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A marca da globalização

O historiador João Paulo Oliveira e Costa, da Universidade Nova de Lisboa, evoca a transformação do imaginário europeu a partir do século XV e do início da expansão portuguesa. O mundo não voltaria a ser igual depois de as primeiras caravelas sulcarem os mares do Atlântico e derrubarem mitos persistentes. O primeiro impulso dos Descobrimentos foi inequivocamente para leste e para o Índico.

No início do século XV, o mundo estava compartimentado e muitas civilizações viviam fechadas sobre si próprias com poucos contactos com o exterior. A conquista de Ceuta, em 1415, e a passagem do cabo Bojador, em 1434, fizeram de Portugal o pioneiro da Expansão europeia e, consequentemente, da Globalização, um movimento que se tornou imparável e irreversível desde que Gil Eanes e os seus homens venceram o mito do Mar Tenebroso. Outras civilizações tinham galgado os seus limites originais e haviam alargado muito a sua influência ou mesmo o seu domínio, adquirindo até configurações intercontinentais, como sucedera na Antiguidade com o império de Alexandre e depois com o dos romanos, e mais tarde com o califado e com o império mongol; os juncos da dinastia Ming atingiram a actual Tanzânia precisamente no início do século XV, mas nenhum destes movimentos, que chegaram a parecer imparáveis e avassaladores, havia persistido. 

Américo Vespúcio em gravura contemporânea.Explorador e cartógrafo,o seu nome foi perpetuado no continente americano. No topo da página, navio relicário de Santa Úrsula de ouro, prata, coralina e esmalte. Foi doado por Henrique III de França à Catedral de Reims em 1574.

A conquista de Ceuta, em 1415, e a passagem do cabo Bojador, em 1434, fizeram de Portugal o pioneiro da Expansão europeia e, consequentemente, da Globalização.

Ainda assim, a Eurásia constituía a área que tinha contactos mais globais e que persistiam há milhares de anos, e muitos dos progressos da Cristandade resultaram da aprendizagem de invenções e criações asiáticas, como foi o caso do papel e das armas de fogo, inventados na China, ou dos algarismos, criados na Índia; até a religião que unia todos os europeus tinha despontado na costa asiática do Mediterrâneo. No entanto, os povos da Europa desconheciam objectos como a porcelana, animais como o rinoceronte, e mesmo a religião budista, por exemplo, e tinham uma ideia muito imperfeita sobre a Índia, o seu território, as suas gentes e as suas crenças, apesar de consumirem intensamente as especiarias há mais de mil anos. 

Colombo: atrevimento ou pura ambição?
Primeiro perante a corte portuguesa e depois perante a castelhana, Cristóvão Colombo terá defendido a ideia de que se poderia chegar às Índias pelo oceano Atlântico. A sua real convicção é ainda objecto de debate.
A travessia do oceano Atlântico navegando por águas desconhecidas até ao Ocidente, à procura da Ásia, era um empreendimento ousado, para não dizer imprudente. Colombo tinha uma fé cega nos seus cálculos e pediu aos Reis Católicos não só uma frota, mas também uma série de regalias sobre as terras descobertas. Essas exigências sugerem que, para além da ambição do genovês, Colombo tinha forte confiança na sua demanda, talvez por contar com informação prévia. É aqui que entra a teoria do prenauta, um navegador que pode ter chegado acidentalmente à costa oeste do Atlântico e que, de regresso à Europa, confiara o avistamento a Colombo antes de morrer. O inca Garcilaso de la Vega chega a nomear esse piloto anónimo: Alonso Sanchez, natural de Huelva. Na imagem, Colombo no Mosteiro de La Rábida, óleo pintado em 1856 por Eduardo Cano de la Peña (Palácio do Senado, Madrid).

Nessa época, o oceano Atlântico era um espaço por onde os homens não circulavam, salvo ao longo da costa europeia e no extremo noroeste africano. 

Para lá dos limites do conhecido, tudo era possível de existir, e mesmo os europeus alimentavam hipóteses fantásticas: a Terra era plana ou redonda?

Além disso, nenhum ser humano sabia a configuração do planeta Terra, nem sequer o número de continentes ou de oceanos existentes. Fora da Eurásia, as populações comunicavam pouco e, por isso, os aztecas nunca souberam da chegada dos castelhanos às Caraíbas até que os homens de Cortés penetraram no seu império um quarto de século depois da primeira viagem de Colombo; e mesmo na periferia da Eurásia havia povos que tinham conhecimento limitado do exterior, como os japoneses, que designavam o resto do mundo como “os três países” e que não tinham armas de fogo, embora os chineses as tivessem e fossem os inventores da pólvora. 

Para lá dos limites do conhecido, tudo era possível de existir, e mesmo os europeus alimentavam hipóteses fantásticas: a Terra era plana ou redonda? Tinha a maior parte da sua superfície coberta por água ou por terras emersas? Existiam seres maravilhosos, como homens com quatro olhos, cara de cão ou só uma perna? E o mar nas zonas mais quentes fervia ou era habitado por monstros medonhos? Hipóteses que hoje nos parecem incríveis e disparatadas eram, afinal, a realidade do mundo exterior dos povos da Terra, independentemente do continente em que viviam.

Todos criam que as águas a sul do Bojador eram povoadas por seres bestiais e agressivos, e todos julgavam que a própria água era quente demais por causa do aumento do calor sempre que se avançava para sul.

Se as lendas sobre os seres fantásticos de terras ignotas podiam gerar curiosidade e quiçá uns calafrios aos mais imaginativos, a realidade próxima dos europeus provocava-lhes um grande receio. Se a ausência de viagens de exploração para as águas ocidentais se compreendia, devido ao desconhecimento de terra firme alcançável e devido à falta de meios de orientação em mar alto aberto, a recusa de explorarem a costa ocidental africana radicava apenas no medo – todos criam que as águas a sul do Bojador eram povoadas por seres bestiais e agressivos, e todos julgavam que a própria água era quente demais por causa do aumento do calor sempre que se avançava para sul. E não se tratava de hipóteses quiméricas ou de relatos de jograis: era a realidade, a certeza de todos, que estava consubstanciada no facto de nenhum dos aventureiros que tinha ousado partir para o Sul ter voltado. Era, pois, o medo que tolhia a exploração do oceano, e era a capacidade militar do islão que bloqueava as frentes oriental e meridional da Europa. Aliás, nesta época, o território da Cristandade estava a diminuir à medida que a máquina de guerra otomana ia esmagando todos os exércitos que a enfrentavam nos Balcãs.

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