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 Angra do Heroísmo é uma cidade prenhe de bravura e resistência face às contrariedades. Enfrenta, hoje, o maior desafio de sempre: tornar vivo o galardão de Património da Humanidade.

 Texto Paulo Rolão    Fotografia Pedro Guimarães 

O azul da Igreja da Misericórdia destaca-se nesta panorâmica do centro histórico visto a partir da marina de Angra do Heroísmo. À esquerda, elevando-se acima dos telhados, são visíveis as duas torres da Sé Catedral do bispado dos Açores, com sede em Angra.

 A 15 quilómetros de profundidade, numa falha entre a Terceira e São Jorge, o resvalar de placas tectónicas – tão frequente quanto imprevisível – sacudiu o fundo do oceano e propagou--se vorazmente ao longo de 35 quilómetros até encontrar terra firme. Passavam precisamente 43 minutos das 15 horas. 
Um ronco ensurdecedor vindo do chão, das pedras das ruas e do mar alastrou como um relâmpago, sacudindo, abanando, desmoronando e destruindo estruturas, casas, telhados, abatendo e soterrando varandas, tectos, carros e pessoas. Tudo tremia e a terra rasgava-se, esventrando o que se lhe deparava pela frente. Durante longos segundos, o mundo girou ao contrário.
Quando a terra sossegou, sobrepôs-se um silêncio sepulcral, dorido, quase irreal, apenas interrompido pelos ruídos intercalados de mais uma parede que caía, de um tecto que desabava, de uma casa que sucumbia. E pelos lamentos, choro e desânimo das pessoas que, como que em câmara lenta, saíam dos escombros. Aturdidas, confusas, com as roupas rasgadas e com a cara coberta de pó, olhavam à volta e viam como o seu mundo se apresentava escaqueirado. Angra, a valente Angra, a Angra do Heroísmo, estava desfeita em pó. 

Angra, a valente Angra, a Angra do Heroísmo, estava desfeita em pó. 

Ano novo, vida nova, reza o ditado. As ilhas de São Jorge e da Graciosa, mas sobretudo a Terceira, tiveram de recomeçar um novo ciclo – o sismo que sobre elas se abateu ocorreu precisamente no primeiro dia de Janeiro do ano de 1980. Dentro da infelicidade, um feliz acaso: por ser dia de Ano Novo, muitos habitantes encontravam-se na rua, o que minimizou o número de sinistrados – 71 mortos e mais de 400 feridos – mas com um saldo penoso de cerca de 15 mil desalojados. Séculos depois, recorreu-se à velha máxima pombalina: enterrar os mortos e cuidar dos vivos. E ressuscitar a cidade das cinzas.
A tarefa não se adivinhava fácil. Os terceirenses sabiam bem a diferença entre os abalos de terra e os sismos. Os primeiros eram sentidos com uma certa indiferença e rapidamente esquecidos nos anais da memória; os últimos eram para reter pelo desfiar dos anos. E este, o de 1980, ficará para sempre como “o sismo” – chegou a atingir 7.4 na escala de Richter. Há claramente um “antes” e um “depois” do sismo. 

O azul da Igreja da Misericórdia destaca-se nesta panorâmica do centro histórico visto a partir da marina de Angra do Heroísmo. À esquerda, elevando-se acima dos telhados, são visíveis as duas torres da Sé Catedral do bispado dos Açores, com sede em Angra.

Quem olhasse para a cidade reduzida a escombros dificilmente adivinharia a sua imponência, importância e até elegância que deteve durante séculos, praticamente desde o início do povoamento, que terá ocorrido sensivelmente por volta de 1450. A antiga ilha de Jesus Cristo, a terceira do arquipélago a ser descoberta, rapidamente conquistou um lugar de primazia comparativamente às suas “irmãs”, não propriamente pela situação geográfica mas, sobretudo, pelas características tão apropriadas para o assento de um núcleo populacional na parte sul, aninhado numa baía recôndita sob a sombra tutelar do monte Brasil. Era um belo porto de abrigo, onde se lançava âncora com segurança – e o nome Angra (de anchora) surgiu com naturalidade. 
Desde esse primeiro assento humano que Angra aumentou de gente, de importância e as suas ruas fervilhavam de actividade. Ruas essas, diga-se de passagem, que tornaram muito específica a malha urbana com que as teceram, responsabilidade atribuída ao navegador Álvaro Martins Homem – secundado por João Vaz Côrte-Real – que aproveitou, excepcionalmente para a época, a configuração natural do local: um vale rodeado por colinas que desembocava no mar e rasgado por uma ribeira, uma baía de águas profundas e ideal para instalar um porto, e a altivez do monte Brasil, um promontório vulcânico que a protegia dos ventos e das correntezas que varrem a zona.

Desde esse primeiro assento humano que Angra aumentou de gente, de importância e as suas ruas fervilhavam de actividade.

É lógico o ordenamento do casario, atendendo à época: ruas tortuosas e em declive, um emaranhado de ruelas e pequenas praças que, também ao jeito medievo, se adaptavam ao terreno e, invariavelmente, conduziam à parte baixa, ao mar. Mas as ruas adjacentes cingiram-se na perfeição ao arruamento original, para elas confluindo de forma ordenada, quase simetricamente, dando a ideia de afluentes de um rio que tem sempre o mesmo destino. Para tal traçado geométrico, houve que alterar o curso da ribeira de Angra, com avançados processos de engenharia, o que proporcionou a criação de novas áreas de desenvolvimento urbanístico. A cidade adquiriu assim um cunho renascentista. A geometria dos arruamentos ligava harmoniosamente o núcleo medieval à parte central da urbe e à actual Praça Velha, o seu verdadeiro coração. Angra era uma cidade moderna, tão avançada para a época que, só mais tarde, o modelo foi seguido noutras paragens.


Um estudo recente do Instituto de Tecnologia Comportamental distinguiu Angra como o melhor concelho do país para viver. A iniciativa avaliou indicadores como as acessibilidades, o ambiente ou o urbanismo.

 Na última década do século XV, Angra já era uma vila importante e com papel fulcral no desenvolvimento da expansão portuguesa. O cabo Bojador era coisa do passado, e até o cabo das Tormentas tinha sido vencido, abrindo a rota da Índia por mar. À ida ou no regresso, por força dos ventos e das marés, os Açores (e essencialmente Angra) tornaram-se pontos obrigatórios de passagem e paragem. Os cheiros dos incensos e das especiarias depressa inundaram a cidade. O estatuto citadino foi adquirido em 1524, simultaneamente com a atribuição de diocese de todos os Açores e sede de bispado.

Angra tornou-se uma cidade de corpo grande, um pólo mercantil e uma miscelânea de culturas inebriante. Já não era só uma cidade no meio do Atlântico – ganhou asas e tornou-se transatlântica.

Todo o século XVI foi de desenvolvimento e prosperidade. A juntar à rota marítima e às riquezas provenientes de África, da Índia e do Oriente, acrescentou-se o incessante movimento de navios carregados de prata das Américas e de ouro do Brasil. Angra tornou-se uma cidade de corpo grande, um pólo mercantil e uma miscelânea de culturas inebriante. Já não era só uma cidade no meio do Atlântico – ganhou asas e tornou-se transatlântica. Um ponto de ligação entre mundos, uma linha condutora entre o antigo e o moderno.
Com tamanhas características, Angra despertava cobiça, e imediatamente se pensou que havia que dotá-la de um sistema defensivo. Cada vez mais navios com a bandeira dos piratas rondavam aquelas águas. No reinado de Dom Sebastião, em 1570, ergueu-se o primeiro reduto defensivo, num morro da baía e que ganhou o nome do monarca que o mandou erigir – se bem que os angrenses a ele se refiram como castelinho, em vez de Forte de São Sebastião.

Onde hoje se ergue a Igreja da Misericórdia funcionou, no final do século XV, o primeiro hospital de todo o arquipélago.  A estrutura actual foi construída durante duas décadas do século XVIII. Logo acima do pórtico principal, pende um brasão com as Armas Reais.

 Quando adveio a crise de 1580, nem o forte valeu face às investidas da armada de Filipe II de Espanha. Apesar da tenacidade dos sitiados, a despeito de ter sido um dos últimos baluartes de defesa da nacionalidade, debalde os três anos de resistência ao cerco, Angra foi tomada pelos invasores. Uma vez na posse filipina, a cidade viu reforçado o seu sistema defensivo. Sólidas muralhas que ocupam uma área de 3km2 rodearam todo o monte Brasil, uma empreitada imponente, simbólica do poderio filipino, mas que tornou a cidade praticamente inexpugnável.
Com Filipe I de Portugal, Angra cresceu comercialmente, tornando-se um entreposto-chave dos navios que traziam preciosidades do México, Peru e de outros locais do Novo Mundo, e que por aqui faziam escala antes de descarregarem os porões nos portos da Península Ibérica.
A partir da Restauração da Independência, Angra voltou a destacar-se um pouco mais tarde, e um salto no tempo permite avançar até à época das lutas liberais, em que ao nome da cidade foi acrescentado, por sugestão de Almeida Garrett, o apelido de Heroísmo, dado o papel preponderante que desempenhou e por ter sido berço da regência liberal. Pela segunda vez, Angra mereceu a proclamação de capital do reino. 
Foi toda esta cidade, todo este passado histórico, todo este património, toda esta junção de culturas que quase foram reduzidos a pó com o terramoto de 1980.  


Apreciada agora do Obelisco da Memória, a cidade espraia--se sob a sombra do monte Brasil. Fortemente abalada por sismos em 1755 e em 1980, entre outras catástrofes, Angra do Heroísmo soube sempre reconstruir-se e reinventar-se, respeitando a traça original.

 Quando as derrocadas cessaram e o chão parou de tremer, tudo se processou rapidamente. Havia que abrigar os desalojados, urgia reconstruir os edifícios, era premente reerguer o testemunho histórico. E, no espaço de 15 dias, estabeleceram-se as primeiras medidas. 
A recuperação de Angra do Heroísmo obedeceu aos mesmos critérios da sua fundação: manter a malha urbana que ainda se mostrava actual, preservar a traça arquitectónica e dotar as casas com sistemas de segurança face ao futuro. Ainda um pouco dormente, começou a conjecturar-se a possibilidade de, com o restauro da cidade, poder avançar-se com o projecto de candidatura à UNESCO.       
Em termos práticos, a cidade foi-se compondo de forma ordenada: definiram-se os edifícios mais emblemáticos a recuperar e, a cada um deles, estava adstrito um raio entre 50 e 100 metros, pelo que, ao restaurar-se esse edifício-chave, também se reabilitava tudo o que estava nesse raio de acção. Passo a passo, quarteirão a quarteirão, a cidade reergueu-se das cinzas.

Também ouve entraves, além dos obviamente inerentes à recuperação de uma cidade quase inteira e que entroncam directamente nas razões humanas.

Também ouve entraves, além dos obviamente inerentes à recuperação de uma cidade quase inteira e que entroncam directamente nas razões humanas. Francisco Maduro-Dias, historiador e presidente do Instituto Histórico, adianta que “antes, as pessoas que viviam na cidade procuravam um refúgio campestre, e aproveitaram a destruição para construírem casas ‘lá em cima’, nas zonas verdes. Por sua vez, as que viviam no campo sempre se sentiram seduzidas pela vida de cidade, pelo que aproveitaram a oportunidade e mudaram-se para aqui. Mas faltava o resto – o afecto”. Por outras palavras, “as pessoas habituaram-se a nascer, crescer e viver na mesma casa, sempre com as mesmas referências: a varanda, a janela onde espreitavam a rua, as cores do quarto, a mobília, a mesa onde comiam… Só que, agora, estavam num espaço que não era o seu de sempre. É essa uma das grandes diferenças para com outros patrimónios portugueses – as coisas sempre lá estiveram; aqui, reconstruíram-se coisas, mas também se movimentaram pessoas. E isso, por vezes, altera tudo”.

Velhos e novos partilham o entusiasmo pela cidade. A população do concelho não flutuou muito desde o início do século XX, com um pico nos anos 1960, quando viviam aqui 40 mil almas. Em 2004, a população era de 35 mil.

 O certo é que, muito por acção de Álvaro Monjardino, Angra avançou com a candidatura. Ao contrário do que muitos pensam, não o fez meramente pela recuperação arquitectónica, mas também pelo passado histórico e cultural da cidade. “A proposta foi muito bem entendida, por ter sido abordada numa conjuntura temática, a da expansão portuguesa e a ligação a outros locais já classificados, como Goa, a ilha de Moçambique e Salvador da Bahia”, esclarece Jorge Paulus Bruno, director do Museu de Angra.

Volvidos três anos após o sismo, Angra do Heroísmo entrou para a lista do Património da Humanidade.

Volvidos três anos após o sismo, Angra do Heroísmo entrou para a lista do Património da Humanidade. É o único conjunto urbanístico português, aliás, que detém este estatuto e, na altura da votação, teve a concorrência de candidaturas de edifícios isabelinos ingleses, castelos franceses, catedrais góticas alemãs. Mas Angra soube esgrimir argumentos imbatíveis – sempre foi uma cidade aberta para o mundo, não meramente macaronésia, não somente atlântica, mas, sobretudo, transatlântica. E o sismo de 1980 foi uma infelicidade “feliz” no encontro de Angra com a história. 
Hoje, a cidade é uma jóia rutilante. Harmoniosa, multicolor nas fachadas, cuidada, mimosa, ruas calcetadas e passeios em calçada portuguesa com desenhos geométricos ou florais, varandas de ferro forjado imaculadamente pintado de verde, portas e janelas debruadas de cores, enfim, um alegre caleidoscópio no Atlântico.

A fotografia dá conta de como a cidade cresceu nas imediações do Castelo de São João Baptista, antigamente designado por São Filipe.

 O azul imenso do mar, ali à frente, visível de quase todos os pontos, encanta, tal como a marina e o porto, a arquitectura militar dos fortes de São Sebastião e de São João Baptista, as vistas altaneiras do monte Brasil, a elegância da Igreja da Misericórdia e da Sé Catedral, a harmonia da Praça Velha, o dédalo de ruas onde casas, mansões e palácios se aconchegam. Angra é bonita, e é bonito passear por ela. Os habitantes afinam pelo mesmo diapasão: “Angra está uma bela cidade, e sentimo-nos contentes e orgulhosos por vivermos num sítio que é Património da Humanidade. Mas ainda não sabemos bem o que fazer com ela”, escuto de um residente.

Angra é bonita, e é bonito passear por ela.

Reclama-se mais vida, mais movimento, mais actividades, mais eventos, e logo numa ilha que se distingue das restantes pela animação, pela dinâmica festiva, pelas festas, touradas e Carnaval.
O futuro é um desafio, e Angra do Heroísmo ainda tem um papel a desempenhar. Tornando-se utilizável, rendível e referenciável como cidade de culto e de cultura. Contornando-se a eterna visão sebastiânica da portugalidade, resta uma certeza convicta na alma de todos os terceirenses: Angra do Heroísmo, Património da Humanidade, tem pernas para andar. E como é bom andar por estes passeios, ruas e praças!

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