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Apoiantes da Outra Rússia, um partido da oposição, manifestam-se com bandeiras e braçadeiras com o seu símbolo, uma granada de mão. Formada por membros oriundos de um partido ultranacionalista proibido em 2010, a Outra Rússia não é reconhecida pelo governo de Putin.

 Actualmente, Nizhniy Tagil tem um novo presidente de câmara, encarregado por Putin de embelezar a cidade, mas a vida ainda é difícil aqui. Sasha frequentou uma escola de soldagem e trabalhou numa fábrica ganhando bem até os preços do petróleo caírem e as sanções ocidentais originadas pela invasão da Ucrânia afundarem a economia. Sasha deixou de receber salário. Passou um ano a tentar encontrar trabalho antes de conseguir colocação numa fábrica da Boeing a duas horas de distância. Agora, recebe 30 mil rublos, ou 480 euros por mês, a média de salários local.

Encontro-me com Sasha no final de um longo dia de trabalho. Ele está cansado e tem as mãos sujas. A cidade que me descreve é um lugar violentamente conformista. “Aqui as pessoas são muito agressivas para qualquer indivíduo que não se pareça com eles”, diz. Há um traje local para a classe trabalhadora: inclui fato de treino e corte de cabelo curto com uma franja rala.

No slideshow, facetas de um homem comum em forma

Putin participou publicamente em diferentes desportos tradicionalmente vistos como masculinos, em contraste com o envelhecido e doente Ieltsin, a quem sucedeu em 31 de Dezembro de 1999. Fotografias: Alexander Natruskin, Reuters; Gabinete de Imprensa e Informação da Presidência da Rússia; Alexey Druzhimin, AFP/Getty Images; Dmitri Astakhov, Getty Images e AFP/Getty Images.

Os pares de Sasha são muitas vezes filhos de ex-presidiários. “Não respeitam a lei”, diz Sasha, que aprendeu a lutar, usando os punhos ou navalhas. Certa vez, regressou a casa coberto de sangue depois de uma luta. Parece estranho, beatificamente alegre, enquanto me conta tudo isto.

O que Sasha quer realmente é fugir para a cosmopolita São Petersburgo e abrir lá um bar. Já esteve na cidade algumas vezes, é onde se sente mais em casa. A namorada não quer mudar-se até ele comprar lá um apartamento. Juntando o salário de ambos, o seu sonho provavelmente será apenas uma quimera.

É um refrão comum em Nizhniy Tagil: jovens com sonhos de jovens, impedidos de os concretizar, pela realidade da Rússia de Putin. Querem viajar, mas os seus salários são pagos em rublos, cujo valor foi reduzido para metade pela crise económica. Querem abrir os seus negócios, mas não sabem como ultrapassar as perigosas vias da corrupção local. Assim, sonham mais baixo. Querem uma casa ou apartamento, um carro e uma família. As coisas que desejam são também as coisas que muitos deles não tiveram precisamente porque as  suas famílias sobreviveram aos anos noventa.

Num campo militar e desportivo, os pára-quedistas ensinam crianças, a partir dos 10 anos, a manusear armas. Putin restaurou o orgulho russo no poder militar do país, derrotando os rebeldes na Chechénia, anexando a Crimeia, invadindo a Ucrânia e intervindo na Síria. Muitos jovens revêem-se numa Rússia reformulada como potência global.

 “Os anos noventa foram muito difíceis para nós financeiramente”, diz Alexander Kuznetsov, um jovem de 20 anos de Nizhniy Tagil. “Em 1998, o meu pai abandonou a família.” Alexander tinha 3 anos. “Todo o salário da minha mãe era gasto em comida para mim. Não tinha muitos brinquedos”, continua. “Não tenho família.” Isso deixou marcas. “Para mim, a coisa mais importante é a família”, diz Alexander. “Não quero lutar por altos cargos e ter uma casa vazia.” 

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