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Com sete milhões de seguidores no Instagram, a actriz Nastasya Samburskaya (@samburskaya) de 29 anos é uma das estrelas das redes sociais na Rússia. No entanto, como muitos moscovitas, vive num pequeno apartamento. À semelhança dos jovens em muitos países, os jovens russos raramente se separam dos seus smartphones.

 O pai combateu na primeira guerra da Chechénia, em 1994. “Não vás para o exército, filho”, aconselhou-o certa vez. Isso é tudo o que recorda do pai na década de 1990, no entanto não escapará ao serviço militar obrigatório. “Sempre quis participar”, resume. “Todos na minha família estiveram nas forças armadas.” Além disso, o serviço militar abre algumas hipóteses de emprego mais lucrativas para um jovem na Rússia: trabalhar na polícia ou no Serviço de Segurança Federal, ou FSB, o sucessor da KGB. O exército dar-lhe-ia a hipótese de poder ser polícia como o pai. “Eu quero mesmo ter um rendimento estável”, diz Alexander.

Enquanto conversamos, o seu amigo Stepan entra e junta-se a nós. “Está a escrever sobre a vida na antiga União Soviética?”, pergunta com um sorriso malicioso. “As pessoas viviam muito melhor.”“Como?”, exclama Alexander. “Viviam melhor?! Não, não vivíamos!”

Discutem sobre o que era viver na época soviética, até Stepan, que nasceu em 1992, perceber que tem uma pergunta para mim: “Vocês, norte-americanos, pressionam-nos, aplicando sanções”, diz ele. “O que estão a preparar para nós? Uma guerra?” Ele explica os motivos que justificaram a anexação russa da Crimeia, num desafio aberto de Putin ao Ocidente.

“Não há nada para fazer aqui”, diz. “Não há oportunidades, não há forma de crescermos e de desenvolvermos o nosso potencial.”

Stepan hesita em confidenciar-me o seu apelido porque sou uma jornalista norte-americana, mas à saída oferece-me boleia. “Realmente o que quero é sair daqui”, diz.
“Sair de onde?”, pergunto. “De Nizhniy Tagil?”
“Não”, diz. “Da Rússia.”
Depois da sua explosão patriótica, a afirmação é inesperada. “Porquê?”, pergunto.
“Não há nada para fazer aqui”, diz. “Não há oportunidades, não há forma de crescermos e de desenvolvermos o nosso potencial.”
“Os indivíduos nascidos na URSS e os que nasceram depois do seu colapso não partilham uma experiência comum”, escreveu Svetlana Alexievich, vencedora do Prémio Nobel da Literatura em 2015. “É como se fossem de planetas diferentes.”

A União Soviética viveu uma onda de optimismo. Muitos acreditaram que a Rússia tornar-se-ia rapidamente uma democracia florescente de estilo ocidental, mas o optimismo de 1991 dissipou-se numa década de contradições deprimentes. Com o fim da economia planificada, algumas fortunas cresceram num piscar de olhos e algumas pessoas entraram na nova classe média. Para outras, porém, foi um súbito mergulho na pobreza. Bens anteriormente indisponíveis inundaram as prateleiras das lojas, enquanto o dinheiro para as comprar perdeu valor. O crime disparou. A política veio à tona, mas muitos russos passaram a vê-la como um negócio sujo.

Os russos esforçaram-se por se ajustar à realidade estrangeira. Foi uma época de liberdade sem precedentes, mas muitos viram-na como profundamente desorientadora. 

Os russos esforçaram-se por se ajustar à realidade estrangeira. Foi uma época de liberdade sem precedentes, mas muitos viram-na como profundamente desorientadora. “Quando esses valores [ocidentais] se confrontaram com a realidade e as pessoas viram que as mudanças demoravam a chegar, esses valores passaram para segundo plano”, explica Natalia Zorkaya, uma socióloga do Centro Levada, uma organização independente de investigação com sede em Moscovo. Em contrapartida, as gerações mais novas estão agora a adoptar “os pilares da sociedade soviética”.

Sasha, Alexander, Stepan e os seus pares vivem realmente num planeta diferente daquele em que os seus pais e avós vivem, mas de certo modo estão a tornar-se ainda mais soviéticos do que eles. É uma coisa estranha: estes homens e mulheres jovens sabem pouco sobre as privações, hábitos e crueldade da vida soviética. A geração de Putin não carrega essa ferida. O seu desejo de uma normalidade estável feita de famílias intactas e empregos estáveis, mesmo que pouco satisfatórios, é a resposta ao que lhes faltou na década de 1990 e que encontraram na era de Putin.

Estudantes fazem uma pausa na madrassa Muhammadiya em Kazan, cidade cuja população se divide entre russos e tártaros. A maioria dos tártaros são muçulmanos. O islão, a segunda maior religião da Rússia, é professado por 7% da população. A escola ensina religião, humanidades, linguística, história e cultura tártaras.

 No entanto, são profundamente inseguros. Sessenta e cinco por cento dos russos com 18 a 24 anos de idade, ou seja, a primeira geração nascida depois do colapso soviético, fazem planos a um ou dois anos, de acordo com os dados do Centro Levada. São também inertes politicamente. A maioria não está a par dos eventos noticiosos que o Estado não quer que eles conheçam, e 83% confessam nunca ter participado em actividades políticas ou da sociedade civil. 

Liza encontra-se comigo no lobby de uma das muitas torres de vidro que compõem a cidade de Moscovo. Sigo-a através dos túneis subterrâneos que ligam as torres, com cafés, lojas e uma exposição com pinturas de Putin e do ministro das Relações Exteriores da Rússia, Serguei Lavrov. Pedimos o almoço, e Liza conta-me a sua história enquanto sorve o seu borscht. Pede-me para não usar o seu apelido porque não quer aborrecer os pais. 

Nasceu em Blagoveshchensk, no extremo oriental da Rússia, em 1992. Um ano antes, o pai, um professor de história, estava nas ruas de Moscovo a aplaudir a chegada da democracia.
Ao voltar a casa depois da fragmentação da União Soviética, foi forçado a encontrar outras formas de sustentar a família. Começou por atravessar a fronteira com a China trazendo no regresso roupas e electrodomésticos para revender na Rússia. “Lembro-me dele a chegar a casa com dinheiro cosido à camisa para não ser roubado”, conta Liza.

Começou por atravessar a fronteira com a China trazendo no regresso roupas e electrodomésticos para revender na Rússia.

Liza é advogada numa grande empresa ocidental. Está bem, mas não faz o que queria fazer. “Sempre quis ser jornalista, estava sempre a escrever”, conta, acrescentando que a avó guardou todos os seus contos. “Os meus pais disseram-me que o jornalismo não era uma coisa séria. É uma profissão corruptível.” É um pensamento compatível com a década de 1990, quando o jornalismo era comprado e vendido como qualquer mercadoria. “Não vais ganhar muito dinheiro. És a mais velha e a mais inteligente. Tens de optar por uma profissão sólida que permita sustentar-te e cuidar da tua irmã”, disseram-lhe. Ao longo do processo, os pais separaram-se. O negócio do pai floresceu e Liza conseguiu frequentar um liceu nos EUA durante um ano e estudar em Londres.

Enquanto mulher moderna e ocidentalizada, fala com a mãe sobre os namorados e sobre as festas alimentadas a drogas que frequenta. De certa forma, porém, ela é muito russa. “Putin irrita-me”, começa por dizer, soando como muitos no meio oposicionista de Moscovo. “Mas se um estrangeiro tentar criticá-lo, defenderei sempre a Rússia.” Enquanto viveu em Londres, os seus interlocutores ridicularizavam constantemente a Rússia e as mulheres russas, falando delas como noivas por correspondência. “Foi ofensivo. Faziam-me chorar, sentada, a ouvir estranhos a troçarem de nós”,  conta. 

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