Macau, porta de acesso ao império dos chins

A chegada dos portugueses a macau 
correspondeu a uma nova fase na história 
das relações chinesas com o exterior e, ao mesmo tempo, deu um novo impulso à expansão portuguesa.

Texto João Paulo Oliveira e Costa

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Cercado pelo imparável progresso imobiliário da cidade, o monumento ao navegador Jorge Álvares, o primeiro português a pisar a China em 1513, marca o contraste entre a cidade histórica e a moderna metrópole.

Quando os portugueses chegaram à Índia, em 1498, cedo se aperceberam da existência de uma outra grande civilização, igualmente consumidora das especiarias produzidas pela Ásia do Sul. Pouco interessados na geografia de Marco Polo, não buscavam o Cataio ou o Cipango, como fazia Colombo enquanto navegava pelas Caraíbas e ao longo da costa centro-americana, mas ouviram falar dos “chins”, cujo império ficava a oriente, para lá de Malaca. E se não havia chineses nas águas do Índico, as mercadorias do Celeste Império circulavam pelos mares da Índia, e em 1504 as porcelanas já eram usadas por D. Manuel I como oferta diplomática. Em 1508, quando o rei português enviou uma armada a descobrir Malaca, ordenou igualmente que inquirissem sobre os “chins”. Foi precisamente no porto malaio que se deu o primeiro encontro luso-chinês.

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Macau foi sempre intrigante para os ocidentais. Esta imagem de uma aguadeira perto da fachada de São Paulo foi publicada na National Geographic em 1969.
Fotografia Joe Scherschel

A conquista de Malaca por Afonso de Albuquerque, em 1511 (cujo 500.º aniversário se celebrou em 2011), contou com o apoio discreto dos mercadores chineses aí estabelecidos. Passados dois anos, deu-se a chegada do primeiro oficial da Coroa portuguesa a Cantão (Guangdong). Iniciou-se então um comércio intenso e altamente lucrativo que duraria oito anos. No entanto, em 1521, a situação inverteu-se, pois o poder naval dos portugueses assustou as autoridades chinesas. E como as embarcações portuguesas traziam apenas produtos da Ásia do Sul, não eram um parceiro necessário aos olhos chineses.

Os portugueses, bem recebidos nos portos do País do Sol Nascente, enfrentaram a hostilidade dos oficiais do Império do Meio.

Durante dois decénios, aventureiros portugueses continuaram a frequentar o litoral da China, desafiando os mandarins regionais, mas contando com alguma cumplicidade de populações costeiras. Era um jogo do rato e do gato, que muitas vezes teve um fim trágico, como tão bem relatou Fernão Mendes Pinto em “A Peregrinação”, publicada postumamente em 1614. Nas suas deambulações pelo mar da China, alguns mercadores chegaram às praias de Tanegashima, em 1543. A descoberta do Japão pelos portugueses alterou radicalmente a situação: embora de relações cortadas, os chineses desejavam a prata nipónica, e os japoneses procuravam a seda do Celeste Império. Logo os aventureiros lusos entraram neste jogo de trocas. Bem recebidos nos portos do País do Sol Nascente, continuaram a enfrentar a hostilidade dos oficiais do Império do Meio, mas persistiram e demonstraram, simultaneamente, que tinham poder militar para derrotar a pirataria que infestava o litoral chinês.

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A população da cidade foi sempre maioritariamente chinesa. Esta imagem 
dos arquivos da National Geographic de 1969 documenta a pressão demográfica sentida neste curto território.
Fotografia Joe Scherschel

Finalmente, no início dos anos 1550, as autoridades de Cantão reconheceram a importância estratégica dos “frangues” – esses estranhos bárbaros, vindos de longe, hábeis no comércio, eficazes na guerra, mas pouco numerosos. Aos poucos, mostravam-se úteis e menos ameaçadores. Gente desorganizada, actuando a título privado, os aventureiros do mar da China ganharam poder negocial quando a Coroa interveio no negócio sino-nipónico e monopolizou a rota China – Japão. O fidalgo Leonel de Sousa chegou à região em 1553 e conseguiu negociar com os mandarins em nome de todos os portugueses. Em 1554, obteve-se, finalmente, 
autorização para o estabelecimento na foz do rio das Pérolas, dez anos depois de terem iniciado o trato da prata e da seda.

No início dos anos 1560, Macau era já o porto dos portugueses na China.

Nos anos que se seguiram, os agentes lusos dispersaram-se por várias ilhas do delta, mas o monopólio decretado pela Coroa levou a que a circulação entre a China e o Japão passasse a ser feita por uma grande nau, cuja viagem começava e acabava em Goa. Em 1557, a nau fundeou em Macau e fez aí a longa escala de dez a onze meses que antecedia a passagem para o arquipélago do Sol Nascente, enquanto os mercadores vendiam as especiarias, compravam a seda nas feiras de Cantão e aguardavam a mudança da monção. A qualidade do porto levou a que nos anos seguintes a grande nau do trato, imortalizada pelas imagens dos biombos namban, repetisse a escala, o que motivou uma rápida concentração dos mercadores nesse porto. No início dos anos 1560, Macau era já o porto dos portugueses na China. As primeiras casas pouco consistentes começaram a dar lugar a outras de sobrado, com vários andares; o povoado ganhava perenidade e a riqueza do comércio dava-lhe brilho.

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