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Num baile de formatura no Grand Hotel Emerald de São Petersburgo, os alunos ajudam a preparar uma pirâmide de cocktails. O fim do comunismo trouxe pobreza e riqueza à Rússia e criou uma pequena classe média. Para os jovens que viveram a volátil década de 1990, a segurança económica continua a ser o principal desejo.

É a afirmação mais política que tem na actualidade. Em 2011, Liza interessou-se pela política liberal. Aderiu à Amnistia Internacional e ao partido liberal Yabloko como observadora para as eleições parlamentares de Dezembro. Foi designada para a mesa de voto na escola da irmã mais nova e ficou chocada ao ver professores encherem as urnas submetendo mais do que um boletim de voto. Quando Liza tentou intervir, gritaram com ela e fizeram-na sentar-se num canto enquanto o director da escola lhe bloqueava a visão. Isto acontecia por todo o país. Muitos observadores fotografaram esta situação com os telemóveis e colocaram as provas na Internet, o que deu origem a um movimento de protestos em massa, em Moscovo e outras grandes cidades, como nunca se vira na Rússia em duas décadas. 

Liza perdeu a coragem. “Eu estava histérica”, diz-me. “Passei duas horas a chorar”. Depois disso, decidiu, que nunca mais se envolveria em política. “Não me preocupa e eu não sou suficientemente forte para lutar”, confessa. É uma promessa que não quebrou, mesmo quando o rublo caiu, limitando a hipótese de fazer a outra coisa que mais ama: viajar. “Sim, é terrível. Há menos oportunidades”, diz ela, mas recusa-se a procurar uma resposta na política.

Kseniya Obidina, uma amiga dos tempos da Faculdade de Direito, vê as coisas da mesma forma. Também foi marcada pelo divórcio dos pais durante a infância, também certifica que a família e a estabilidade têm uma importância primordial para si. Quer um emprego seguro e bem remunerado. Quer ser capaz de custear viagens e sustentar a mãe e a irmã. Tal como Liza, recusa-se a pensar em política “Não vejo interesse em falar sobre algo que não podemos influenciar”, diz enquanto nos sentamos num Starbucks moscovita. Quando saímos, acrescenta: “Porque havemos de andar sempre maldispostos?”

Putin chegou ao poder no ano 2000 como um candidato que combatia o lodo da década de 1990 no momento em que esta geração começava a tornar-se consciente do mundo em redor.

Como se chegou a este ponto? Vladimir Putin representa uma grande fatia da resposta. Putin chegou ao poder no ano 2000 como um candidato que combatia o lodo da década de 1990 no momento em que esta geração começava a tornar-se consciente do mundo em redor. Prometeu prosperidade e segurança. Apoiando-se nos preços historicamente elevados do petróleo e nas reformas económicas implementadas na década anterior, Putin conseguiu cumprir boa parte dessa promessa, mas fê-lo à custa das liberdades democráticas. Putin, aliás, designou a desintegração da União Soviética como “a maior catástrofe geopolítica” do século XX. “Quem não a sentiu não tem coração”, disse. 

Joseph Stalin tornou-se, na linguagem de negócios do país, um “gestor eficaz” que foi um pouco longe de mais. Os manuais escolares e a televisão começaram a reflectir esta nova nostalgia sancionada pelo Estado. Segundo as sondagens, 58% dos russos ainda gostariam de ver um regresso da ordem soviética e 40% lembram favoravelmente o regime de Stalin.

Muita da vida após a era soviética tem sido uma busca infeliz de uma ideia unificadora. Inicialmente, era a democracia, mas o consumismo substituiu a ocidentalização. “A modernização chegou através do consumo, mas isso não é suficiente”, diz a socióloga Zorkaya. O IKEA chegou à Rússia em 2000 e tornou-se popular entre a nova classe média como uma forma acessível de viver ao estilo europeu, ou seja, de uma forma não soviética. “Tornou-se um símbolo da forma como se poderia civilizar a vida sem gastar muito dinheiro”, diz ela. “De alguma maneira, os russos não ponderaram que, por detrás desta marca de decoração, existia um conceito de ser humano e de valores totalmente diferente.”

Os alunos do seminário da Academia Teológica de Moscovo em Sergiyev Posad estudam o Novo Testamento, música litúrgica, pintura de ícones e outros assuntos. Brutalmente reprimida pelos comunistas, a Igreja Ortodoxa Russa ressurgiu com Putin, que a vê como aliada na sua tentativa de restaurar a grandeza da nação.

Desde o início do seu terceiro mandato presidencial, em 2012, Putin promoveu uma ideologia neo-soviética ainda mais agressiva, tanto no país como no estrangeiro. Lutou para manter as antigas repúblicas soviéticas, como a Ucrânia e o Cazaquistão, na esfera de influência de Moscovo e reforçou o poder militar da Rússia na distante Síria. Novas leis promoveram valores sociais tradicionais e tornaram a discordância ainda mais perigosa. Um dos resultados é uma geração cujos sonhos são a encarnação de tudo o que Putin deseja que seja: conformista, materialista e profundamente avessa ao risco.

Muito resulta da popularidade estratosférica de Putin: na altura em que esta reportagem foi escrita, Putin recolhia a aprovação de 80% dos russos e, entre os jovens de 18 a 24 anos, a taxa ainda era mais elevada: 88%. Mais do que qualquer outra geração, têm um profundo orgulho no seu país e na posição que este ocupa na esfera mundial, associando o poder militar à grandeza e acreditando no seu futuro.

Num pátio escuro de Novosibirsk, entre dois edifícios de tijolo do século XIX, encontro os boémios locais a beber cerveja e a ouvir música electrónica. É aqui que Filipp Krikunov, nascido em 1995, abriu uma galeria de arte. Esquivando-se da multidão, ele mostra-me o local. Um quarto está iluminado com uma luz cor-de-rosa fluorescente; na parede, distribuem-se prateleiras que exibem bustos de Lenine pintados com padrões divertidos. Na sala ao lado, jovens artistas montaram modelos de quebra-cabeças para produzir selfies: coloque a cabeça nesta caixa de cartão cheia de espelhos partidos. Coloque a cabeça noutra e descobrirá os restos de uma refeição do Burger King.

Mais do que qualquer outra geração, têm um profundo orgulho no seu país e na posição que este ocupa na esfera mundial, associando o poder militar à grandeza e acreditando no seu futuro.

Um dos amigos e parceiros de Filipp na galeria aparece e aperta-me a mão. “Acabámos de descobrir que não enterraram ninguém neste espaço”, brinca. Depois de Filipp alugar o espaço, ele e os amigos perceberam que o prédio vizinho abrigava o FSB. Na década de 1930, esta polícia chamava-se NKVD, e foi responsável pela morte de cerca de 1,2 milhões de pessoas. Muitas vezes, as vítimas do NKVD eram enterradas no local onde eram mortas. A galeria de Filipp, Space of Modern Art, teve sorte. Não havia ossos na cave! Apenas hipsters naquela noite de Verão amena da Sibéria.

Eu tinha conhecido Filipp nesse dia de manhã num café chique de Novosibirsk, rodeado de mulheres sofisticadas de lábios carnudos de botox. Novosibirsk é a terceira maior cidade da Rússia, um centro de inovação científica e indústria. Há muito dinheiro aqui. Todavia, Filipp não viu muito. Cresceu sem pai e, como muitos jovens russos, foi criado pela mãe e pela avó. O bisavô lutou na Segunda Guerra Mundial e foi mais tarde vítima da “Grande Purga” de Stalin. A avó tornou-se uma engenheira química de prestígio e a mãe trabalhou também na área das ciências. A paixão das duas mulheres é a política. 

Filipp tinha 16 anos quando os protestos pró--democracia emergiram em Moscovo e alastraram para cidades como Novosibirsk. Dezenas de milhares de pessoas saíram à rua para exigir eleições livres e justas. Filipp também estava farto de Putin. “Enviaram-lhe mensagens de descontentamento, mas não houve diálogo”, conta. Ele não reconheceu a Rússia que a televisão controlada pelo Kremlin mostrava. “Era um país diferente”, diz. “Eu não conhecia uma única pessoa assim.”

Antes das celebrações do “Dia da Vila” em Nikolskoye, a nordeste de Moscovo, os jovens fazem o que toda a juventude faz nos locais onde o divertimento é escasso: saem e namoram. Até à recente recessão, a economia do país baseada no petróleo expandiu-se rapidamente e os jovens russos afluíram às cidades em busca de empregos mais bem pagos.

 “Fui às manifestações, tentei ser politicamente activo”, diz. Rapidamente se desapontou. “Olhei em volta e não reconheci as pessoas que estavam nos protestos”, continua. “E na verdade, não levou a nada.”

Não é bem verdade. Os protestos mudaram a situação, só que para pior. Em Maio de 2012, o Kremlin reforçou as medidas de segurança e dezenas de pessoas que tinham participado nos protestos foram detidas, julgadas e presas. A situação política do país foi piorando, pois Putin prosseguiu com uma linha de governação mais autoritária. Rotulou publicamente os liberais que defendiam a liberdade e a democracia, como “traidores nacionais” e “quinta coluna”.

A resposta agressiva deixou uma marca profunda na geração Putin: ensinou-a a ficar fora da política. “Decidi que ou lutava contra este sistema ou vivia num sistema diferente”, diz Filipp. Escolheu o mundo das artes. “É mais saudável”, diz. “A política dá cabo dos nervos. Estamos sempre infelizes, não conseguimos desfrutar a vida.”

Putin está pronto para as eleições de 2018. Há poucas dúvidas de que irá recandidatar-se e certamente conquistará novo mandato de seis anos.

Putin está pronto para as eleições de 2018. Há poucas dúvidas de que irá recandidatar-se e certamente conquistará novo mandato de seis anos. Isso significa que ficará no poder até 2024, pelo menos. Nessa altura, Filipp, que tinha 5 anos quando Putin se tornou presidente, terá 29 anos. Está confortável com a ideia de viver com Putin no poder até lá? Filipp encolhe os ombros. “Vivi toda a minha vida com a minha mão direita e está tudo bem.”

Em Akademgorodok, uma pequena cidade académica construída em torno da Universidade Estadual de Novosibirsk e dos seus muitos laboratórios, conheço Alexandra Mikhaylova, de 20 anos. Alexandra cresceu numa família de cientistas: a mãe é geóloga e o pai físico. Mudaram-se para esta pequena cidade, fundada em 1957 como incubadora de ciência e motor da corrida tecnológica entre a União Soviética e o Ocidente. Desde o colapso soviético, os cientistas russos perderam a corrida contra os colegas ocidentais. Os pais de Alexandra prosseguiram a carreira no mundo dos negócios.

Agora, a estudante de jornalismo trabalha num documentário sobre a cidade e a sua história intelectual, especificamente o movimento underground da década de 1960. “Eles tinham o seu próprio sistema de governo até 1966”, diz Alexandra. Os olhos iluminam-se quando fala da sua investigação sobre este pequeno recanto de liberdade e fermento intelectual num mar de totalitarismo. Em 1966, alguns desses jovens cientistas enviaram uma carta a Moscovo com um rol de críticas. A resposta foi rápida, conta Alexandra. Muitos foram demitidos e foi implementado um rígido controlo político. O documentário da jovem começa na década de 1980 com o submundo punk-rock soviético que se espalhou pelo país.

Mikhail Vasilev, um vendedor de equipamentos de bilhar de 29 anos, treina as suas manobras de skate na Praça Triumfalnaya em Moscovo, perto de uma estátua de Vladimir Mayakovsky, poeta que louvou a revolução de 1917. Os jovens russos têm mais liberdade do que os pais e os avós jamais poderiam ter imaginado.

Actualmente, o processo “está estagnado”, diz. “Falta algo. As pessoas não se envolvem na política. Quando se trata do governo, os jovens são neutros ou têm uma opinião positiva. Ninguém defende a sua opinião e há uma linha ténue entre indiferença e concordância.”

O governo desenvolve outra vez processos de censura. Um músico rock da década de 1990 viu o seu concerto cancelado depois de se pronunciar sobre a invasão da Ucrânia. “Ano após ano, encerram mais um meio de comunicação, atacando aqueles que relatam as notícias de forma mais objectiva”, diz Alexandra. Ela sente-se triste por sentir que Akademgorodok, a cidade onde vive, já não tem o fervor criativo das décadas de 1960 e 1980. Ao contrário da experiência dos pais, a sociedade à sua volta é cautelosa e envelhecida. Ela anseia por uma mudança, um abanão, mas sabe que ele não será produzido pela sua geração.

“Serão os miúdos que têm agora 13 ou 15 anos”, diz Alexandra melancolicamente. Talvez a geração dela possa influenciar o processo. “Tentaremos ajudar, mas, quando se tem 30 anos, não se pode estar à frente de uma revolução com um bebé nos braços.”

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