cidade. “A proposta foi muito bem entendida, por ter sido abordada numa conjuntura temática, a da expansão portuguesa e a ligação a outros locais já classificados, como Goa, a ilha de Moçambique e Salvador da Bahia”, esclarece Jorge Paulus Bruno, director do Museu de Angra.

Volvidos três anos após o sismo, Angra do Heroísmo entrou para a lista do Património da Humanidade.

Volvidos três anos após o sismo, Angra do Heroísmo entrou para a lista do Património da Humanidade. É o único conjunto urbanístico português, aliás, que detém este estatuto e, na altura da votação, teve a concorrência de candidaturas de edifícios isabelinos ingleses, castelos franceses, catedrais góticas alemãs. Mas Angra soube esgrimir argumentos imbatíveis – sempre foi uma cidade aberta para o mundo, não meramente macaronésia, não somente atlântica, mas, sobretudo, transatlântica. E o sismo de 1980 foi uma infelicidade “feliz” no encontro de Angra com a história. 
Hoje, a cidade é uma jóia rutilante. Harmoniosa, multicolor nas fachadas, cuidada, mimosa, ruas calcetadas e passeios em calçada portuguesa com desenhos geométricos ou florais, varandas de ferro forjado imaculadamente pintado de verde, portas e janelas debruadas de cores, enfim, um alegre caleidoscópio no Atlântico.

A fotografia dá conta de como a cidade cresceu nas imediações do Castelo de São João Baptista, antigamente designado por São Filipe.

 O azul imenso do mar, ali à frente, visível de quase todos os pontos, encanta, tal como a marina e o porto, a arquitectura militar dos fortes de São Sebastião e de São João Baptista, as vistas altaneiras do monte Brasil, a elegância da Igreja da Misericórdia e da Sé Catedral, a harmonia da Praça Velha, o dédalo de ruas onde casas, mansões e palácios se aconchegam. Angra é bonita, e é bonito passear por ela. Os habitantes afinam pelo mesmo diapasão: “Angra está uma bela cidade, e sentimo-nos contentes e orgulhosos por vivermos num sítio que é Património da Humanidade. Mas ainda não sabemos bem o que fazer com ela”, escuto de um residente.

Angra é bonita, e é bonito passear por ela.

Reclama-se mais vida, mais movimento, mais actividades, mais eventos, e logo numa ilha que se distingue das restantes pela animação, pela dinâmica festiva, pelas festas, touradas e Carnaval.
O futuro é um desafio, e Angra do Heroísmo ainda tem um papel a desempenhar. Tornando-se utilizável, rendível e referenciável como cidade de culto e de cultura. Contornando-se a eterna visão sebastiânica da portugalidade, resta uma certeza convicta na alma de todos os terceirenses: Angra do Heroísmo, Património da Humanidade, tem pernas para andar. E como é bom andar por estes passeios, ruas e praças!

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